Quioto, 23 de setembro de 2018
Fe,
O tempo não me parece uma constante. Alguns eventos me marcam de maneira inesperada e eu pareço recordar horas e datas, mas de modo geral a vida é confusa e não-linear. Quase um ano atrás, essa mesma figura se refletia no espelho mas de forma diferente. Sem qualificações de bom ou ruim, extremos de vantagens ou desvantagens. Era apenas, diferente.
A inquietude ainda existe. Não a mesma de antes. A inquietude do passado representava uma incerteza sobre minha própria existência, sobre o significado de fazer parte de algo real como esse mundo de toques. No mais, minha consciência existia num lugar paralelo a esse corpo que hoje converso. Meus impulsos e as sensações, os calafrios e as dores, todos indicadores das decisões que tenho a tomar ou das que já tomei. Um pouco mais animal, menos homem talvez.
Aprendi com minha autora favorita que, no fim, somos todos iguais. Não nos diferenciamos dos animais que se locomovem dentro do verde enquanto andamos no cinza. Somos os mesmos mecanismos vivos na terra. Porém, são nossas ações e aquilo que construímos que faz tudo diferente. As dores são sentidas por todos, mas as causas são criações nossas. Criamos nossas próprias angústias e só após o acometimento é que buscamos a solução dos nossos próprios erros. Alguns chamam isso de aprendizado e amadurecimento. Eu apenas identifico a estupidez que construímos em grupo e sofremos individualmente.
Espero que. Esperança. Eu espero. Não temos certeza que espera é essa, mas uma força nos faz acreditar que esperar é, ao menos parcialmente, solução. Pelo que esperamos? Seja lá o que for, na riqueza intelectual ou maturidade emocional, a equação é a mesma que a econômica. Privilégio de poucos, a luta de muitos. Estamos afundados na miséria psicológica.
Hoje venho até você com poucas perguntas. Seria esse um sinal de transformação? Não sabemos. Mas te deixo com meus desejos de que a vida prossiga, mesmo no caos.
Priscila Yamaguchi









