Para a surpresa de muitos, já faziam três meses desde que Psiquê e seus traidores haviam sido descobertos, e dois meses desde que um grupo de sete semideuses saíram em uma missão até o Triângulo das Bermudas, de onde até hoje não haviam voltado. Quíron, Lupa e os outros responsáveis pelos jovens heróis estavam preocupados, claro, mas ainda precisavam manter os demais semideuses em segurança, fazendo o possível para que as coisas continuassem relativamente tranquilas…
Porém, o que havia começado como um evento divertido, organizado pelos próprios deuses, acabou em confusão.
O time de Thor estava ganhando o jogo de guerra, e o deus nórdico se gabava com os outros espectadores de seu camarote no campo de batalha. Gargalhava alto e erguia seu martelo, cheio de orgulho, já completamente embriagado de tanto beber hidromel. Não foi nenhuma surpresa para os outros espectadores quando Thor começou a mandar indiretas para o deus egípcio, já festejando a aparente vitória, e menos ainda quando Sobek irritou-se, levantou de seu assento e esmurrou o guarda-corpo da arquibancada com força, quebrando a madeira.
“Você ousa se considerar vitorioso antes da hora, deus do trovão?” a voz poderosa do deus com cabeça de crocodilo ecoou por todo o campo de batalha de Valhala. Os semideuses e magos que ainda lutavam largaram suas armas, voltando sua atenção para a discussão que estaca começando entre os deuses. “Isso não é muito nobre vindo de você, mas não estou surpreso. Psiquê está certa, todos vocês são fracos demais.”
Uma gargalhada sinistra acompanhou as palavras de Sobek, e o nome da deusa insurgente fez com que os demais se calassem. “É esse tipo de deus que vocês querem seguir em uma guerra, mortais? Um que se esconde atrás dos próprios filhos, para que eles resolvam seus problemas divinos? Patético. Todos vocês!” ele apontou para os demais deuses e esbravejou, o poder de sua voz fazendo com que o chão do campo de batalha tremer. Nesse momento, outros deuses que também estavam lá para observar o evento aproximaram-se de Sobek.
A menção anterior à Psiquê já havia deixado claro para todos presentes ali de que lado o deus crocodilo estava, assim como a posição dos demais deuses que deram seu apoio à Sobek. Hela, Ahriman, Éris e os gêmeos Deimos e Fobos já eram de se esperar estar ao lado do egípcio naquele momento, mas o choque veio quando reconheceram a presença da própria Psiquê ali, sorrindo graciosa e se virando para os mortais que observavam a discussão.
“Está na hora disso chegar ao fim! Não se deixem ser usados por deuses egocêntricos como esses, semideuses. Unam-se a mim, e juntos acabaremos com a tirania desses seres egoístas. Eu já fui como vocês, uma mortal, e sofri por muito tempo nas mãos divinas.” ela elevou sua voz para que todos pudessem ouvi-la. “Não quero que mais mortes ocorram, essa nunca foi minha motivação…” um suspiro, carregado com a intenção de fazer a deusa menor parecer genuína, escapou dos lábios dela. “Isso é o que os outros deuses querem, até porque não vão ser eles que lutarão diretamente contra mim. Mais uma vez, vocês estão sendo usados. Pelo Olimpo e por todos os outros panteões em que acreditam.”
O campo de batalha estava em completo silêncio, observando atentamente Psiquê e seu grupo de deuses insurgentes. “Para aqueles que quiserem mais do que uma vida de infortúnios, usados pelos demais deuses como marionetes, estarei esperando de braços abertos. Juntos somos mais fortes, não?”
E com isso ela, e os demais deuses ao seu lado, desapareceram.
O evento foi encerrado, os feridos naquela brincadeira foram tratados e os outros deuses se retiraram, ficando incomunicáveis por pouco mais de duas semanas. O discurso de Psiquê havia mexido com alguns semideuses, isso era bastante visível principalmente para Quíron, e a falta de uma resposta dos demais deuses parecia só piorar ainda mais a situação.
Até que…
A volta de Ozark Riva e Robin Alinsky para o acampamento Meio-Sangue, depois de uma missão do filho de Zeus, trouxe notícias que para alguns foram ótimas.
Por conta do ataque que os acampamentos greco-romanos sofreram no natal, Perséfone começou a criar o seu próprio plano, em favor dos semideuses que ela tanto adorava. Queria poder fazer mais por eles, cansada da ideia de que deuses não podiam interferir nas vidas de seus filhos. Eram seus filhos! Que mãe consegue ver suas crianças sofrendo por tantos milênios sem poder nada?
Diferente de Psiquê, a rainha do submundo não planejava se rebelar pelo próprio bem. Ela queria se opor à Zeus e aos rebeldes que só pensavam nos próprios ganhos, considerando seus próprios filhos como peças em um tabuleiro de xadrez. Seu plano era proteger aquelas crianças, e já estava na hora dela começar a buscar mais aliados para lhe ajudarem a realizar esse sonho.










