Os 100 anos da Semana de Arte Moderna de 1922: O anti-herĂłi sobre-humano MacunaĂma, de Mário de Andrade, e o ET de Varginha
Expoente e preeminente da revolucionária Semana de Arte Moderna de 1922 (ocorrido no Theatro Municipal de SĂŁo Paulo entre os dias 13 e 18 de fevereiro), o escritor, poeta, romancista, contista, crĂtico de arte, musicĂłlogo, estudioso da cultura popular e professor Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945) foi diretor do Departamento de Cultura de SĂŁo Paulo, onde fundou a Sociedade de Etnografia e Folclore.
Um dos idealizadores do IPHAN (Instituto do PatrimĂ´nio ArtĂstico Nacional), criou a MissĂŁo de Pesquisa FolclĂłrica, uma expedição que percorreu o Norte e Nordeste do Brasil para coletar a arte e a tradição popular brasileira e que reuniu cerca de 21.500 documentos, entre fotografias, filmes mudos, danças, mĂşsicas, ritmos, cantos tradicionais e costumes de regiões brasileiras.
Mário de Andrade amalgamou uma imensa galeria de seres fantásticos para criar o “anti-herĂłi MacunaĂma”, paradigma do homem brasileiro. Por ser uma narrativa composta de lendas e mitos indĂgenas e sertanejos, uma espĂ©cie de “coquetel” do folclĂłrico e do popular do Brasil, considera-se a obra uma rapsĂłdia [processo de composição que envolve grande variedade de motivos populares e tradicionais]. Mário de Andrade mistura o maravilhoso e o sobre-humano ao retratar as façanhas de um herĂłi que nĂŁo apresenta rigorosos referenciais espaços-temporais. MacunaĂma Ă© o representante de todas as Ă©pocas e de todos os espaços brasileiros.
Originalmente, MacunaĂma Ă© uma figura da mitologia da lendária tribo dos tapanhumas, recolhida por Andrade do livro Vom Roroima zum Orinoco (Do Roraima ao Orenoco, publicada, em cinco volumes, entre 1916 e 1924), do etnĂłlogo alemĂŁo Theodor Koch-GrĂĽnberg (1872-1924), que, entre 1903 e 1905, realizou expedições ao Alto do Rio Negro, na AmazĂ´nia. Segundo o etnĂłlogo, “o nome do mais elevado herĂłi da tribo, MacunaĂma, contĂ©m como partes componentes a palavra macku, mau, e o sufixo aumentativo ima, grande”.
Theodor Koch-GrĂĽnberg anotando contos de um indĂgena em sua viagem de 1911-13. Fonte: Koch-GrĂĽnberg, T. 1981. Del Roraima al Orinoco (Tomo II). Ca--Economica. 264p.
DestituĂdo da aurĂ©ola idealizada dos românticos, MacunaĂma Ă© o Ăndio moderno, mĂşltiplo e contraditĂłrio, que encarna a figura do malandro: trai e Ă© traĂdo, mente, Ă© indolente, mas esperto e matreiro, individualista, pratica safadezas e fala palavrões... Desde o nascimento, em plena floresta amazĂ´nica, filho de uma Ăndia tapanhumas, o anti-herĂłi revela-se sem nenhum caráter. Vira prĂncipe e trai o irmĂŁo JiguĂŞ ao brincar com as cunhadas, primeiro Sofará e depois Iriqui. Casa-se com Ci, a mĂŁe do mato, guerreira amazonas da tribo das Icamiabas.
MacunaĂma torna-se o Imperador do Mato Virgem. ApĂłs seis meses, tem um filho. A criança morre, transformando-se em planta do guaraná. Ci, cansada e desiludida, vira a estrela Beta da Constelação Centauro. Antes de morrer, porĂ©m, Ci deixa ao esposo uma muiraquitĂŁ, a pedra talismĂŁ das amazonas que lhe daria a garantia de felicidade. Mas o herĂłi perde a pedra que acaba nas mĂŁos do rico comerciante peruano Venceslau Pietro Pietra, colecionador de pedras.
Pude ver e fotografar três raros exemplares de muiraquitã no Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de São Paulo (MAE-USP) durante a exposição “Formas de Humanidade”, que se realizava em janeiro de 1997.
Em companhia de seus dois irmĂŁos Maanape e JiguĂŞ, vem para SĂŁo Paulo a fim de reconquistar a pedra, que simboliza seu prĂłprio ideal. PorĂ©m, Venceslau, que está disfarçado de comerciante, Ă© na verdade o gigante PiaimĂŁ, comedor de gente; por isso, as investidas de MacunaĂma contra ele nĂŁo dĂŁo resultado. SĂł depois de apelar para a macumba Ă© que MacunaĂma consegue derrotar o gigante.
Reconquistada a pedra, MacunaĂma retorna ao Amazonas e se deixa atrair pela Iara, perdendo definitivamente a pedra. Como já nĂŁo vĂŞ mais graça no mundo, vai para o cĂ©u, onde se transforma em estrela da constelação Ursa Maior.
Quem diria que, no final do sĂ©culo XX, MacunaĂma saltaria das páginas do livro, escrito em 1926 e publicado em 1928, para surgir em carne e osso transmutado em algo hĂbrido e ambĂguo, adaptado Ă s paragens e paisagens mineiras de Varginha, desta vez protagonizando uma mistura da fábula espacial E.T., de Steven Spielberg, com a sĂ©rie Arquivo X?
Naquele sábado ensolarado de verĂŁo, 20 de janeiro de 1996, as adolescentes Liliane de Fátima Silva, 16 anos, sua irmĂŁ ValquĂria Aparecida Silva, de 14, e a amiga Kátia de Andrade Xavier, de 22, retornavam a pĂ© do bairro vizinho de Jardim Andere depois de mais um inglĂłrio e fatigante dia de trabalho como empregadas domĂ©sticas, quando por volta das 15 horas resolveram cortar caminho por um terreno baldio e ali se despararam com uma criatura anĂŁ de olhos grandes e avermelhados, veias saltadas nos braços, peito e rosto, pĂ©s enormes, pele marrom brilhante, como que untada com Ăłleo, e trĂŞs protuberâncias – como se fossem chifres – no crânio calvo e superdesenvolvido. A criatura, que estava nua e agachada junto ao muro, demonstrou aturdimento com a presença das meninas, que, apavoradas, trataram logo de fugir do local e contar aos seus familiares o que tinham visto.
As garotas apontando para o local onde viram o ET de Varginha, uma concepção artĂstica da criatura, Paulo JosĂ© (MĂŁe de MacunaĂma) e Grande Otelo (MacunaĂma) em cena do filme brasileiro MacunaĂma, de 1969, escrito e dirigido por Joaquim Pedro de Andrade, e um cartaz do filme.
Do realismo fantástico de Mário de Andrade, para que a histĂłria soasse crĂvel, subtraĂram-se os aspectos mágico e sobrenatural. No seu sentido mais amplo de imaginação, de devaneio criador que prefigura a realidade, a ciĂŞncia entrou em cena e a ficção-cientĂfica serviu como mote estrutural, tanto que o estilo da narrativa se repete, apenas os personagens e alguns poucos detalhes foram trocados, fazendo o espectador apreciar as variações possĂveis de uma mesma fĂłrmula.

















