Ele veio despretensiosamente, como quem chama um desconhecido para uma transa e vai embora antes de o sol nascer.
Ele era o oposto de todas as minhas poesias: bagunceiro, ruim com as palavras, um tanto quanto calculista demais no modo de ver o mundo - ou talvez eu é que não esteja acostumada a viver ao lado de alguém que não se transborde. Ele era grande, desengonçado, simples. Não havia nenhum grande drama, nenhuma grande montanha russa, nenhuma grande ruptura ou grande despedida.
E eu, que esperava o aperto no peito, fui ficando.
Ele falava sobre coisas que eu não entendia e eu, mesmo sem entender, me acostumei a ouvir. Depois de um tempo, me peguei querendo ouvir, ainda que continuasse sem entender. Me contava sobre um mundo distante, que há tempos eu havia esquecido; um mundo onde eu achei que nunca caberia, e do qual resolvi me fechar porque a terra nos sapatos de um dia caótico de boemia, rum e um carnaval de desajustados me causavam muito mais amor. Seu mundo era um mundo de festas, de viagens, de alguns poucos amigos próximos e de uma família carinhosa e completa, a seu modo. E eu me perguntava, de tempos em tempos, “como você pode ser tão despreocupado a ponto de ver o mundo como algo lindo?”
Como podia ser tão despreocupado a ponto de me ver como algo lindo?
Não lembro como começou, mas ele passou a visitar a minha vida com muita frequência. E mesmo que eu achasse que ele iria acordar e ir embora - porque o seu mundo, pra mim, era o mundo das pessoas que iam -, ele se espreguiçava todo na minha cama pequena e dizia “posso ficar outra vez? Juro que vou embora logo”
Ele nunca punha uma data para ir embora. Dizia que logo mais estaria partindo.
E ele, que ainda não fazia ideia da confusão além dos meus raios de sol, foi ficando.
Discutimos algumas vezes sobre seus pontos de vista. Eu não queria mudá-lo, era lindo vê-lo conquistar a si mesmo e conquistar o mundo. Mas como eu não achava que poderia caber naquilo tudo que ele bordava sobre sua vida, tentei me despedir. E ele disse, com calma, que mudar por si mesmo, pra ser melhor e me manter por perto, era diferente de mudar por mim.
A frase atravessou como uma faca, bem no meu peito. Eu nunca achei que merecesse esse tipo de cuidado. Passara a vida inteira acreditando que era algo de errado em mim, que eu é que devia fazer tudo por todos os outros ao redor, facilitar a vida das pessoas, me adequar e me ajustar. Mudar, para que ninguém mais precisasse.
Mas ele, que também não sabia nada sobre o meu mundo, foi ficando.
Preciso ressaltar aqui um ponto importante. Na verdade, dois pontos:
O primeiro: seus olhos. Os olhos fechavam quando sorria, brilhavam tão intenso que as vezes eu preferia não olhar para eles. Não queria cair de amores pelo que não conhecia. Eu conhecia a confusão, a incerteza, a falta de diálogo ou o diálogo em excesso que não dizia coisa alguma. Ele me falava com os olhos que queria toda a bagunça do meu quarto e a bagunça do meu coração. E falava que estaria ali, para me ver crescer e organizar as gavetas entulhadas e a mesa cheia de coisas antigas e as prateleiras cheias de cartas de um passado que ainda doía. Ele dizia “tome o seu tempo”. E eu, cuidadosa demais por todas as despedidas, achava que não era assim que ele seria feliz.
“Como assim você pode esperar o meu tempo? Como assim você vai estar comigo enquanto eu penso demais?”
Ele ainda deixa as coisas espalhadas pelo quarto. As vezes desliga para o mundo - no meio de uma festa, numa roda de amigos, em qualquer lugar. Ele ainda tem o jeito direto de falar das coisas, enquanto eu dou voltas e voltas e digo que não é sobre a coisa, e sim sobre “como se verbaliza, racionaliza, expressa e se escolhe lidar com a coisa”.
Mas ele me ama. E eu, pela primeira vez, escrevo um texto que não fala só do amor que eu sinto por alguém, mas do amor que a pessoa sente por mim.
Porque eu sou bagunceira e um tanto quanto emotiva demais no modo de ver o mundo. Me perco demais em pensamentos, e falo sobre coisas que, mesmo que ele não entenda, ele quer ouvir. E eu conto a ele sobre um mundo distante - um mundo diferente do dele, cheio de alegorias e histórias fantasticas contadas com três vezes mais dramaticidade, um mundo cheio de dúvidas e medos e inseguranças, e amor próprio e carinho e abertura, e risadas para o jantar e criar a sua própria família do zero, nos amigos que encontra pelo caminho. Eu sou pequena, igualmente desengonçada, mas complexa demais na maioria das vezes. Há sempre um grande drama, um choro longo e emoções que duram horas, dias, semanas. Há sempre a sombra de uma despedida.
Mas ele veio, como quem chama um desconhecido para uma transa e vai embora antes do sol nascer.
E ficou. E amou as minhas partes quebradas, e me mostrou as suas partes quebradas, e nos abraçamos e esse encontro de matérias caminhando pelo espaço nos fez querer ficar, um pelo outro.
No fim nós dois, que não esperávamos ser tanto, que fomos tão feitos pra não ser, fomos ficando.
(Da primeira vez que eu falo do amor que eu sinto e que sentem por mim. Da primeira vez que o outro é o outro, e não algum personagem complexo na minha trama)