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True Self - Crítica
Por Nati Haddad
Nada como se deitar em um divã e contar parte de sua vida para um desconhecido que é pago para ouvir, aconselhar e talvez até te diagnosticar. A trama de True Self começa exatamente assim, em uma sessão de análise onde um ator conta para seu psicólogo sobre a história de um antigo amor, que se perdeu nas engrenagens do tempo.
Curta-metragem produzido no início de 2024 e lançado em 8 de novembro de 2025 no YouTube, True Self leva o roteiro de Lucas Amorim e Vitor de Oliveira, direção de Lucas Amorim e Anderson Peter, produção da The Seven Films e estrelado por Lucas Amorim, Aline Jones e Iuri Saraiva, com participações especiais de Gui Maia, Oliveira Pedreira, Felipe Souza, Victor Garbossa e Diego Versali.
Somos introduzidos a história por uma sessão de terapia entre Zac (Lucas Amorim) e Dr Lincoln (Iuri Saraiva). A conversa começa em torno de notícias de jornais, que flagraram Zac em uma briga com um desconhecido durante sua estadia no Brasil. Para se justificar, o ator fala de seu amor perdido e, ao ser questionado pelo terapeuta, começa sua história.
Zac conhece Gabi (Aline Jones) em uma de suas viagens ao Brasil, enquanto observava chapéus para comprar. Ao tentarem comprar o mesmo chapéu, Zac comenta que o adereço ficaria bem melhor em Gabi, cedendo-o a ela e começando uma conversa, que escalona para flertes e logo escalona para o início de um relacionamento.
Entretanto, existe um impeditivo nessa história, que é o fato de Gabi ser casada. Toda a trama de 19 minutos e 36 segundos se passa em torno da evolução do relacionamento dos protagonistas e em como o marido de Gabi se torna um fantasma em todos os momentos, uma espécie de muro impedindo a felicidade do casal. Só que uma hora Gabi se divorcia, e esse muro é derrubado. Não obstante, Zac ainda reluta em mergulhar num relacionamento firme com Gabi, perdendo o amor da sua vida, talvez para sempre.
Com o final da história, somos introduzidos ao grande plottwist. Nós, e Dr Lincoln, recebemos de Zac uma história parcialmente modificada para proteger a si mesmo daquilo que o ator não queria assumir nem para si, nem para os demais, evidenciando o preconceito enrustido dentro de si mesmo. No meio de suas declarações de culpa, Zac se refere a seu amor no masculino, assumindo então que Gabi era Gabriel, e que o principal motivo para não ter assumido o relacionamento fora o medo.
Com uma trama bem construída e fluida, True Self acerta no desenvolvimento dos personagens, nos fazendo conhecer as nuances de cada um deles – sim, inclusive o psicólogo – e nos fazendo ter emoções, sentimentos, por eles, mesmo que seja uma vontade de dar uns socos com o Zac com a forma como ele rejeita Gabi assim que ela fala do divórcio (Lucas, me deixa satisfazer esse desejo, por favor. Nunca te pedi nada.). Peca, porém, na execução do plottwist, que apesar de ter sido uma boa ideia, soou de forma forçada, como se tivesse sido introduzida de última hora, sem uma construção pregressa que realmente levasse a essa descoberta. Como se tivesse sido colocada aí apenas para dar um choque no espectador e “justificar” Zac ter se recusado a aceitar um relacionamento com Gabi.
Outro ponto forte do filme é a direção de arte e fotografia. Tudo mostra a sensibilidade da pessoa responsável, nos tornando imersos dentro da trama do início ao fim. Também podemos dar um crédito bônus a trilha sonora, que aumentou mais ainda a sensação de imersão dentro da obra. Escolhas excelentes dos produtores, e meus aplausos para eles.
A atuação, porém, é o ponto forte do filme, a chave que torna True Self o que é.
Ian Saraiva não deixa margem para palavras, estando excelente do início ao fim, mostrando o distanciamento necessário entre profissional e paciente, assim como deixando claro para o espectador que os relatos de Zac tocaram o Dr Lincoln em algum ponto, e ele não era completamente distanciado do relato.
Gabi foi perfeitamente interpretada por Aline Jones, que mostrou toda a sua sensibilidade artística e entrega a uma personagem tão complexa quanto ela, mostrando a tristeza profunda que Gabi guardava dentro de si, por se sentir solitária dentro de um casamento sem mais amor, sem mais querer.
No entanto, Lucas Amorim, intérprete de Zac e idealizador do filme junto a Vitor de Oliveira, foi quem mais me surpreendeu. Depois de uma série de atuações no mínimo questionáveis, o ator conseguiu entregar uma atuação incrível, extremamente fluida e sensível, colocando uma verdade no personagem que nos faz se apegar a ele, mesmo querendo bater nele de vez em quando. Nesse filme, eu consegui ver nitidamente a evolução de Lucas como ator, como se tivesse mudado da água para o vinho em pouco tempo.
Desde que eu conheço o Lucas, eu digo para todo mundo que vejo julgando a atuação dele que com uma boa direção e um elenco de qualidade ajudando, ele mostraria que tem habilidades de atuação que ainda não tinha mostrado. Demorou um pouco para pegar no tranco, mas True Self mostrou que eu não estava nem um pouco errada, e que esse é só o começo do que ele pode mostrar para todos nós.
Se eu posso tirar algo de True Self é que uma boa direção faz um bom ator, e que um bom elenco tira o melhor de cada ator que o compõe. E termino esse texto com essa reflexão.
Já dizia Renato Russo em sua música Quase sem Querer, "Mentir para si mesmo é sempre a pior mentira."
Você pode mentir para seu terapeuta, pode tentar mentir para si mesmo, mas a mentira não dura muito. A verdade logo vem a tona, pois está dentro de você. Faz parte de você. Do que você é.
Não fuja de si mesmo.
Accept who you are. Your True Self.
Afternoon Reading / Tardes de lectura (ilustración de Aline Jones)