— Tem certeza de que vocês terminaram mesmo? — Ana perguntou pela quinquagésima vez.
— Tenho, Anabela. Não tem mais nada entre a gente — bufei, virando um shoot.
— Cara, dois anos jogados no lixo, foi isso mesmo? Como foi que terminou? — sério que você quer que eu conte a história? Quantas vezes já disse que não quero contar?
— Você não vai parar de insistir, não é? — ganhei sua cabeça balançando negativamente em resposta. — Certo...
"— É isso mesmo, Paola? — ele me perguntou, cabisbaixo, mas ainda assim, podia sentir seu hálito fedendo à cachaça curtida.
— É isso mesmo, André. Sabe... Você virou outro! Olha só pra você! Me deixou esperando por duas horas... Duas horas! — larguei a bolsa em cima do sofá. — E quando você finalmente resolve atender o celular, diz que sem querer esqueceu e que estava bebendo com uns amigos e então eu ouço uma gargalhada estridente de uma provável loira falsa com peitos de silicone — respiro fundo. — Que por sinal, te chamou do apelido que sua ex te chamava — abaixei o tom de voz nessa frase.
— Paola, escuta, não aconteceu nada — ele tentou tocar em mim, mas me esquivei.
Defina nada, André.
— Momento algum eu perguntei se havia rolado. Ou insinuei isso.
— Eu errei... de novo — ele praticamente engoliu as últimas duas palavras. — Me desculpa... outra vez.
— Sabe quantas vezes você me pediu desculpa essa semana? Cinco vezes, André. E olha que estamos na quarta-feira.
— Está tudo corrido, Paola, você sabe! São shows atrás de shows e eu mal estou tendo tempo pra poder comer, dormir ou tomar um banho decente!
— Ou ficar comigo — completei pra ele.
— É...
SilĂŞncio.
— E o tempo que você tinha hoje, você esqueceu que havia marcado com sua namorada de dois anos e três meses pra ficar com uns amigos, onde sua ex se encontrava — jogar na cara é tão bom. Principalmente quando se tem razão.
André se sentou no sofá, próximo de onde eu tinha jogado a minha bolsa e abaixou a cabeça. Ele sabia que estava pisando feio na bola comigo e eu perdoava burrada atrás de burrada. O via chegar bêbado na minha casa e tinha paciência pra suportá-lo, dar banho e coisas do tipo, mas eu estava no meu limite. Eu não conseguia mais. Era como estar caminhando durante três dias sem parar e continuar caminhando com as pernas implorando por descanso. As pernas, nesse caso, era o meu coração.
— Não dá mais — foi o que eu disse e ele me olhou. Ele sabia do que eu estava falando, mas seus olhos passavam que ele não queria acreditar.
— De novo não, Paola.
— Você mudou, mas pra pior, André. Você não é mais o cara que eu conheci. Não é o cara pelo qual me apaixonei. Você... virou outro! Eu não posso continuar desse jeito. Acho que vou sofrer menos se estiver sem você.
Falar aquelas palavras estavam me matando. Eu chorava por dentro e gritava para ele me agarrar e dizer que não iria me perder de novo, porque não podia viver sem mim, mas sabia que ele não ia fazer isso. Ele era fraco demais pra fazer isso e nas suas atuais condições, pior ainda. Ele era um graveto daqueles bem finos preso na árvore e eu um vendaval que podia quebrá-lo há qualquer momento... E era o que eu havia feito.
— Eu não posso perder você — ele sussurrou.
— Talvez você esteja desse jeito porque sabe que tem eu pra te lembrar o dia, local e horário dos seus shows. Sabe que tem a mim pra voltar todo final de noite quando bem entende. Sabe que eu sempre estarei aqui porque eu amo você, mas não dá pra ser mais assim, André — ele sabia que era verdade tudo isso. — Quem sabe sem a Paola, você perceba as besteiras que está fazendo e volte a dar valor à ela. Ou talvez perceba que viver sem ela é o melhor.
— É isso que quer?
— Vou correr o risco."
— E mais nenhuma palavra foi dita. Ele pegou sua jaqueta de couro que fica maravilhosamente bem nele e saiu pela porta, sem nem dizer tchau — finalizei.
— E quanto tempo sem se falarem?
— Seis meses — balancei a cabeça, virando outro shoot.
— E você quer enganar quem que está bem?
— Nunca disse que estava bem, porém, estou vivendo como posso.
Comecei a olhar para os lados, observando alguns casais praticamente se comendo na pista e outros caras maravilhosos sozinhos.
— Não olha pra trás, por favor — Anabela disse e eu, teimosa como bem sou, olhei.
Pra que? Por que eu não a ouvi? Lá estava ele. Meu André. Meu não. Não é mais meu. Mas ele estava lá. Com aquela jaqueta de couro preta desabotoada e com uma camiseta branca por baixo. Estava com aquele seu jeans que lhe caia tão bem e tênis. Cabelo nem preciso dizer que estava bagunçado, né? De certo pelas mãos da piranha que estava com ele. Não... Ele gostava de deixá-lo assim, porque dizia que me seduzia mais. Não só a mim, pelo visto.
Eles estavam próximos demais e quando seus rostos de aproximaram, foi demais para mim. Levantei e saà correndo, tropeçando nos meus saltos em direção ao banheiro. Nem falei nada para Anabela, mas ela devia imaginar o porquê de tudo isso. Eu achava que estaria tudo bem se o visse. Pode ser que sim, se eu o visse sozinho. Seis meses e eu não fui de mais ninguém. Seis meses e ele já deve ter sido de incontáveis mulheres. Daquelas que ele dizia ser uma noite de foda e nada mais. Fui correndo para o banheiro e bati a porta, correndo para dentro de uma cabine e me jogando no chão. Eu não queria chorar, mas não tinha forças. A fraca da história sempre fui eu.
Maquiagem há essa hora havia virado pó, ou água. Ouvi a porta se abrindo e recolhi meus soluços para mim e me encolhi ainda mais. Logo em seguida, batidas na cabine que eu estava. Jura? Sério? Logo aqui?
— Existem outras cabines na droga do banheiro, dá pra escolher outra? — e as batidas continuaram. — Mas que caralho, dá pra ir pra outra?
— Cansei de outras — não. Merda!
E o estrondo na porta, abrindo-a. Ele... Ele chutou a porta? Que tipo de idiota irracional ele Ă©? Me levantei e ajeitei meu vestido, passando por ele, trombando. RidĂculo. E numa atitude totalmente previsĂvel, ele segura meu braço, impossibilitando-me de continuar fugindo dele.
— Dá pra me soltar?
— Sabia que seu nariz fica vermelhinho quando vocĂŞ chora? — sorriso cĂnico. Cara cĂnico. Idiota. RidĂculo. Grosso. EstĂşpido. Babaca.
— Péssimo momento para sua colocação em forma de piada, André — disse seu nome com desprezo.
— Não sabia que você estaria aqui...
— Se eu soubesse que vocĂŞ estaria, eu nĂŁo teria vindo — imitei o sorriso cĂnico que ele havia dado pouco antes.
Me olhei no espelho e eu estava horrĂvel. Ok. Eu estava horrĂvel há seis meses, mas sĂł por dentro. Hoje, agora eu estava por fora tambĂ©m. Com um puxĂŁo, me soltei dele e fui para frente do espelho e comecei numa tentativa inĂştil, limpar a maquiagem. InĂştil, porque ele nĂŁo me deixou terminar.
AndrĂ© chegou por trás de mim e colocou meu cabelo que estava bem maior desde que terminamos para o lado e tomou posse da minha nuca. Merda. Ele sabia que aquilo era meu ponto fraco. Sua lĂngua percorria minha nuca inteira atĂ© onde meu vestido tomara-que-caia permitia que sua ela fosse. Fechei meus olhos e me entreguei Ă sensação. Quem eu estava tentando enganar com aquela pose de poderosa?
— Isso não... pode... acontecer — suspirei.
— Finja que é um sonho — André sussurrou com sua boca colada à minha pele. — Um sonho que um dia já foi real.
Virei-me de frente pra ele e o beijei, segurando firme seu rosto entre minhas mĂŁos. Sua lĂngua logo invadiu minha boca e iniciamos o nosso beijo. Beijo sabor saudade. Se nĂŁo existia, acabamos de inventá-lo. Suas mĂŁos seguraram minha cintura e me levantaram, colocando-me sentada na pia, onde me obrigou a entrelaçar minhas pernas ao redor do seu quadril, deixando-me quase de sua altura. Senti seus dentes segurarem meus lábios e eu o olhei. Sentia meus olhos marejados e os dele firmes nos meus. Podia lĂŞ-los dizendo para que eu nĂŁo chorasse, mas era impossĂvel.
Fechei meus olhos assim que o senti soltar meu lábio e me beijar novamente. Pude sentir o gosto salgado tomar conta de nossas bocas e foi onde eu percebi que eu estava chorando. Droga, não devia estar chorando. Os dedos de André percorreram meu rosto, limpando as lágrimas que caiam.
— Não, baby... — ele sussurrou. — Não chore, por favor...
Suas mãos desceram e apertaram minha cintura com força, fazendo-me suspirar e puxei seu corpo para mais junto do meu, sentindo meus seios encostar em seu peito. Desci minhas mãos para dentro de sua jaqueta e camiseta e arranhei suas costas com força, sabendo que deixaria marca. André soltou um gemido rouco após isso e me olhou com os olhos completamente sedentos por mim.
DaĂ pra frente foi sĂł intensidade. Nossas mĂŁos nĂŁo paravam quietas nem por um segundo e nossas respirações já estavam o máximo que podiam alteradas. Mais um pouco e explodirĂamos. Quando senti uma de suas mĂŁos alisar meu joelho, subindo pela minha coxa e levantando o vestido e indo em direção Ă minha virilha, parei e com muita relutância, o afastei de mim.
— Não. Para! Fomos longe demais, André — desci da pia.
— Você quer, assim como eu. Eu não aguento mais ficar longe de você, Paola! Sabe quanto é ruim cantar todas as noites as músicas que eu sempre cantava pra você, te procurar na platéia e não te encontrar? Ou saber que não vou ter seus lábios no final da noite? Sabe quanto é ruim deitar com uma desconhecida na cama, querendo chamar seu nome? Você não faz ideia o quanto eu sinto sua falta. Fecho meus olhos e imagino ser você. Porque você é o meu amor. É você quem eu amo. Fiz muita besteira e me arrependo, porque perdi a coisa mais preciosa que já tive um dia...
SilĂŞncio.
Eu nĂŁo estava preparada para ouvir aquilo.
— Meu apartamento ou o seu? — sussurrei. E ele sorriu.