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O primeiro dia em Mitras foi diferente de tudo o que imaginou que iria experimentar ali no local. Conhecer a moça que seria sua esposa foi uma experiência incomum, surpreendente até. Seu nervosismo mostrou-se tão alto que ainda sentia o corpo trêmulo. Estava sem jeito diante da nova conhecida, Aileen, mas esperava que isso mudasse nos dias que se seguissem.
O toque de recolher lhe fez se apressar para voltar para casa, ter uma casa de verdade era uma tremenda novidade; o fato de ter tido o dia tranquilo, sem ninguém para servir, sem clientes… exatamente assim que imaginava ter uma vida normal. Não que conhecesse o normal, trabalhava no prostíbulo da madame Antonieta desde os quinze anos, tinha se acostumado com o péssimo tratamento que recebia. Os gritos, os machucados, tudo isso era sua vida. Bem, não mais.
Possuía um lar. Lutaria por aquele lugar.
Tinha se acomodado no quarto com um livro para ler antes de dormir mas seu nome sendo chamado pela noiva logo após ouvir um barulho na porta, atraiu sua atenção. Sasha dirigiu-se para a sala, os pés descalços no chão frio, trajava uma camisa grande e folgada demais que ia até suas coxas, tinha se aprontado para dormir e não esperava interrupções, muito menos visitas. As sobrancelhas estavam franzidas pois a explicação do guarda não fazia sentido para si. Não tinha família, não tinha amigos — tirando algumas garotas do bordel, Eris Krishna, mas eles tinham entrado no Projeto também, não tinha motivos para enviarem cartas, os veria no dia seguinte.
Ao aceitar o envelope, agradeceu e sentou-se no sofá. Mesmo que soubesse que era impossível que os Conrad tenham escrito algo — já que havia entrado ali como Sasha, não como Oliver — nutria uma tremenda curiosidade quando rasgava o papel para ler o conteúdo da carta. Mas não precisou nem passar da primeira linha, as primeiras palavras já indicavam quem havia enviado aquilo.
Espero que saiba que, quando tudo der errado, minha casa estará aberta aos seu eu arrependido. Espero que só menos sua noiva consiga aturar sua presença por um ano, é o tempo mínimo do casório, não? Enfim, espero que não acabe indo para o exército, se ela lhe largar antes. Ah! O que eu não daria para ser uma mosquinha e ver a pobre garota descobrindo que recebeu uma prostituta como noivo!
Deve torcer para seus clientes não arranjarem uma garota favorita em sua ausência, querida. Se ficar sem nenhum, não poderei acolhê-la. E saiba que, quando fracassar e retornar para sua verdadeira casa, vai aprender que não deveria ter saído. Sua pequena merda, deixar-me aqui sem avisos prévios?! Eu deveria deixar-lhe no olho da rua quando aparecer daqui um ano! Mas, como sou tremendamente solidária, seu emprego estará de pé. Só não espere ganhar algo durante o próximo ano. Terá que compensar o que eu perdi nesse que está por vir. Espero que…
As palavras ácidas não seria mais lida, ainda estava na metade da carta mas resolveu apenas rasgar os papéis. A postura tensa revelava que o conteúdo não foi de agrado algum, mas era apenas isso. Sasha levantou-se rapidamente e seguiu com pressa para o quarto. A respiração ofegante e o coração acelerado foram reações que não conseguiu conter; isso e as lágrimas. Bastou se trancar no quarto para as lágrimas caírem. O papel amassado foi jogado no lixo perto da cama e seu corpo despencou no colchão. O peito doía. Nem mesmo ali teria paz? Aquele casamento não podia ruir como madame Antonieta previa na carta, não sabia o que faria, mas tinha que dar um jeito.