Chilling Adventures: Archer Hoon
Não é a primeira memória que Archer tem em vida, mas com certeza é a primeira memória que sua família tem sobre ele, desde que ele começou a existir no mundo: o fatídico dia em que sua mãe o teve em uma das maternidades bruxas de Nova York e não em casa como na vez de seus irmãos mais velhos, dessa vez mobilizando a família toda — os que tinham imigrado pra esse país, e até os que ainda estavam na Coreia do Sul — pra acompanhar sua chegada no hospital. Incluindo Alec e Anna, que aos vinte e dez anos de idade, respectivamente, não sabiam exatamente o que esperar desse momento.
— Ele nem é tão bonito assim. — Anna é a primeira a pontuar em um resmungo bicudo, típico de criança, enquanto se inclinava em cima bercinho ao lado da cama de hospital da mãe, tentando ver o caçula recém-nascido bem de perto. — Eu tenho certeza que fui mais fofinha.
— E ninguém vai tirar esse mérito de você, princesa. Mas e se a gente não sufocar o Archer com tanta atenção? — Ao que Alec tenta controlar a situação, agarrando os ombros da irmã pequena antes que ela caia em cima daquele pobre bebê. — Eu tenho certeza que o Archer vai provar seu valor.
Ele mesmo nem consegue digerir como sua mãe, uma senhora com já seus quarenta anos, teve as caras de gerar e colocar no mundo outro bebê, agora que ele tinha acabado de assinar seu primeiro contrato esportivo profissional e Anna parecia finalmente estar perdendo os últimos dentes de leite. Mas ainda assim, quer acreditar que aquilo vai ter algum propósito.
Quando Archer abre um berreiro ao acordar e finalmente se dar conta de que está vivo e existindo, ele quer mesmo acreditar que aquilo tem algum propósito.
Cinco anos depois, o próprio Archer quer encontrar um propósito em ser o filho caçula e virar capacho de sua irmã do meio, toda vez que ela volta pra casa no verão durante as férias escolares. Já faz um mês inteiro agora, e ele sente que a primeira memória que tem sobre Anna, é ela jogando um paninho em suas mãos pequenas e lhe dando ordens.
— Vai limpar a bagunça que você fez no meu quarto.
— Tira seus brinquedos do meu closet AGORA!
— Engole o choro e vai dormir no escuro sozinho 🫵
Puxa vida, como era difícil ter uma irmã adolescente e que não entendia que é, ele vivia derramando farinha e fórmula de leite nas roupas dela. E é, ele amava recriar as batalhas bruxas dentro do closet dela e largar os legos lá de propósito pra ela pisar e quase quebrar o pé. E tudo bem, ele também não devia aparecer igual um espírito obsessor no quarto dela, as três da manhã, aos prantos e dando susto atrás de susto na coitada. No coraçãozinho dele, ele não sabia como se controlar, e se ficava agarrado em uma de suas pernas igualzinho a um bichinho, era só porque a amava muito.
Do jeito dele. Bem torto, graças a Deus.
— Você não pode me colocar em uma caixa pro lixeiro levar, Anna — Archer choramingava, soluçando mesmo, enquanto se balançava dentro da caixa de papelão que a irmã vinha chutando e arrastando pela casa um tempão. — Você me ama!
— Olha o que eu faço com seu amor — E lá se foi ele, escada a baixo.
Cinco anos depois, ele ainda não tinha se esquecido dessa gracinha, mas ficou autoconciente que as coisas iam mudar pra sempre, quando sua irmã do meio anunciou que era a vez dela assinar seu primeiro contrato como jogadora profissional, e que muito além de começar a construir uma carreira, ela ia tentar constituir a própria família.
Morando com o namorado, branco, em uma cobertura na Quinta Avenida, começando de uma vez sua vida de jovem adulta ou algo assim.
E ele não tava chorando. Capaz. Era ela quem estava.
— Seu nariz tá escorrendo, pelo amor de Deus, limpa isso. — Anna usa a mão pra jogar a cabeça de Archer pra trás, antes de quase o sufocar com um lenço de papel e voltar a fazer as malas. — Não é tão longe assim, você pode vir me visitar, e no seu primeiro dia de aula, eu ainda vou te levar pra embarcar com os outros alunos como prometi.
— Mas… Mas… Mas… Anna, você não pode ir embora!
Quem ia colocar ele no cantinho do pensamento e depois dizer que a mãe nunca o deixou de castigo? Quem ia torturar ele com a areia da praia e a água do mar, dizendo que ele ia morrer se encostasse nelas? Quem ia fazer achocolatado quentinho e ouvir ele falar de suas histórias em quadrinho, se não fosse ela?
E tudo isso, tudo isso…
— Por causa daquele loiro horrendo!
Não dava pra dizer que a vida era de um todo injusta, a partir do momento que sua mãe não inventou de dar um presente pra ele também, talvez o promovendo a irmão mais velho, e achou de bom tom finalmente fechar a fábrica depois dele. Talvez pelas bombas de fralda suja, os surtos de choro ou por quase ter colocado fogo na rua toda, no começo desse verão e no auge dos quinze anos, quando Archer achou que ia ser legal tocar fogo na grama seca depois da estiagem e do sol quente.
Mas ficar jogado no sofá de Anna logo no primeiro sábado de volta pra casa, assistindo uma comédia romântica ruim da tv trouxa e se entupindo de pipoca, estava longe de ser algo justo. Ele quase preferia ter ficado em casa de castigo.
— Não é possível que você não tem nada pra fazer hoje. — Indaga, bicudo, deixando o proprio corpo derreter pra fora do sofá, até ficar pendurado de cabeça pra baixo ao lado da mais velha. — Até eu tenho mais o que fazer, hoje.
— Eu tô de boa. — Anna indaga de volta, também bicuda. — Exatamente onde eu preciso estar.
Mas talvez não onde ela quer, mas isso nem ele tem coragem de comentar, não depois de ver a cena pavorosa do namorado de sua irmã dando flores pra ela, antes de avisar que ia sair naquela noite com outra garota — que agora ele sabe, depois de ouvir uma conversa preocupada entre Alec e a própria namorada, que podia ser qualquer uma das “amigas” de Anna, e na semana passada tinha sido até sua vizinha — e que ela nem precisava esperar por ele.
Não importa quantas vezes ele mesmo quis cortar a franja dela de um jeito torto enquanto ela dormia, colar os sapatos dela no meio da sala ou cuspir no copo de suco de abóbora dela, nem no seu pior dia, ele pensaria em assistir Anna ficar triste e magoada em casa por causa de um feio.
Um feio branco, ainda.
O que ele não esperava era que ia ser liberado do castigo mais cedo, e nem que ia escolher passar o resto do verão tentando bolar um plano muito, muito elaborado pra resolver toda aquela situação.
Começou com uma conversa digna de acordo entre gangsters com Damon Lee, um dos cunhados de seu irmão, no jantar de ensaio do noivado de Alec e Monica, que podia ser resumida com uma falha tentativa de parecer um homem de negócios até terminar puxando a manga do terno do mais velho, em meio a lágrimas, pedindo aquele favor.
— O senhor não pode me deixar na mão, o senhor tem que me ajudar a ofertar aquela mulher idosa de vinte e cinco anos na pista, porque a dela anda muito salgada e traidora 😣
E depois se estendeu por dias, semanas, tentando interceptar a coruja de Lee até descobrir que ora pois, ele conhecia, sim, um homem solteiro, e que independente da aparência dele ou quem ele era, tinha que ser melhor que seu atual cunhado fajuto.
E branco.
Archer pensou em quais palavras usar além de um resumo da opera, e até ficou confuso em qual foto mandar para Seungkwan Wolff, entre um card esportivo de Anna onde ela parecia realmente legal, uma capa dela pra revista Woman's Health bruxa que foi proibida em 20 países pelo tamanho dos peitos dela, e mesmo assim achou de bom tom anexar uma polaroide de seu próprio aniversário, onde ela estava com cara de encapetada depois de empurrar a cara dele no bolo e o obrigar a posar e ainda dizer X.
“Se não for suficiente, eu tenho uma coleção de quadrinhos do Super Bosta…”
E ainda assim, nada o preparou pro momento onde precisou ficar escondido atrás da porta do hall de entrada do prédio dela, com Bianca e Violeta se estapeando pra ver quem conseguia ver melhor sua irmã lá fora na calçada, cheia de sorrisinhos e olhos com brilhinhos pra um poste parado no meio da rua, com quem tinha trocado um sem número de cartas aquele tempo todo.
Ele estava feliz? Ele se sentia bem por ter feito algo bom? Ele queria que as coisas terminassem assim? Sim, pra todos os questionamentos, mas, acima de tudo…
— Graças a Deus esse homem se contenta com tão pouco.










