Chilling Adventures of Caterina Atwood: O Melhor Verão da Minha Vida, porém depende.
Entre os meus irmãos, mesmo contando com Nadia, eu era a única que não achava passar férias nos Estados Unidos lá uma coisa tão ruim. Conseguia fazer amigos sempre muito rápido, Jae e Sun e Cecelia eram sempre rostos que me sentia confortável e feliz de rever mais do que fazia com quaisquer outros parentes, e eu gostava da vibe de New York e todas as suas possibilidades.
Era o único lugar onde eu não era julgada pelas minhas ideias e maneiras de me divertir e coisas com as quais gostava de me aventurar, chegava a descer uma lágrima solitária pelo meu rosto quando era obrigada a voltar pra escola e pra casa e esperar um ano letivo inteiro até voltar a casa central da família da minha mãe outra vez.
Não era diferente, o sentimento de ressaca dolorida e quase sentimental e física, naquela manhã na Lycée Fenélon, onde, desde que eu conseguia me lembrar, minha professora de literatura tentava incentivar a mim e os outros alunos a sempre escrever uma redação pós férias ou recessos muito longos e ler pra turma. Eu era conhecida por sempre acompanhar meus atos com drama e muito esforço performático a cada linha do caderno, mesmo que aqueles camponeses do século 21 não merecerem meu tempo e consideração.
— Eu quero que todos vocês saibam que pra mim é um desgosto sem tamanho voltar aqui e ter que lidar com todos vocês, compagnons insignifiants. — Anunciei assim que tomei meu posto na frente do quadro, tomando o cuidado de olhar cada cara deslavada daquela turma, incluindo a do meu irmão gêmeo, pra quem ofereci um sorriso mínimo, mas quem na verdade eu queria socar com uma retroescavadeira. — Só mais dois anos, e essa tortura acaba, mas antes disso… Vamos de colocar em palavras o quão difícil foi o desprazer de dizer adeus às minhas férias de verão.
O melhor verão da minha existência, porém depende. Por Caterina Atwood.
Eu sabia que as coisas estavam caminhando pro lado certo quando ganhei no pedra-papel-tesoura o direito de ficar com o maior quarto do terceiro andar que tinha uma vista privilegiada pro jardim da casa do meu avô Wes, e tive o prazer breve de ver meus irmãos emburrados se mandando pros outros menos interessantes. Nem só de grandes e notáveis vitórias se constrói uma história nesse mundo, sentia que já era o sinal de que estava com alguma vantagem de ter aqueles três meses ao meu favor, e não estava enganada.
— Eu acho que nunca fomos apresentadas, mas é um prazer muito grande conhecer vocês! — Eu sentia que nada podia me abalar e ainda era nosso segundo dia na cidade, tinha sido arrastada pra um passeio de compras e sorvete no shopping com minha prima mais velha e suas amigas e colegas do que ela chamava de Coral, e foi aí que comecei a ver vantagens. — E, se são amigas da Sun, eu tenho certeza que vamos ser boas amigas também!
Eu só queria única e exclusivamente expandir os meus negócios e movimentar meu conhecimento de mercado e planejamentos, é claro.
— Então você alicia pessoas… Tipo uma cafetina. — Regina Chang concluiu mais pra si do que qualquer outra pessoa, enquanto puxava seu milkshake pelo canudinho de papel.
— Não é da maneira desrespeitosa e escrava que se tem em mente… Eu chamo mais de vender o tempo das pessoas, ajudar uma outra nessa linha e ganhar algo em troca. — Tentei me explicar olhando pras duas garotas do outro lado da mesa da sorveteria, achando a confusão estampada no rosto de Nixon um tanto incômoda, se fosse contar todas as histórias que eu já tinha ouvido. — É mais sobre se tornar a acompanhante no grande ato que alguém não pode fazer sozinho, mas não é esse tipo de ato.
— Ahn… Tudo bem. Eu topo. — Regina foi a primeira a se pronunciar, levantando a mão na altura do ombro com um sorriso, antes de balançar os ombros despreocupada. — Se a gente não vai matar ninguém e nem morrer no processo, que mal tem? Eu não tinha nada mais de interessante pra fazer esse verão, mesmo.
No momento seguinte, estávamos eu e Regina esperando uma resposta de Valentina, que quando percebeu toda aquela atenção em cima dela, enfiou um monte de sorvete na boca jurando que íamos parar de notar ela ali.
— Ah, qual é! Eu sou a sua fã desde que me contaram que você foi uma pop star em um monte de casas noturnas e festas aleatórias por quase um ano inteiro! Você é perfeita. — Tentei argumentar, quase suplicar, porque se tivesse as mesmas oportunidades e morasse no mesmo lugar, me sentiria privilegiada em viver todo tipo de aventura que quisesse.
— Olha, eu… Isso, não acabou muito bem e deixou os meus pais muito magoados comigo, tipo… Muito mesmo. E eu só quero evitar ideias mirabolantes nessas férias, principalmente se elas fugirem isso tudo normal. — A outra foi rápida em explicar, gesticulando um tanto com as mãos antes de começar a juntar as próprias coisas, nos abandonando mesmo. — E eu prometi pra mim mesma que ia dar um tempo no lance de meninos o resto desse ano e me concentrar em outras coisas. Eu sinto muito, mas tenho certeza que vai achar outras pessoas.
E eu achei, e como achei, pessoas interessadas em desenvolver minhas ideias mirabolantes e que saíam um tanto do normal, e eu quase poderia me esquecer da traição que fui vítima depois.
— Eu fiz muitos amigos, e todos eles eram muito mais legais e compreensivos do que vocês todos, e eles sim tornaram o meu verão super interessante e fantástico. Eu aprendi muito sobre companheirismo e coletivo, e eu tenho certeza que é um ponto muito positivo sobre o meu crescimento pessoal, agora. — Narrei a parte que eu queria, vendo minha professora achar muito bonito aquelas recompensas morais, pensando que não tinha nada de positivo ou decente aquela minha primeira conexão nas férias, mas ninguém ia saber se eu não contasse sem todas aquelas voltas. — E se teve uma coisa que cresceu nesses meses, foi a zero empatia e consideração fraternal e enorme deselegância da prática da famigerada demência. — Prossegui sentindo o ódio e o veneno escorrendo simbolicamente pela minha boca, ao me focar em Victor, e mentalmente em Heitor onde quer que ele estivesse naquele prédio.
Quando seu irmão mais velho diz que vai fazer uma festa com potencial ilícito e que mesmo assim deu um jeito de acobertar tudo em camadas, você acredita, convida pessoas e ainda vai no evento, porque se caso algo desse errado em desandasse, era ele quem ia se foder e não você.
E eu lá sabia o que Heitor estava tentando esconder naquele sábado no Hamptons, mon Dieu? Estava me concentrando em curtir com meus novos amigos, enquanto vez ou outra, alguém escorregava dois presentes peculiares dentro da minha bolsinha — uma joia pra mim, e algo mais específico pra pessoa que prestou algum serviço específico também — e me agradecia de todo o coração por ter aparecido na vida deles. Dar um jeito de chutar um ex embuste com dignidade, aparecer com alguém novo na rodinha pra dizer que superou tal coisa, ou só precisar da ajuda de alguém pra arrastar um corpo na praia. De nada, volte sempre. Mas eu não era a única estendendo minhas conexões naquele lugar.
— Bom… Isso foi rápido. — Jae comentou ao meu lado segurando um copo de refrigerante — que por incrível que pareça, existia mesmo naquela festa, apesar de muita coisa alcoólica também, meu irmão claramente não dava pontos sem nó —, enquanto indicava um duo do outro lado da sala. Meu irmão e a garota Nixon. — E eu não estou surpreso. Sério. Não mesmo.
— Mentirosos! — Exclamei observando Victor de longe com uma ou muitas intenções pra cima da outra. — Eu tive que ouvir o Victor reclamar de ser obrigado a vir pra cá o ano inteiro, e agora ele quer passar o pinto na minha agregada, que disse que ia dar um tempo de meninos?
— Mas ninguém ta passando o pinto em ninguém. — Jae tentou, muito mal, defender a amiga e meu irmão, encolhendo os ombros quando lhe fuzilei por trás dos meus cílios postiços de brilho. — Pelo menos não ainda… — Tentou contornar o óbvio, me fazendo bater em seu braço no processo. — E, de qualquer forma, não é o fim do mundo. Nós estamos todos nos divertindo, não estamos?
Eu não ligava em quem meu irmão ia se atracar por aí, na verdade eu até apoiava, uma vez que Victor ser um pé no saco só podia se dar ao fato de que não estava se ocupando fisicamente com ninguém, mas precisava logo ser a menina que eu sentia que ia me render uma coleção inteirinha da Pandora?
— Eu aprendi nesse verão que muito além de adubo, água e luz do sol, fluídos humanos também servem pra cultivar plantas bonitas, manter tudo sempre verde e as pessoas longe de pisar ou destruir sua propriedade… Por que quem é que ia ter coragem, de invadir um templo de homenagens e orações frequentes, persistentes e absurdamente sonoras? — Prossegui com meu texto, que só uma parte da turma tinha se tocado, antes de olharem pro lugar do meu irmão, e quando a professora pareceu confusa, abanei uma mão na frente do rosto. — Americanos tem costumes estranhos, a senhora ia ficar surpresa das coisas que vi, ouvi e presenciei nessas férias, sabe?
Nos últimos momentos daquela temporada toda, eu tinha uma mala cheia de jóias novas e umas muitas relíquias literárias, uma fanbase fiel, uma filial em constante desenvolvimento sediada naquela cidade e memórias incríveis, fotos incríveis e novos contatos ainda mais. Quase não senti quando a gente voltou pra casa, não estava nem mesmo mais ressentida quanto a meus irmãos irem catando minhas amigas pra atos libidinosos grupais ou particulares, porém dependia. Mas assim que o grito da minha mãe irrompeu pela nossa casa toda e ouvi Heitor ser chamado de tudo quanto é coisa, e ainda ser ameaçado, nem me desfiz da minha máscara de argila, deixei minha skin care no mesmo instante, achando decente dar o meu parecer.
— Digo e asseguro com segurança que para bem ou mal, fui a única que não saiu sentando em desconhecido e nos amigos alheios sem nem perguntar. — Declarei em alto e bom tom me apoiando no corrimão da escada, ajeitando os fios escapando da toalha em cima da minha cabeça, vendo meu pai querendo acabar com Heitor ali no final mesmo. — Iam ficar surpresos no que o Victor faz quando não está reclamando o tempo todo de tudo e todo mundo e como ele ocupa a boca e atenção dele nas horas vagas. — Expus sem nem me doer, vendo o foco todinho mudar, antes de ajeitar minha postura e acenar com a cabeça em negativa, como se estivesse desapontada. — Eu fui, eu tava, e não só eu, mas a rodinha do Jae e da Sun inteirinha. Não lembro de vocês terem nos ensinado a usar "cadela" para se referir a alguém íntimo… Ou alguém que engole tudo. Quem sabe, sabe. — Me sentindo vingada, os boatos que correm são que usei o ódio, raiva e decepção parental emanando naquela casa pra energizar meus poros e coro cabeludo e nunca mais tive uma espinha ou um fio poroso.
— Eu conheci pessoas, experiências, sabores novos de sorvete e lugares… Mas nada vai superar o fundo do poço alheio, com direito a beber as lágrimas da vergonha e castigo do inimigo derrotado. — Terminei meus dizeres no final da página, suspirando, emocionada de verdade. — E nada me convence que eu deveria ter deixado aquela cidade e essas férias pra me meter aqui de novo. Isso é tudo.











