Historicamente, o papel das universidades e das instituições de ensino superior não é só o de qualificar profissionais. Elas estão inseridas numa sociedade que tem suas demandas, anseios e conflitos ideológicos. Faz parte também dessas instituições, portanto, manter um espaço de debate, reflexão, tomada de decisão e criação de novos valores, filosofias e conhecimentos, que são devolvidos à sociedade de muitas formas, inovando-a e transformando-a com o tempo. Dessa forma, na Biologia ou em qualquer outro espaço da universidade, precisamos discutir questões e problemáticas que são transversais à nossa carreira profissional! Também precisamos tomar decisões e nos mobilizarmos como categoria frente a essas questões e problemas que um biólogo ou uma bióloga pode ter de lidar no seu cotidiano: meio ambiente e sustentabilidade, educação, ciência e tecnologia, respeito à diversidade étnico-racial, de gênero, sexualidade, religiosa, e por aí vai.
É a partir daí que surge, nos anos 80, uma entidade que procura criar essa tal "identidade", posicionando e mobilizando estudantes como uma categoria unificada; nasce a Entidade Nacional de Estudantes de Biologia, ENEBio. A ENEBio se organiza no sentido de manter coesão entre todas as pessoas que são estudantes de graduação ou pós-graduação em Biologia e áreas afins no Brasil. Ou seja, esse público que forma a ENEBio é o Movimento de Estudantes de Biologia, MEBio. Os objetivos da ENEBio são levantar, formar, debater e definir questões políticas, culturais e sociais vigentes que ultrapassam o ambiente da sala de aula, procurando contribuir na formação de profissionais que buscam e lutam por uma sociedade livre, de todas e todos e para todas e todos.
Como muitos dos eventos associados à ENEBio acontecem fora da cidade ou estado de São Paulo, procura-se, nessas oportunidades, levar o ou a encontrista de encontro à realidade cultural e social do local. Por isso, não são eventos sisudos, tem festa toda noite (AMO), os papos são bastante tranquilos e você costuma fazer amizade com muita gente de muitos lugares do Sudeste (no caso do EREB) e do Brasil (no caso do ENEB). E os papos não ficam só na teoria; EREBs e ENEBs também contam com vivências, onde o pessoal sai para conhecer na prática novas realidades locais (ida à plantações de cana, favelas, assentamentos, etc.). No final dos eventos, com base na vivência e no acúmulo teórico e prático, há o encaminhamento de ações práticas e de mobilizações a serem tomadas em todas as instâncias da ENEBio.
Entenda o funcionamento da ENEBio
A ENEBio atua em mais de uma escala, atingindo tanto nível nacional como regional e local. Ações mais locais (exemplo: exigir a colocação de um elevador num prédio da universidade, realizar eventos como o Bio na Rua) são mais pontuais, e geralmente são propostas pelos Coletivos, Centros e Diretórios Acadêmicos (os COCADA; o nosso CABio, o Coletivo Trepadeiras, a Estação Biologia, CAMBIO, Taiobas do Matão e todas as entidades são exemplos). Chamamos os COCADA de Entidades de Base. As entidades de base dão dinâmica à ENEBio, articulando e integrando novas instituições de ensino num nível regional e nacional. Inclusive, é função das chamadas Articulações Nacionais e Regionais, AN e AR, incluir novas universidades ao MEBio.
Medidas de ação mais complexas e de formação mais ampla, a nível regional ou nacional (como exigir um ensino público universal e gratuito, ou posicionar-se frente a leis ou eventos que afetem o país ou uma região do Brasil) se concretizam através dos Encontros Nacionais de Estudantes de Biologia (ENEBs), instância que tem seu análogo a nível regional, o Encontro Regional de Estudantes de Biologia (EREB). Tanto o EREB como o ENEB são eventos de formação e deliberação, em cada ano discutem temas diferentes que tratam da interface entre biologia e sociedade (transgênicos, código florestal, formação profissional, diversidade sexual e de gênero, direito à educação, agroecologia...). Os EREBs e ENEBs acontecem uma vez por ano, sendo que há um EREB rolando em cada uma das cinco regiões do país.
O produto de discussão gerado por todas essas instâncias alimenta os Conselhos Nacionais e Regionais, CONEBio e COREBio, também rolam cada um uma vez por ano. A nível regional ou nacional, o COREBio/CONEBio são instâncias deliberativas e de discussão mais profunda sobre questões associadas à ENEBio em si (realiza reuniões e discussões sobre o estatuto da ENEBio, organiza os próximos EREBs e ENEBs...). Em termos deliberativos, esses eventos estão abaixo somente da decisão dos EREBs, e este último está abaixo das decisões do ENEB, entidade deliberativa estudantil máxima. Nos COREBios e CONEBios, debatem-se questões associadas à organização e política do movimento estudantil, não deixando de contextualizar a atual conjuntura político-econômica do país. Também encaminham-se assuntos para o próximo EREB ou ENEB, construindo novas ideias, caminhos e, por que não, laços para os encontros futuros.
A ENEBio também possui algumas ferramentas de politização. Em especial, há o CFPBio (Curso de Formação Política da Biologia), realizados com o objetivo focado na formação política associada a temas da realidade regional. Nele, há um cronograma onde há mais discussões aprofundadas, e ele não é deliberativo, apenas formativo (por isso é uma "ferramenta"). Agora, todas as entidades de base, isto é, os COCADA, ou pessoas interessadas podem participar e deliberar nos COREBios, CONEBios, EREBs e ENEBs, de maneira que qualquer estudante, representado por si só ou em forma de entidades, goza do livre direito ao voto e à plena liberdade de consciência.
Óia só, como a coisa é complexa, vai um esquema que resume mais ou menos tudo isso: [Imagem]
CABio USP