Tinha um córrego no meio da pedra
Passando pela artéria da cidade, havia pessoas afogadas. Gente de todo afogadas no limbo, no asfalto, no elevador. Havia quem sucumbisse de uma vez, completamente encharcada. Crianças pedalando numa mordaz calmaria, de rodas para o ar. Bebês sufocados pela maré - um retrato da concentração extrema. Uma dor. Um cansaço nos rostinhos. Uma espécie de suave agonia que vai e volta e oscila. A artéria viva estuporada.
Num cruzamento francamente obstruído por gordura espiritual, um pouco de cinismo e estupor cresceram na lataria que se atulhava. A terra se transformando numa neurose. Pessoas descartáveis, gente que se pensa essencial e Outros escorrendo diretamente para a boca do bueiro. As melhores pessoas maldizendo, pregando separação.
Um flaneur no meio-fio aponta para pessoas em chamas. Ao lado delas, uma nação é engolida inteirinha por um rasgão que se abriu no chão da terra. O flaneur aponta para cima, mas há apenas um punhado de arco-íris no céu. Infelizmente, ao apontar para baixo, é carregado pelo tumulto e desaparece engolido pelo bueiro.
O dia já se transformava em noite e tudo continuava engarrafando. Alguns países já desenganados iam sendo atropelados por uma horda de parasitas do bem. Enquanto cavalgavam sobre os destroços, seguravam o próprio coração como se tivessem uma jóia nas mãos.