É como se tivesse olhado para você da primeira vez e não te reconhecesse. Você, com esses olhos bobos, fazia uma cara de que não entendia nada que se passava ao seu redor. Mesmo tão boba estava inexplicavelmente bonita, com seus cabelos brilhantes banhando seus ombros. Foi nesse encanto de te ver como se fosse pela primeira vez -- juro que nunca saberei distinguir qual é a primeira -- que você me beijou, de costas para a parede. E encheu minha cabeça de microssonhos: aqueles de te passar a mão, e descobrir mais coisas. Mais algumas doses de delírio e voilá: você acabara de criar um romântico iludido. Foi na frente ao despreocupado barman que bebi meus copos, assim que você começou a enrolar para me ver novamente. Me livrei fácil desse problema: colocando máscaras suas nas pessoas que conheci naquele dia. Mas depois de mais alguns dribles seus foi tudo ficando mais pesado e a saudade tintilava nos ouvidos como se berrasse agonizando. Era como ter viajado pelas estrelas e depois disso não poder mais sequer olhar pro céu. Sim, é engraçado ver como uma tarde de domingo te faz pensar na vida; é nessa horas que sinto tanta saudade de você, que tenho vontade de pegar meus tênis e sair para a cidade, para ver se te encontro, na multidão que atravessa a rua. A energia e orgulho da juventude pulsam em minha pele, e não tenho ideia sobre o futuro, de modo que você é uma dor latente na minha alma: a dor mais prazerosa e bela que já existiu. Digo mais: você é provavelmente meu problema favorito. Ando por aí com a vida fodida, cheio de desgraçamentos por toda parte, mas quando se fala em me aborrecer contigo, parece um problema tão divertido de se ter. As tardes de domingo ficam ainda mais desgraçadas quando você não está. Perdem todo o sentido de se preguiçar o dia todo, e as músicas se tornam subitamente mais tristes. Sei que somos dois perseguidores de sonhos, mas não podíamos de vez em quando dar uma pequena pausa para se amar?