24 de Dezembro de 2045 (?)
Você é a pessoa mais confusa e complicada que eu conheço.
Isso não é verdade! Porque você é a pessoa mais complicada e confusa que eu conheço! E eu ainda disse que era poético ter amigos assim! E…
Não tem nada de poético sofrer por cinco pessoas e deixar uma delas te machucar de verdade, não é? Nem nada poético se sentir sufocado por esconder coisas… Desse jeito, de uma pessoa como ela.
Você não é a rainha das verdades verdadeiras, Valentina.
E parecia que nós dois tínhamos chegado em um ponto ali e não era como se eu tivesse feito aquilo pra machucar ela, mas era mais forte do que eu e ela sabia disso, por isso nem pareceu se importar, trabalhando em mais um acorde no violão pra deixar as crianças entretidas em algo pra mais do que uma discussão de dois adolescentes.
Mas quando aceitamos você no grupo, o menininho deslocado e bocudo do Canadá, você só precisava seguir uma regra: nós não mentimos pra Marissa. Por mais que isso vá deixar ela preocupada ou triste ou muito feliz e capaz de acabar com a camada de ozônio com toda a agitação dela, nós, jamais, mentimos pra Marissa. Porque ela não merece esse tipo de tratamento e porque ela é a melhor pessoa que qualquer um de nós três vai conhecer durante as próximas seis vidas. E sabe o que? Você ta mentindo pra ela! Mentindo pra Marissa! Mentindo pra Marissa, como disse pra você não fazer… Eu quero tanto te agredir por isso!
Não foi bem uma mentira, eu só omiti uma coisa que ela com certeza não ia querer saber. Eu te garanto, se aquelas outras meninas e aquele cara pudessem escolher, eles definitivamente querem apagar aquilo da cabeça e da vida deles agora! E eu achei que nós nos importamos mais com a Marissa do que com o fato de mentir pra ela, ainda mais se isso… Deixar ela continuar sendo só a Marissa, minha amiga, que eu por acaso achei que não era só isso um dia, e não Marissa; a garota que me acha estranho e desnecessário por ter escrito uma carta estranha e desnecessária dizendo que amava ela por coisas tão ridículas. Não tenho medo do fora, Valentina, tenho medo de ela nunca mais falar comigo e isso acabar e eu voltar a ser o excluído bocudo do Canadá.
Os olhares de todas as crianças no quarto estavam em cima de nós dois, a maior parte delas nem devia entender o quão conflituoso e catastrófico era estar passando por aquilo e ter uma Nixon - UMA NIXON - me julgando e me ameaçando com um vilão na mão. A outra parte devia achar que era parte do espetáculo que tínhamos prometido fazer pra elas naquela manhã de quase Natal, mas agora nos odiando por só ter dado um punhado de presentes e bolinhos e nenhuma diversão de verdade. Ficar na mesma sala com crianças furiosas querendo um show e uma Valentina furiosa por eu estar mentindo pra melhor amiga dela, na cabeça dela, era a coisa mais sufocante de todas e Vera Brittain e todos os livros e ensinamentos dela não tinham me preparado para aquilo.
Vai. Pra bem longe daqui.
Eu acho que isso é seu. Na verdade, deveria ser, não importa o que é, mas penso, agora, que te privei de ter ele pra você e acabar me devolvendo depois com muita raiva e ódio como aconteceu das últimas três vezes… Mas isso não importa. - E não importava mesmo, tinha parado Marissa Goodwin no meio do corredor de um hospital pra entregar aquele envelope azul petróleo - que eu não sabia, mas nunca tinha saído de dentro da minha mochila e nas páginas do meu livro favorito - e fingir que aquilo não estragaria o feriado dela e declararia que nem em duas semanas, e eu já não teria mais alguém pra falar de adaptações de livro nos cinemas. Era mais do que a cara e a coragem, mas o meu coração também, a parte dele que a via como minha amiga e a parte dele que ainda acreditava e necessitava de ler aquelas palavras escritas vez ou outra pra deixar ela viva. - Não é o seu presente, eu juro, o seu é bem mais legal e útil, eu e minha mãe reviramos o mundo atrás de uma batedeira profissional rosa e com corações vermelhos e com cheiro de morango e eu… Não deveria estar falando isso. Não se fala o que deu de presente pra alguém, fala? - Comentei nervoso, apoiando as pontas dos dedos da mão, que estavam roxos agora, dentro do bolso dos meus jeans, antes de dar alguns passos para trás. - Eu só achei que… Deveria saber. Sinto muito por ter escondido de você e eu sinto ainda mais por ter entregado isso a você.
Para a garota mais sutil, gentil, amável e completa de todas as palavras mais dóceis e puras do mundo e que fui incapaz de escrever cada uma nesse envelope.
Eu sempre vivi atrás de livros; todas aquelas páginas amareladas e cheias de ficção ou dados concretos me atraíam mais do que qualquer coisa. É o meu jeito de me preparar e me educar sobre pessoas e como elas são e como deveria me comportar perto delas, dar nomes a elas e padrões que eu provavelmente já vi milhares de vezes em histórias escrita por pessoas que eu nem conhecia. É a minha maior base de dados pra lidar com os barulhos do mundo e o fato de que ele não gosta de pessoas tão confusas e absurdas quanto eu, mas então, um dia, veio você e, bom, pra algo bom ou ruim, a minha cabeça e os meus livros não conseguiam dizer o que era você.
Eu já conheci centenas de pessoas com um bom coração e simplesmente fundidas com as coisas mais felizes e alegres do mundo, mas eu nunca tinha conhecido alguém como você. Me lembro de sempre achar as suas palavras e esperanças as coisas mais preciosas e raras e que eu precisava guardar elas em algum lugar, pra nunca me esquecer que era o suficiente pra consertar todos os problemas no coração ou mente de alguém, então eu as escrevi, em um monte de cadernos surrados e as vezes na parede do meu quarto, as disse uma vez ou outra pra alguém no dever de repassar os ensinamentos sensatos e confiáveis de uma alma como a sua. Tenho certeza que, se o mundo está mudando pra algo melhor e mais fluido por ai, é porque suas palavras e crenças simples estão chegando em todos os lugares.
Você ainda consegue ser iluminada e fiel e corajosa e encantadora e ter o sorriso mais bonito e sincero de todos que, combinado com os seus olhos que parecem estar constantemente brilhando e sempre vendo coisas boas e puras, se torna uma obra de arte que não precisa de nomes e nem explicações. Eu escreveria milhares de parágrafos e capítulos só pra dizer o quão libertador e confortável é estar perto de você e ser a pessoa pra quem você se vira sorrindo e batendo palminhas pra todo e qualquer tipo de erro do Jae nos jogos de Lacrosse ou quando a Valentina faz uma apresentação boa no coral da Constance.
E eu escreveria mais milhares de livros, se isso ajudasse a entender como me apaixonei tão rapidamente e tão simplesmente por você e todas as pequenas coisas, que somam tantas outras maiores, mas tudo o que eu consegui foi uma carta escrita a mão e com a minha melhor caneta, mas que acabou falhando lá em cima, e é por isso que o texto vai terminar em rosa e glitter… Ficaria assustada com a quantidade de mesmas canetas que minha irmã tem nas coisas dela, mas ela ficou feliz em ajudar.
Eu não conseguiria dizer quando ou como ou por que, mas sim como me sinto sobre tudo e como me sinto só sentindo isso crescer, de um jeito estranho e incontrolável; é maravilhoso, Marissa Goodwin. É maravilhoso estar apaixonado por você e saber que, mesmo que o mundo não se conserte só com a sua existência, o meu mundo, particular e fechado, já se tornou o melhor lugar de todos e, consequentemente, repleto de coraçõezinhos e tons de rosa para todos os lados. E eu espero que essa última parte te deixe feliz, porque isso me deixa desconcertado e desesperado, mas não consigo evitar. É um sonho bom. Um sonho muito bom.