- NĂłs somos simples demais para esse mundo complexo e eles querem nos provar isso - eu disse, com a mĂŁo em seu peito.Â
Éramos dois vagabundos. Eu pintava quadros e estudava, sabendo que precisaria graduar numa boa faculdade se quisesse pĂ´r o pĂŁo na mesa de casa. Ele estava mais perdido que eu, vagando entre a indecisĂŁo e o nĂŁo pertencer a lugar algum. No fundo sabia, sabia que nĂŁo pertencia nem mesmo a meu lado e eu sabia tambĂ©m, mas deixava que ficasse e ele me acariciava o comprimento da orelha de vez em quando.Â
- VocĂŞ parece conhecer demais, e entĂŁo eles te empurram para o fosso e dizem que conhecer nunca Ă© suficiente, entĂŁo vocĂŞ sufoca, sufoca e sufoca, atĂ© encontrar seu caminho ou se perder na vida. Das duas alternativas, a segunda está mais cheia que o inferno.Â
- VocĂŞ sabe que Ă© jovem, nĂŁo sabe? - ele comprimiu com os dedos o lĂłbulo da minha orelha e parou, olhando para o teto infiltrado por alguns segundos - E que pode ser que tudo isso em que pensa agora seja fruto do seu psicolĂłgico afetado e romântico, certo?Â
- Como previa. Nem você está certa sobre o que quer.
Ele pĂ´s os olhos negros sob mim. Pareciam cansados para lá dos nossos vinte e poucos anos, como se já houvessem presenciado as mais desastrosas catástrofes e a histĂłria da espĂ©cie humana, desde sua gĂŞnese ao lento apodrecimento conforme os anos se passavam e reproduzĂamos feito ratos sem resistĂŞncia ambiental. Vendo-o de baixo era compreensĂvel que tantas o tivessem oferecido os bens mais preciosos que possuĂam por uma noite ou duas. Ele tinha lábios de demĂ´nio, e a voz mais aveludada que os anjos. Estava calejado, perdido, mas era tambĂ©m a prĂłpria encarnação da perdição e do controle, tudo isso ao mesmo tempo. CĂcero falava de amores e de guerra, das coisas mais lindas e das barbaridades mais grotescas, e era impossĂvel manter-se sĂŁo.
- Eu quero sobreviver. De um jeito ou de outro.Â
- É uma seleção natural, e vocĂŞ e eu somos presa fácil, a menos que sejamos um pouco loucos. Por que entĂŁo ter medo de...- cortaram minhas palavras seus lábios afoitos, secos por toda a conversa. Tinham um gosto doce, para lá de toda a cobertura de álcool, nicotina e mentiras absurdas. Cobriram-me de chupões e mordidas, enquanto passeavam por minha boca, pescoço, tĂłrax, seios. Embora nĂŁo conseguisse deixar de reagir positivamente aos estĂmulos, compreendia que aquele era o fim da nossa conversa, e que a resposta que martelava sua mente nĂŁo precisaria sair de seus lábios nunca para que eu a entendesse. NĂŁo ajudava em nada pensar sobre o futuro. O futuro nos engoliria, mais cedo ou mais tarde, e nĂŁo haveria lugar para nĂłs neste mundo depois que os sonhadores se calassem e crescessem.Â
“Ah, AmĂ©lia. A gente nunca vai ser feliz.”Â