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BAUNILHA E CHOCOLATE
Ou chocolate e baunilha.
Londres, Inglaterra. Dias de hoje.
Lily sente algo no fundo do peito, e Thea também: se elas não começarem a se dar bem, a convivência vai ser ruim, o trabalho vai ser insuportável e elas vão começar a se odiar e se tratar com indiferença sem motivo algum, por pura falta de comunicação e acordos estabelecidos.
O problema é que Lily fala pra caramba e é ótima ouvinte, e Thea também fala pra caramba, é ótima ouvinte e ainda sente mais empatia do que Potter jamais conseguiria uma vida inteira, e é aí que elas decidem que não vão aceitar aquilo.
A partir de agora, e talvez pra sempre, elas vão se respeitar e ser amigas.
— Parece bom pra você? — A ruiva pergunta com cuidado, enquanto segura a mão da morena e as balança no ar, fechando um tratado de paz.
— Pra mim parece ótimo. — Thea sorri, depois jogando as mãos no ar como uma equipe deveria fazer.
Elas estão bem. Elas ficam muito bem.
O problema são as missões.
— Como você acha que podemos agregar numa aula de Segurança para crianças? — Thea quer saber assim que ela e Lily chegam a uma das salas de Hogwarts, cheia de alunos do primeiro e do segundo ano, sabendo que nem ela e nem Potter tem postura suficiente pra impor limites naquelas crianças barulhentas e que olham pra elas com curiosidade. — Parece que eles vão jogar bolinhas de pergaminho em nós duas a qualquer momento, e depois nos oferecer em um culto… O culto das criancinhas.
Mas Lily não vai dar o braço a torcer, amarra sua faixa de cabelo mais firme na própria cabeça como se pra se convencer disso, e fosse uma versão do Rambo se preparando pra guerra.
— Nem que a gente tenha que atacar eles de volta…
E ela falava tão sério, mas tão sério, que quando usa um quadro pra escrever xingamentos que não envolvem palavrões, Thea sente sua pressão baixar e se vê obrigada a se sentar em uma cadeira, ouvindo como chamar de alguém de “filho da puta” é muito ruim, mas “seu melequento inútil” não é tão péssimo quanto parece se você usar a raiva exagerada e na medida correta.
Tem um mundo de crianças olhando pra ela no meio do dia, esperando que Thea preencha aquela aula com um ensinamento tão útil quanto cuspir no suco de abóbora dos seus inimigos da segunda infância, mas tudo que ela consegue fazer é colocar a mão no peito e pedir pela paz mundial.
— Diplomacia sempre vai levar vocês para lugares.
E de repente, é a pressão de Lily que abaixa.
— Violência, violência é que vai levar vocês para lugares.
Não é surpreendente como elas discordam em tudo, mas é especial quando elas percebem que fazem isso com a decência e maturidade de duas jovens adultas.
— Sorvete de baunilha é tão sem graça, você tinha todas aquelas opções e pegou algo com gosto de remédio. — Lily provoca Thea assim que elas saem na rua, deixando a sorveteria para trás e as conversas animadas do fim da tarde também, tomando o próprio sorvete entre um julgamento e outro. — Você faz isso toda semana.
— E você também, pedindo sorvete de chocolate no copinho, porque, segundo uma história que sua mãe me contou três dias atrás, quando foi no restaurante árabe conosco, você nunca conseguia segurar a casquinha sozinha e ficava toda suja e frustrada. — Thea se defende em seu tom educado e polido de assinatura, andando tranquilamente ao lado de Potter e usando uma colher pra impedir que suas jujubas caiam no chão, antes de abrir um sorriso. — Às vezes você tem que aceitar que mesmice é bom. E que você também é básica, como eu.
Lily suspira, sem aceitar a derrota com um argumento bom.
— Uma garota básica tem piercing no umbigo?
E Thea abre ainda mais o sorriso.
— O seu é de pressão. Você desmaiou no dia de furar. Eu segurei sua mão.
Se alguém perguntar a Thea a situação política atual do continente, ela pode sim ter um repertório apurado e detalhista, mas não tanto quanto pode dizer pra alguém quando Lily está triste e demonstra isso usando mais maquiagem, quando a ruiva está mais feliz quando os olhos brilham mais azuis e termina quase toda frase cantarolando, ou como a menstruação delas ficou sincronizada depois de dois meses trabalhando juntas para lá e para cá.
E se alguém perguntar a Lily o que ela pensa das tensões socioeconômicas do país, ela vai dizer que marca cafés com o pai quase toda semana pra analisar e jogar conversa de adulto fora sobre esse assunto, mas não com tanto empenho quanto conta pra alguém que a paixão de Thea por filmes de terror é esquisita, que ama quando elas discutem sobre a qualidade dos glosses de hoje em dia, e que ela sabe exatamente quando sua amiga está com vontade de dar pra alguém.
— É tão feio quando você fala assim. — Thea diz torcendo o nariz, mas sem desviar o olhar do homem no meio do corredor, encarando aqueles ombros largos como se fosse muito difícil de ignorar. — Eu só disse que gosto de olhar pra cima, e que gosto de ombros, e de sorrisos bonitos.
— E tá aí, encarando um desconhecido sem nunca ter visto a cara dele antes, prendendo a respiração e ficando toda encolhida, como se estivesse tendo uma crise. — A ruiva vai pontuando, jogando a mão no ar com impaciência. — Isso é coisa de quem quer dar. Você quer sentar na cara de alguém. Você quer dar e muito.
Não que ela se importe, não que ela julgue. Porra, ela amava dar! Dar era bom demais! E ela concordava com gostar de olhar pra cima, arranhar ombros largos e provocar sorrisos bonitos, em homens e mulheres também no caso de Potter, mas não conseguia entender como Thea simplesmente não tinha coragem de atravessar aquele corredor e oferecer a florzinha dela por aí.
Coisa que nem ela, Lily Luna, fazia.
E Thea sabia.
— Mas já faz um mês que você tá pedindo Merlim pra te dar aquela mulher do setor de pequenas causas, e você nem dá bom dia pra ela!
E Lily também.
— Mas um dia ela vai ser minha. Confio.
Thea suspira, fechando os olhos devagar, depois os abrindo com muita paciência, se virando pro carrinho de documentos que elas deveriam estar levando pra uma sala antes daquela pausa pra ela admirar, com muita atenção e respeito moderado, aquele rapaz no corredor.
— Nós somos tão patéticas que sinto pena. — A morena diz, voltando a puxar o carrinho barulhento atrás dela, esperando Lily para lhe acompanhar. — Sinto pena do meu tio por esperar grande coisa vindo de mim, e dos seus pais pelo mesmo.
— Ah, depois de dois filhos e um deles sendo meu irmão, James, quebrando a casa toda eu tenho certeza que eles não esperavam coisa boa quando eu nasci. — Lily abre um sorriso, aquele que mostra todos os seus dentes e a define como uma pessoa adepta da confusão e do caos. — Ninguém aqui se envolveu nessa situação sem saber, e eu acho isso lindo.
Era uma segunda-feira tranquila.
Teddy estava de folga, não deixou nem uma missão esquisita e sem sentido no quadro de tarefas das duas, só manutenção de escritório diário e como todos os dias, sabendo muito bem que elas iam preencher o tempo de algum jeito.
— Você prefere beber só a sua bebida não favorita, pelo resto da vida, ou poder beber todas as bebidas só com uma gotinha de urina dentro? — Lily quer saber, olha muito séria para Thea quando faz essa pergunta.
— Depende… É uma gotinha ou uma gota muito grande? — Porque aquilo lhe deixa realmente preocupada, incapaz de viver em um mundo onde ela nunca mais possa tomar chá gelado, e completamente alheia a movimentação na sala de arquivos com elas.
A qual não pertencia ao mesmo plano espiritual.
— Mas você tem que concordar que ainda vai ser xixi. — Lily torce o nariz, entregando uma pasta para a amiga na escadinha de apoio, enquanto Thea as empilha em cima da prateleira.
Thea suspira.
— Fecharia os meus olhos pra isso todos os dias, sem remorso.
A movimentação começa com um fantasma atravessando a porta sem ser convidado, então analisando a sala pra procurar as vozes que ouviu no corredor, enquanto ele mesmo tem uma pasta de documentos debaixo do braço, até atravessar a estante atrás das garotas e se fazer presente:
— Vocês por acaso sabem onde fica o setor de direitos trabalhistas no pós vida?
O resto acontece muito rápido.
Thea cai da escada assim que escuta “pós vida”, depois de arrepiar todos os cabelos de seu corpo, quase virando um ponto na estatística de acidentes no trabalho daquela semana, enquanto Lily tem as mãos na cintura, como se julgasse o fantasma por interromper a conversa super relevante delas, antes de lhe questionar o que ela também achava relevante no momento.
— E o senhor? Toparia beber até refrigerante com urina?
Mas a próxima coisa que ela sabe é que está do lado de fora do armário de limpeza, a testa apoiada na porta enquanto escuta Thea chorar e soluçar lá dentro, com a maçaneta firmemente travada nas mãos do outro lado.
— Thea, nós precisamos ajudar ele.
— Mas eu tenho medo de fantasmas e não consigo fazer isso e nem ser racional agora.
Levar um feitiço de batalha era mais fácil, beber só urina sem açúcar era melhor, qualquer coisa era melhor que sair dali e enfrentar a maior fobia que ela tinha na vida, mas Potter não estava convencida.
— E se a gente não ajudar, talvez ele vire um problema nosso para sempre. — Lily se vira no corredor, olhando o fantasma dos pés à cabeça. Ou quase isso. — Você quer mesmo que o Gasparzinho puxe seu pé a noite?
A porta abre tão rápido que ela cai no chão, batendo o rosto com tudo no carpete duro.
— Vou pegar a minha bolsa. — Thea passa por cima do corpo da ruiva estirado e mole pela pancada no chão, abanando as mãos no rosto pra secar as lágrimas. — Não atravessem nem uma parede sem mim.
Mais tarde, na loja de Dominique, Lily consegue achar um band-aid de estrelinhas pra colar no galo que ficou em sua testa e que com certeza vai piorar naquele dia, enquanto Thea conta para a prima de Potter toda a aventura delas no Ministério do Trabalho, animada e meio elétrica depois de três chás de gengibre muito açucarados e muito gelados também.
— Esqueceram de pagar as multas e bônus de hora extra dele, então ele disse que não conseguiu fazer a passagem pro mundo dos mortos sabendo que não ia ter nada rendendo no banco em seu nome. — Thea fala e fala, sem parar, gesticulando muito com as mãos enluvadas pra combinar com o vestido longo e cor-de-rosa de gola alta que está usando, dispensando as faixas dos pulsos e pescoço, na mesma estética retrô dos anos 60 de sempre. — Ele não deixou filhos, nem esposa, só queria saber se tinham pagado o que deviam e ainda adicionaram o seguro de vida e a periculosidade por tabela… Foi uma briga e tanto, e ele até tentou nos abraçar no ar… Mas aí eu desmaiei de medo e não me lembro de mais nada.
Lily encara Thea com medo dela explodir de tanto falar e ter que explicar para Teddy que uma de suas funcionárias, realmente, explodiu de tanto falar.
— Eu acho que preciso de outro ch-
— Não!
O que elas precisam é de bugigangas e julgar adolescentes desocupadas de férias e comprando bijuterias mágicas e mini poções do amor como quem queria correr o risco de voltar grávida pra escola, pregar peças em crianças longe de seus pais e contemplar.
Contemplar tudo que precisa ser contemplado.
— Pulseirinhas que gravam mensagem. — Lily lê a descrição de um dos produtos em voz alta, quando elas param com suas cestinhas na seção de acessórios. — Parece golpe. Parece algo que Dominique venderia pra enganar os outros.
— Mas você tem que admitir que elas são fofas e devem funcionar muito bem como braceletes de amizade. — Thea diz em um tom mais leve e contido, alcançando outra pulseira de plástico barata, que só deve chamar a atenção das pessoas pelo pingente de pérola cor-de-rosa. — Devia ser nosso bracelete da amizade!
Os olhos de Lily brilham quase ao mesmo tempo que os de Thea.
— Mas que ideia maravilhosa!
E elas pensam muito no que deveriam contar para aquelas pérolas brilhantes, e pensam ainda mais no quanto elas podem processar e guardar, antes de entrar em um consenso.
— Baunilha e chocolate… — Thea começa
— Ou chocolate e baunilha. Não precisa ter ordem certa. — Lily a interrompe com as sobrancelhas arqueadas.
Thea faz um beicinho. A mensagem ficou muito longa? Elas podem refazer?
— Droga, vai ficar muito confuso. A gente devia ter lido as instruções antes de testar. Agora vamos parecer duas idiotas.
Lily dá de ombros.
— Eu acho você idiota, você também me acha idiota. Por isso somos amigas… Né?
As pulseiras guardam tudo, até a crise de riso que elas têm meio segundo depois.
No dinner, dinner, you're hungry though! No water, water, you're thirsty though! Only sweet flavors, only desserts...
THEA ☆ VANILLA VERSION
The sweetest chocolate I pick up on the bitter flavor, don’t miss a heartbeat yes I feel it right!
LILY ☆ CHOCOLATE VERSION
SENHORITA MAHIR
Quando chega em casa, Lily Luna chora de verdade e come aquele saco de jujubas também, mas quando os pais perguntam se ela está bem e se quer falar sobre isso, a única coisa que ela grita, lá de seu quarto no segundo andar, é que ela não aguenta mais ser uma garotinha.
Logo depois bate a porta com tudo, como uma garotinha, mas essa parte ela não vai contar pros irmãos, nem isso e nem que abriu a porta depois e pediu desculpas pela explosão de rebeldia.
No dia seguinte, ela está esperando do lado de fora da sala da Senhora Jung, usando um vestido social azul escuro e seu melhor par de sapatos de salto alto. Deixou a mãe fazer seu cabelo e maquiagem, até colocar um colar em seu pescoço, antes dela sair de casa com uma bolsa no ombro afirmando que tinha assuntos mais adultos pra tratar com alguém no trabalho.
Lily sabe que a mãe procurou seu pai, logo depois, pra dizer que aquilo a lembrou de quando ela era pequena e não conseguia nem levar a gaiola da própria coruja sozinha, mas gosta de acreditar que seus pais sentiram naquela manhã que ela estava mais madura, e que sua reunião era mesmo de negócios.
— Mas a senhorita marcou um horário? — a assistente da senhora Jung quer saber, olhando uma agenda em cima de sua mesa muito arrumada. — Porque se é uma reunião de negócios, você deveria ter marcado um horário. A senhora Jung anda muito ocupada com o lobby dela, sabe…
— Mas eu… eu… ontem, na verdade, nós nos falamos e ela disse que eu podia procurá-la pra conversar. — Lily tenta contornar sua falta de atenção para aquele detalhe, antes de endireitar a postura e abrir a boca mais uma vez. — Eu não sabia que precisava.
— Todos precisam.
— Mas eu sou uma Potter.
— Será mesmo? — o desdém da assistente é imenso, enquanto mede a ruiva com o olhar, dos pés a cabeça, antes de fechar a agenda. — Sinto que não posso ajudar.
E antes que Lily possa pensar no que JS faria no lugar dela — ou começar a chorar pela primeira derrota no dia —, a senhora Jung aparece na porta atrás da mesa de sua assistente, exibindo um sorriso bonito e muito parecido com o do filho, usando roupas impecáveis de mulher que realmente parecia estar levando aquele lobby a sério, antes de saudar sua presença com um aceno de cabeça.
— Lily, querida, esperei você a manhã toda.
— Sua assistente disse que não foi bem assim. — a ruiva se volta pra mulher emburrada na mesa, puta da cara
— Ah, mas a Lola agora tem mais o que fazer, porque vai buscar um café pra mim. — Suran diz com falsa doçura, segurando o ombro de sua assistente com muita força, quase perfurando o tecido de seu blazer com as unhas. — E pra você…
— Um achocolatado quentinho. — Potter faz uma pausa. — Mas ia ser legal se ela escrevesse no copo que é café, também.
Na sala da senhora Jung, dá pra perceber que ela foi uma mãe muito dedicada e presente.
Tem fotos de Jun e dela em quase todas as estantes, quase todas as superfícies, e em tantos feriados e aniversários que a própria Lily se pergunta se os próprios pais tiveram o mesmo empenho nos álbuns de família que eles têm em casa. Em cima da mesa de Suran, perto de seu copo descartável de café e uma edição de jornal coreano, tem um porta-retrato dela com Jun ainda criança, talvez alguns anos antes de ingressar para Hogwarts, andando lado a lado em uma rua e parecendo muito felizes juntos. É engraçado pensar que ele é mais alto que ela hoje em dia, e ainda mais engraçado quando ela percebe que passou muito tempo analisando a arquitetura do espaço, e que a senhora Jung está olhando pra ela em silêncio.
— Costumava ser uma foto dele fazendo biquinho, mas aí Marigold me visitou e o provocou sobre a foto, e achei que ele ia morrer se ela continuasse aqui. — Suran comenta, pegando o porta-retrato para Lily. — E talvez morresse, mesmo.
Lily sorri pra foto e a devolve.
— Como você ontem, senhorita Potter.
E aquilo a deixa furiosa de novo. Não com o comentário da senhora Jung, mas com a memória da noite anterior: Teddy e os garotos estragando tudo, sua armadilha tirada pra merda, não poder falar com a imprensa, então ela quase cair da escada por causa de uma fumaça de cigarro.
— É tudo tão irritante! Eu nunca posso fazer nada sozinha, Teddy me trata como um bebê mesmo que meu pai não esteja mais aqui, e toda vez que peço pro James me levar com ele, é a mesma coisa que falar com uma porta. — Ela esbraveja tudo de uma só vez, jogando as mãos no ar de um jeito quase teatral, a voz ficando mais aguda a cada pausa. — Como posso fazer parte do Quartel se nunca posso sair em missões? E qual o propósito das missões se for interrompida no meio delas sem levar meus créditos? Tudo o que eu queria era um pouco de confiança, mas meu chefe é também minha família e acha que não sou capaz de lidar com o mundo sozinha. Nem o perigo, nem o trauma.
Suran a escuta com cuidado e carinho, bebendo do café, analisando as expressões irritadas de Lily Luna, mas principalmente suas palavras e frustrações como se algo tivesse lhe vindo à mente enquanto a garota mais jovem faz aquele desabafo, prendendo sua atenção por um segundo.
— Você devia se impor mais, talvez passar mais tempo com ele. — Jung comenta. — Bancar a puxa saco nunca matou ninguém.
— Ele não se vende assim, olha pra mim e diz que estou fedendo a giz de cera e livro escolar. — ao que Lily suspira, esfregando a franja na testa com força. — Ia ser fácil se alguém pudesse convencê-lo além de mim.
Potter faz uma pausa pra beber seu achocolatado e se sentir miserável em cima daquela cadeira confortável, quer muito afundar o corpo no estofado, mas sabe que vai parecer ainda mais infantil se fizer isso, então escolhe olhar pro teto, porque acha que vai começar a chorar.
De novo.
— Eu falo com ele. — Suran a assegura, largando o corpo em cima da mesa. — Não posso garantir que ele vai te dar missões difíceis, nem que vai te deixar sozinha, mas Teddy também faz parte do meu lobby, e ele vai ter que me ouvir de qualquer jeito.
A próxima coisa que Lily sabe, é que está do outro lado da mesa de senhora Jung, beijando seu rosto e depois saindo pela porta às pressas, completamente realizada, e completamente pronta pelo que viria a seguir.
Ela esperava que sim, até descobrir que não, não estava.
— É um caso importante, por que você não quer ir?
— Porque você me odeia! Isso não é justo!
O que não era justo, também, era Teddy ser muito mais alto e com pernas mais compridas que as dela, porque a cada passo que ele dá, Lily precisa pular pelo menos cinco pra conseguir ficar mais ou menos perto dele, e conseguir cutucar suas costas, que ele deu a ela sem pensar duas vezes, para chamar sua atenção.
— Uma senhora está agora mesmo, no interior, tendo problemas com um dragão no jardim dela, e você acha que isso não é importante? — Lupin chega a olhar por cima do ombro, com uma sobrancelha ofendida levantada, a mão apoiada no peito largo. — Isso foi muito etarista da sua parte.
— Eu quero ver gangues, observar interrogatórios, um quadro de perfis de criminosos só pra mim, e ir no underground mágico com Segen e Jun. — Lily diz, o cutucando com cada vez mais força, até Teddy se virar e deixar ela bater com um dedo em uma parede, causando uma dor surda em sua unha do indicador que quase quebra e ela fica sem fôlego, mas segura o gemido de dor. — Você disse que ia me deixar trabalhar.
— Eu aceitei ordens de uma mulher que quer que eu panflete o nome dela de graça por aí, e que corre o risco de ser a minha, e a sua Ministra, no ano que vem. — Teddy a corrige, abrindo um sorriso para Asteria assim que vê sua figura menor o esperando pra almoçar, segurando a mão de Moon depois de entregar a papelada para Lily, de qualquer jeito. — Estou seguindo ordens, assim como você precisa seguir agora que arranjou problema pra sua cabeça.
O erro dela foi achar que tinha pouco problema, Teddy quer completar, mas sua atual namorada já está enchendo seus ouvidos com sua voz doce falando sobre seu dia e é nesses momentos que ele esquece de todo o resto, até Lily Luna bicuda ficando para trás.
Quando ela aparata no endereço indicado, sente outra pessoa fazer a mesma coisa bem do lado dela, e antes que ela possa reagir ou pensar em qualquer coisa, uma garota usando um vestido comprido e com alguns babados aparece ao seu lado, segurando uma bolsinha na mesma estampa floral de seu vestido, segurando a cabeça com a outra mão.
— Eu ia te pedir pra irmos juntas, mas você andou muito na frente e não consegui te alcançar. — A garota desconhecida diz com uma voz fraca de quem estava prestes a desmaiar, mas logo se recompõe, esfregando a franja na metade da testa, antes de erguer a mesma mão na direção de Lily. — Eu também gostaria de ter me apresentado antes, mas você veio andando na frente…
— Você já disse isso, e eu vi você.
— E porque não parou?
— Porque eu não quis.
O sorriso da garota morena vacila, mas só um pouco, enquanto sua mão continua no ar, sozinha, e ela mesma se cumprimenta com a outra na falta de contato com Lily Luna, pra diminuir a própria humilhação.
— Eu sou a Thea, Teddy me disse que agora somos uma dupla de campo, o que é engraçado, porque eu nunca tive uma dupla antes, e nem nunca sai em campo. — Thea se apresenta e começa a falar, andando na frente de Lily do mesmo jeito que ela tinha feito com ela mais cedo, deixando a ruiva para trás na rua enlameada, típica dos bairros do interior. — Eu costumo ficar lá embaixo, nos arquivos, agora que Segen e Jun ficam mais nas ruas. E ninguém me disse se vou ter um aumento agora que sou a garota que sai na rua e a que faz o relatório da missão depois.
Lily quer dizer que parece uma preocupação pertinente, mas se sente mal por ter deixado Thea andando sozinha na rua antes, e se sente mais mal ainda por não ter se apresentado adequadamente pra ela, enquanto anda a passos calmos atrás da morena e percebe o quanto ela destoa da paisagem mesmo que elas estejam em uma vizinhança de pequenos sítios e casas de campo.
O vestido de Thea parece ter saído de um desses catálogos dos anos 50 ou 60, no auge da propaganda do sonho americano e euro centrado, ela usa batom vermelho e delineador muito marcado também, e um conjunto de fitas que adornam seus pulsos e pescoço como acessórios, mas só faz ela parecer mais antiquada, ovo se tivesse sido vestida pela avó.
Se elas fossem amigas, Lily ia mandar ela botar uma calça de shopping, mas como não são, entram na propriedade de uma velha histérica sem trocar mais nem uma palavra. Só no modo trabalho.
No meio do quintal, a senhora histérica se chama Gertrudes e insiste que tem um dragão em sua propriedade a deixando maluca. Lily olha para as ovelhas no cercadinho parecendo bem tranquilas, enquanto Thea abre seu caderninho querendo saber mais do assunto.
— A senhora diria que é um dragão adulto?
— Só se for um com nanismo — a senhora argumenta com as mãos nos quadris, fervilhando de raiva. — e feito de madeira.
O dragão, então, como se tivesse sido solicitado, se apresenta para as garotas e a dona da casa, surgindo de um arbusto bem cuidado, andando bem posturado como o brinquedo de madeira de menos de um metro que ele é, alcançando os pés de Lily e tomando fôlego pra cuspir fogo pela boca… que acaba se tornando só uma corrente de ar nada quentinha, que dirá em chamas.
— O dragão que está tirando o sono da senhora, é um brinquedo que acha que é um dragão? — Potter pergunta, com paciência moderada, pegando o objeto pelo rabo enquanto ele ameaça morder sua mão se ela não ficar esperta. — Sério?
Pra ela, era papo de mandar aquela senhora se catar, talvez enfeitiçar o brinquedo pra ele realmente cuspir fogo e tocar um pouco de terror de verdade antes de ser recolhido pro setor de objetos mágicos que deram errado, mas Thea prova ser a pessoa mais madura ali quando ergue a mão para afagar o ombro daquela senhora.
— Sinto muito que a senhora tenha passado por isso e por tantos dias. — a morena diz em tom respeitoso, piscando os cílios longos e perfeitos. — Nós vamos levar ele conosco e mandar uma equipe nos próximos dias pra checar a senhora e suas ovelhas que… Foram psicologicamente afetadas por essa pequena ameaça.
Fim do caso, Lily enjaula o dragão de madeira, enquanto Thea o alimenta com um graveto que achou na rua, sorrindo pra criatura sem vida como se fosse um filhote de poodle querendo um pouco de carinho.
— Eles não vão mandar uma equipe pra averiguar a situação. — Potter diz quando elas param na esquina, se afastando do enxame de vizinhos. — E nem estão preocupados com a terapia daquelas ovelhas.
— Mas vai deixar ela feliz e se sentir mais segura, talvez até dormir melhor essa noite. — Thea diz com um sorriso pequeno, alheia a senhora a encarando perto das duas enquanto elas se preparam pra aparatar. — Pessoas precisam ser ouvidas…
— Senhorita Mahir?
Lily e Thea olham na direção daquela voz ao mesmo tempo, antes de olhar em volta procurando por outra pessoa além das duas e o dragão impaciente na gaiola, então olharam uma na cara da outra, confusas.
— A senhora é sensitiva? — Lily pergunta.
— A senhorita Mahir está aqui conosco? — Thea apoia uma mão no coração quando pergunta aquilo, sentindo ele acelerar.
— Não, não. Você, você é parente próxima da senhorita Mahir? De Notting Hill? — A senhora idosa insiste, agora direcionando perguntas a Thea, que ainda parece confusa e desconcertada com a abordagem. — Você se parece muito com uma vizinha que tive na infância, Thamara Mahir, nos anos 60.
Lily espera longos segundos para Thea abrir a boca e dizer algo para aquela senhora, só até ver a garota morena e mais velha piscando os olhos de novo, como se buscasse uma informação no fundo da mente, e quando não encontra, volta a sorrir de um jeito educado e nega com a cabeça.
— Eu não conheço nenhuma Thamara Mahir. Meu nome é Thea, eu moro em Londres, na Oxford com a Regent, e sou órfã.

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S O O N
Chilling Adventures: Archer Hoon
Não é a primeira memória que Archer tem em vida, mas com certeza é a primeira memória que sua família tem sobre ele, desde que ele começou a existir no mundo: o fatídico dia em que sua mãe o teve em uma das maternidades bruxas de Nova York e não em casa como na vez de seus irmãos mais velhos, dessa vez mobilizando a família toda — os que tinham imigrado pra esse país, e até os que ainda estavam na Coreia do Sul — pra acompanhar sua chegada no hospital. Incluindo Alec e Anna, que aos vinte e dez anos de idade, respectivamente, não sabiam exatamente o que esperar desse momento.
— Ele nem é tão bonito assim. — Anna é a primeira a pontuar em um resmungo bicudo, típico de criança, enquanto se inclinava em cima bercinho ao lado da cama de hospital da mãe, tentando ver o caçula recém-nascido bem de perto. — Eu tenho certeza que fui mais fofinha.
— E ninguém vai tirar esse mérito de você, princesa. Mas e se a gente não sufocar o Archer com tanta atenção? — Ao que Alec tenta controlar a situação, agarrando os ombros da irmã pequena antes que ela caia em cima daquele pobre bebê. — Eu tenho certeza que o Archer vai provar seu valor.
Ele mesmo nem consegue digerir como sua mãe, uma senhora com já seus quarenta anos, teve as caras de gerar e colocar no mundo outro bebê, agora que ele tinha acabado de assinar seu primeiro contrato esportivo profissional e Anna parecia finalmente estar perdendo os últimos dentes de leite. Mas ainda assim, quer acreditar que aquilo vai ter algum propósito.
Quando Archer abre um berreiro ao acordar e finalmente se dar conta de que está vivo e existindo, ele quer mesmo acreditar que aquilo tem algum propósito.
Cinco anos depois, o próprio Archer quer encontrar um propósito em ser o filho caçula e virar capacho de sua irmã do meio, toda vez que ela volta pra casa no verão durante as férias escolares. Já faz um mês inteiro agora, e ele sente que a primeira memória que tem sobre Anna, é ela jogando um paninho em suas mãos pequenas e lhe dando ordens.
— Vai limpar a bagunça que você fez no meu quarto.
— Tira seus brinquedos do meu closet AGORA!
— Engole o choro e vai dormir no escuro sozinho 🫵
Puxa vida, como era difícil ter uma irmã adolescente e que não entendia que é, ele vivia derramando farinha e fórmula de leite nas roupas dela. E é, ele amava recriar as batalhas bruxas dentro do closet dela e largar os legos lá de propósito pra ela pisar e quase quebrar o pé. E tudo bem, ele também não devia aparecer igual um espírito obsessor no quarto dela, as três da manhã, aos prantos e dando susto atrás de susto na coitada. No coraçãozinho dele, ele não sabia como se controlar, e se ficava agarrado em uma de suas pernas igualzinho a um bichinho, era só porque a amava muito.
Do jeito dele. Bem torto, graças a Deus.
— Você não pode me colocar em uma caixa pro lixeiro levar, Anna — Archer choramingava, soluçando mesmo, enquanto se balançava dentro da caixa de papelão que a irmã vinha chutando e arrastando pela casa um tempão. — Você me ama!
— Olha o que eu faço com seu amor — E lá se foi ele, escada a baixo.
Cinco anos depois, ele ainda não tinha se esquecido dessa gracinha, mas ficou autoconciente que as coisas iam mudar pra sempre, quando sua irmã do meio anunciou que era a vez dela assinar seu primeiro contrato como jogadora profissional, e que muito além de começar a construir uma carreira, ela ia tentar constituir a própria família.
Morando com o namorado, branco, em uma cobertura na Quinta Avenida, começando de uma vez sua vida de jovem adulta ou algo assim.
E ele não tava chorando. Capaz. Era ela quem estava.
— Seu nariz tá escorrendo, pelo amor de Deus, limpa isso. — Anna usa a mão pra jogar a cabeça de Archer pra trás, antes de quase o sufocar com um lenço de papel e voltar a fazer as malas. — Não é tão longe assim, você pode vir me visitar, e no seu primeiro dia de aula, eu ainda vou te levar pra embarcar com os outros alunos como prometi.
— Mas… Mas… Mas… Anna, você não pode ir embora!
Quem ia colocar ele no cantinho do pensamento e depois dizer que a mãe nunca o deixou de castigo? Quem ia torturar ele com a areia da praia e a água do mar, dizendo que ele ia morrer se encostasse nelas? Quem ia fazer achocolatado quentinho e ouvir ele falar de suas histórias em quadrinho, se não fosse ela?
E tudo isso, tudo isso…
— Por causa daquele loiro horrendo!
Não dava pra dizer que a vida era de um todo injusta, a partir do momento que sua mãe não inventou de dar um presente pra ele também, talvez o promovendo a irmão mais velho, e achou de bom tom finalmente fechar a fábrica depois dele. Talvez pelas bombas de fralda suja, os surtos de choro ou por quase ter colocado fogo na rua toda, no começo desse verão e no auge dos quinze anos, quando Archer achou que ia ser legal tocar fogo na grama seca depois da estiagem e do sol quente.
Mas ficar jogado no sofá de Anna logo no primeiro sábado de volta pra casa, assistindo uma comédia romântica ruim da tv trouxa e se entupindo de pipoca, estava longe de ser algo justo. Ele quase preferia ter ficado em casa de castigo.
— Não é possível que você não tem nada pra fazer hoje. — Indaga, bicudo, deixando o proprio corpo derreter pra fora do sofá, até ficar pendurado de cabeça pra baixo ao lado da mais velha. — Até eu tenho mais o que fazer, hoje.
— Eu tô de boa. — Anna indaga de volta, também bicuda. — Exatamente onde eu preciso estar.
Mas talvez não onde ela quer, mas isso nem ele tem coragem de comentar, não depois de ver a cena pavorosa do namorado de sua irmã dando flores pra ela, antes de avisar que ia sair naquela noite com outra garota — que agora ele sabe, depois de ouvir uma conversa preocupada entre Alec e a própria namorada, que podia ser qualquer uma das “amigas” de Anna, e na semana passada tinha sido até sua vizinha — e que ela nem precisava esperar por ele.
Não importa quantas vezes ele mesmo quis cortar a franja dela de um jeito torto enquanto ela dormia, colar os sapatos dela no meio da sala ou cuspir no copo de suco de abóbora dela, nem no seu pior dia, ele pensaria em assistir Anna ficar triste e magoada em casa por causa de um feio.
Um feio branco, ainda.
O que ele não esperava era que ia ser liberado do castigo mais cedo, e nem que ia escolher passar o resto do verão tentando bolar um plano muito, muito elaborado pra resolver toda aquela situação.
Começou com uma conversa digna de acordo entre gangsters com Damon Lee, um dos cunhados de seu irmão, no jantar de ensaio do noivado de Alec e Monica, que podia ser resumida com uma falha tentativa de parecer um homem de negócios até terminar puxando a manga do terno do mais velho, em meio a lágrimas, pedindo aquele favor.
— O senhor não pode me deixar na mão, o senhor tem que me ajudar a ofertar aquela mulher idosa de vinte e cinco anos na pista, porque a dela anda muito salgada e traidora 😣
E depois se estendeu por dias, semanas, tentando interceptar a coruja de Lee até descobrir que ora pois, ele conhecia, sim, um homem solteiro, e que independente da aparência dele ou quem ele era, tinha que ser melhor que seu atual cunhado fajuto.
E branco.
Archer pensou em quais palavras usar além de um resumo da opera, e até ficou confuso em qual foto mandar para Seungkwan Wolff, entre um card esportivo de Anna onde ela parecia realmente legal, uma capa dela pra revista Woman's Health bruxa que foi proibida em 20 países pelo tamanho dos peitos dela, e mesmo assim achou de bom tom anexar uma polaroide de seu próprio aniversário, onde ela estava com cara de encapetada depois de empurrar a cara dele no bolo e o obrigar a posar e ainda dizer X.
“Se não for suficiente, eu tenho uma coleção de quadrinhos do Super Bosta…”
E ainda assim, nada o preparou pro momento onde precisou ficar escondido atrás da porta do hall de entrada do prédio dela, com Bianca e Violeta se estapeando pra ver quem conseguia ver melhor sua irmã lá fora na calçada, cheia de sorrisinhos e olhos com brilhinhos pra um poste parado no meio da rua, com quem tinha trocado um sem número de cartas aquele tempo todo.
Ele estava feliz? Ele se sentia bem por ter feito algo bom? Ele queria que as coisas terminassem assim? Sim, pra todos os questionamentos, mas, acima de tudo…
— Graças a Deus esse homem se contenta com tão pouco.
Chilling Adventures: Anna Hoon
Nota de conteúdo sensível: consequências a longo prazo de ter crescido na mídia, dramas de um relacionamento assexual X alossexual e problemas de filha do meio.
Já faz tanto tempo que ela conhece aquele homem e todos os defeitos e qualidades dele, como indivíduo mas principalmente como um companheiro, que Anna consegue enumerar sem dificuldade todos os tópicos de conversa que possam assombrar a mente de seu namorado a ponto deles precisarem conversar na sala de estar do apartamento deles.
Não no café favorito deles, nem na cama, mas na sala, um sentado de frente pro outro, como se ele fosse fazer um anúncio muito importante, do tipo que vai deixar ela ansiosamente feliz e com um anel de diamantes muito caro na mão direita, mas não é o que acontece.
— Acho que a gente devia abrir nossa relação.
Definitivamente, não é sobre pedi-la em casamento depois de cinco longos anos juntos, sem contar os outros em Ilvermorny que eles viviam se beijando e saindo de mãos dadas entre as aulas.
Ela não vai ficar noiva depois de dizer que o ama um milhão de vezes, nem depois de ter dividido suas sobremesas favoritas e ter ficado horas ouvindo sobre os interesses dele como se fosse a coisa mais importante do mundo pra ela — porque era mesmo — ou ter se sentido atraída sexualmente por ele muitas, muitas vezes conforme ela se sentia confortável e dentro da frequência física que ela se limitava.
Ela ia continuar sendo todas essas coisas, enquanto ele transava com outras garotas por aí.
— Não é bem assim… — O homem a interrompe, esfregando a mão no rosto quando ela começa a se encolher no sofá. — Não foi isso que eu quis dizer.
— Então o que você quer dizer quando fala que quer conhecer outras mulheres e beijar elas? Nós moramos juntos, fazemos tudo juntos, nos apoiamos em tudo e nos beijamos também, e você sabia que as coisas iam ser assim quando começou. Você escolheu me amar, cuidar do meu coração e dividir uma vida comigo, e agora quer terceirizar nossas fodas como se fosse culpa minha. — E pra uma mulher que fala pouco e escuta muito, ela chega a ficar zonza com tudo aquilo saindo de sua boca de uma vez só, enquanto ela anda de um lado para o outro, atordoada, e com vontade de jogar as roupas dele pela janela daquela cobertura. Talvez jogar até ele mesmo. — Isso não é justo!
Mas ela não fica lá pra descobrir se é ou não, por parte dele, porque acha que precisa de uma xícara de chá de menta que só a mãe sabe fazer, um abraço que só o pai pode lhe dar, e ouvir absurdos que só os irmãos vão ser capazes de lhe entreter quando ela sai de casa com uma bolsa e avisa que precisa de um tempo e que vai passar uns dias em Koreatown.
Mesmo que leve muito, muito mais tempo do que ela planeja, quando chega no hall do prédio e já tem repórteres lá querendo saber porque ela jogou as roupas do namorado — e tentou jogar ele — pela janela.
Tempo também foi difícil quando ela era criança e filha de uma das jogadoras de quodpot mais relevantes da geração, enquanto ia crescendo e descobrindo que a mulher que ela sempre pedia colo e se escondia atrás da saia, era como uma diva pop pra milhares de torcedores naquele país, e que o destino dela, Anna Hoon, era começar a trilhar o mesmo caminho o quanto antes.
Ela se lembra bem de ser jovem e quase tão famosa e requisitada quanto Chanel Yoon, se não fosse pelos comerciais e contratos de modelagem infantil mais expressivos e milionários que os da outra, e o fato de que elas sempre foram muito amigas, sem espaço algum pra rivalidade feminina mesmo quando elas eram adolescentes e dividiam as capas das revistas teen. Anna se lembra de ter sempre muitos amigos na escola, outros vários na faculdade, e ter seu nome sempre atrelado a uma herança de estrelato que ofuscava todos os seus interesses e desejo de privacidade conforme ela ficava mais velha e mais reservada.
As pessoas queriam saber quem ela namorava, quando ia se casar, se ela gostava do seu time, se ela preferia ir para outra liga, se ela queria ser mãe e porque ela raramente dava declarações sobre todas essas perguntas e preservava sua aura tranquila e tímida nas entrevistas e quando eles iam assediar sua paz, bem, no hall do prédio que ela morava depois de brigar feio com o namorado.
Ninguém queria saber se Anna Hoon era uma pessoa, porque ela já tinha virado uma marca fazia muito tempo.
— Aí ele disse que tem necessidades, e que era melhor que me trair. — Relata com todas as letras, o silêncio na sala dos pais não a deixando alheia do barulho de vidro trincando pela força que Alec segura o copo de suco, o que a deixa meio preocupada. — Você não pode bater nele.
— E o que você quer que eu faça? Deixe ele sair por aí tratando você assim? — Ela acha que nunca viu seu irmão mais velho com tanto ódio, talvez por ela ser a única menina, talvez pelos dez anos que separam os dois, mas ela ainda não sabe se acha graça ou fica genuinamente preocupada. Não com Alec, mas com seu namorado. — Não é sua obrigação fazer dele um homem, você não é obrigada a se anular pra ficar com uma pessoa que trata você assim. Você é mais do que isso.
E se ela era mesmo, por que ela não sentia como se fosse? Por que algo no fundo, bem no fundo, lhe dizia que ninguém ia entender como a cabeça e os sentimentos dela funcionavam e que talvez, só talvez, aquele não fosse um preço assim tão caro a se pagar por alguém que era bom pra ela na maior parte do tempo? Sim, ela ainda queria jogar aquele homem da janela do trigésimo andar, mas ele ainda ia ser seu primeiro amor do ensino médio, o primeiro que ela amou de verdade, e que era muito diferente dela.
Muito diferente mesmo.
— Eu vou resolver sozinha.
Mas não queria dizer que ia ser boa ideia.