Arquitetura e a Luta de Gêneros
Há tempos eu me pergunto, como mulher e arquiteta e urbanista, qual será o meu papel para contribuir de alguma forma com a evolução da arquitetura no mundo, se focar em uma visão mais ampla. É fato concebido que mulheres vêm ganhando destaque em papéis profissionais pelo mundo, o que não quer dizer que temos salários equiparados aos salários recebidos por profissionais masculinos. Há alguns meses venho acompanhando publicações sobre a discussão de gênero na arquitetura e sobre algumas estatísticas consideráveis e bem desagradáveis sobre o papel das arquitetas. O termo “desagradáveis” não é direcionado para o trabalho brilhante dessas profissionais no meio e nem sobre o posicionamento de arquitetas no mercado de trabalho, mas da famosa exclusão que ocorre em diversas áreas profissionais por termos o descrédito de simplesmente sermos mulheres. Segundo a pesquisa do SICCAU entre 2012 e 2013, somos quase 51 mil arquitetas no Brasil contra 33 mil arquitetos. Representamos 61% dos profissionais da área, mas continuamos recebendo menos salários e tendo menos reconhecimento no mercado. Uma estatística em particular foi a que mais me desagradou, o fato de que em 37 anos de Prêmio Pritzker, apenas duas mulheres conseguiram ganha-lo. Zaha Hadid em 2004 e Kazuyo Sejima em 2010. Um fato sobre o Prêmio Pritzker que causa ainda mais revolta é a injustiça que Denise Scott Brown sofreu ao não ganhar o prêmio junto de seu parceiro Robert Charles Venturi em 1991, mesmo contribuindo e fazendo parte de todo o conjunto da obra do arquiteto. Fato este fez com que Denise não comparecesse à cerimônia como forma de protesto e nos desse de presente uma célebre frase sobre a luta de gêneros na profissão: "Não expulse sua consciência feminista". É possível citar uma lista infindável de arquitetos que obtiveram sucesso e reconhecimento de mídia, sendo conhecidos até mesmo por pessoas que não estejam ligadas à área. É possível também citar uma lista de arquitetas que chegaram nesse patamar, mas indiscutivelmente esse número é bem menor. Não somos menos competentes que nossos companheiros de profissão, pelo contrário, alguns estudos indicam que a mulher tem mais precisão e cuidado ao fazer um trabalho o que mostra que estamos menos suscetíveis ao erro que eles, mas o fato de termos que lutar incansavelmente para sermos reconhecidas possa nos levar a certa rendição, como nossas ancestrais que tanto sofreram para obter o direito de votar, de estudar, de serem livres. E tantas desistiram. Devemos aproveitar essa onda de empoderamento feminino, do encorajamento das minorias que se faz presente nos dias atuais, para não nos rendermos. Sophya Hayden Bennett não se rendeu quando se tornou a primeira mulher a obter um diploma de arquitetura, Lina BoBardi não se rendeu ao criar projetos geniais e que depois de tantos anos ilustra livros e inspira tantos aspirantes da profissão. Até pessoas que não são da área, com certeza já elogiaram o genial e articulado prédio do SESC Pompeia, a sexta melhor construção do mundo segundo o jornal britânico The Guardian. Já se deparou com a solidificação e a harmonia da paisagem urbana, que jamais teriam formas e princípios tão presentes se não fosse o trabalho de Rosa Kliass e sua contribuição para o quadro do Paisagismo no Brasil. Recentemente em reportagem da BBC Brasil, Lais Modelli aponta Lina e Rosa como peças fundamentais na construção do desenho de paisagem da cidade de São Paulo, em conjunto com a arte abstrata de Tomie Ohtake, artista plástica imigrante, mãe e a musa inspiradora dos trabalhos de seu filho e um dos arquitetos mais reconhecidos do país atualmente, Rui Ohtake. E não podemos esquecer de Charlotte Perriand que provou a Le Corbusier, quando ansiava em ter uma chance no mercado da arquitetura, que não estamos aqui apenas para bordar almofadas, mas para nos tornarmos grandes projetistas de mobiliários e para darmos um caráter mais humano à racionalidade do Modernismo. Somos uma minoria em termos de voz, mas somos a maioria em termos de números e ansiamos pelo reconhecimento que temos direito por questões humanitárias. Hoje, de certa maneira temos uma voz mais ativa na sociedade e podemos brigar por nossos direitos e ir atrás de muito mais. É preciso mais debates sobre a questão de gênero na nossa profissão, assim como em todas as outras áreas profissionais e sociais. É preciso coragem, acima de tudo, para ter destaque em um meio machista que nos engole, mas que nos faz lutar pelo reconhecimento que por muitos anos nos foi tirado.












