triggers: sangue, morte e transtorno pós-traumático.
࿐ ACHLYS
Começou com sangue. Nas suas mãos, no seu rosto, em suas roupas. Se olhasse bem para o reflexo no espelho ornamentado em ouro, enxergaria até mesmo seus olhos vermelhos, brilhando com um sorriso que ela não reconhecia como seu. Então a cena se diluiu, como tinta na água, e de repente Electra estava ao lado do irmão. Ele sorria para ela; terno, os olhos idênticos aos seus reluzindo com aquela garra e determinação e sede por vida que ela só costumava enxergar em si mesma quando estava ao seu lado. Algo dentro de seu coração aqueceu — reluziu com tanta intensidade que ela achou que explodiria de tanta alegria. Mas então o mundo de luz escureceu, como se algum deus raivoso rangesse os dentes para a cena, e gradativamente o sorriso de Rowen escureceu também. Até que ele não sorria mais, não, ele cuspia sangue. Electra arqueja quando o irmão se curva em dor, terror escancarado no rosto quando ele desce o olhar para o punhal que… que ela segurava. A lâmina suja em escarlate cai no chão com um estampido surdo e suas mãos cobrem a boca quando um grito ameaça escapar, mas nada sai. Ela não consegue fazer nada. Não consegue gritar. Não consegue se mover. Electra assiste a vida deixar o corpo do irmão; assiste ele se tornar nada mais que um saco de ossos: os olhos — antes tão vívidos — agora vazios. Opacos. Seu último resquício de humanidade, de qualquer coisa que a ligasse ao lado bom de sua existência, esvaindo-se num sopro. Não. Não, não, não. De novo não. A garota grunhe, lutando contra as garras invisíveis que controlavam cada maldito átomo de seu corpo. Damir havia feito aquilo. Não ela. Se o permitisse, se o deixasse, ele faria pior. Destruiria mais — e usando as mãos dela. A sensação familiar, o flashback, fez um estampido rugir em sua cabeça com a súbita noção de que estava sonhando. De novo? Não… Estava acostumada com pesadelos, aquilo era… diferente. Mais gutural. A híbrida — a feiticeira — ergue a cabeça para o vazio eterno acima dela, um ódio quase visceral refletindo de seu corpo para as paredes que teciam o cenário onírico. O mundo balançou, tremeu, e então começou a encolher. Quanto mais ela lutava contra, mais aquilo lutava de volta. Apertava, contraía… Tecia fios ao seu redor. Electra grunhiu, e quando parecia pronta para descarregar mais uma explosão de energia que rasgaria o que quer que se formava ali, seu mundo brilhou em um flash. O aroma adocicado de café irlandês foi a primeira coisa que sentiu. E… onde ela estava mesmo? Alexander, ao extremo de uma mesa de magno abaulada, ditava as palavras para Electra e mais cinco comparsas com aquela calma e firmeza tão característica, mas dessa vez, havia algo mais resoluto ali. Ela sabia exatamente do que ele falava. — É arriscado demais — dizia uma mulher. A híbrida a reconhecia. Era… humana. Não parecia estar com eles faz muito tempo, mas algo nos seus traços… Foi a primeira amiga que Electra fizera na infância? Pelos deuses, como estava velha! Como acabou naquela sala? Ela continuou falando: — E vai matar todos nós. Já tivemos perdas o suficiente. — Se não quer lutar — um homem alto e musculoso a respondeu, lançando-a um olhar crítico — basta sair por aquela porta. É guerra, Aya, precisa fazer sua escolha. — De onde estava, Electra podia facilmente ver a orelha pontuda dentre a cabeleira negra do semi-feérico. Humano e fae. — Se a gente vacilar por um segundo, só um maldito segundo, sabe o que acontece. Todos aqui sabemos. Aya ergueu o queixo, porém seu olhar tremeu quando, por segundos, as íris tiveram um vislumbre do enorme quadro na parede ao lado deles. Electra sabia, apenas sabia, que todas as fotos antigas, artigos de jornais e mapas ali só indicavam uma coisa: a morte de entes queridos. O caos e destruição alavancados pela explosão de uma guerra de egos. Sangue. Desejo por poder. Sobrenaturais não eram nada, nada diferente dos humanos. Tinham apenas a vantagem de maior atributo para o caos, se bem quisessem, só que ainda era o mesmo pó das estrelas que escupia a essência humana que também tremeluzia nos sobrenaturais. Electra nunca esperou nada de nenhum dos lados. Para ela, tanto fazia se os dois se fodessem igualmente se fosse o que o destino reservava, mas… Com tanto a perder, como diabos conseguiria manter um pé na plataforma e outro no trem? Todas as amizades, os laços, que mesmo quando dizia não se importar, lampejavam em uma dor de cabeça constante de memórias. Algo dentro dela gritava por vingança. Não… por justiça. A única herança que Rowen havia lhe deixado. A híbrida por fim olhou para o quadro — e o chão pareceu tremer sob seus pés. Todos. Não só humanos, não… Qualquer um próximo de si que havia ousado se opor à supremacia e se afiliar com humanos, também pregados ali. Como aquilo sequer era possível? — Eu não vou parar de lutar. — Seu sangue fervia nas veias. Quando escutou a própria voz, no entanto, algo dentro de si rugiu mais uma vez, despertando uma fúria adormecida. Alguma coisa estava errada… Alguma coisa estava errada… O chão novamente tremeu sob seus pés, o que antes era só um sentimento moldando-se em algo físico. A garota levantou da cadeira num impulso que fez o objeto tombar para trás. Ela olhou para os lados, para seus colegas. Todos a encaravam, os olhos agora frios. Vazios. Electra, então, fechou os olhos e riu. Riu alto. Filho da p… Dessa vez, ela estava preparada para o flash de luz branca, e a descarga de magia que irrompeu de si mesma fez com que o que quer que corresse para sua direção recuasse, atordoado e surpreso. Ela rosnou e ergueu as mãos, quase um ato simbólico, quando uma névoa do que parecia uma galáxia flutuante de estrelas e supernovas emergiu de seus dedos; eles dançavam enquanto Electra os movimentava no ar, como se quisesse modelar uma massa. Tudo ao redor dela agora era cinza, mas já sentia as teias sussurrando e deslizando ao seu redor. Com um erguer dos lábios, ela deu o último sorriso, seu deboche tão característico, antes de dizer: — Não sou chamada de Feiticeira dos Pesadelos à toa, otário. O mundo onírico explodiu em luz e estrelas. Electra sentia cada íntimo de sua essência vibrando com sua magia ancestral. Sentia o sangue dos Vathaen, aquele sobrenome de uma linhagem tão antiga que ela não se atrevia mais a usar, pulsando e gritando nas suas veias enquanto as garras invisíveis lutavam para só tentar dominá-la mais uma vez. Sua visão irrompeu em chamas — e a última coisa que sentiu antes de tudo escurecer foi raiva; raiva e frustração. Nenhum dos sentimentos, porém, pareciam seus. Os olhos se abrem num sobressalto. Electra suava. Sua cabeça parecia querer implodir. Que merda tinha acabado de acontecer? Apesar de fresca, a memória do sonho lhe soava vaga e sem sentido. Estava furiosa e não fazia a menor ideia do porquê, mas… pela primeira vez, algo dentro de si mesma parecia estar claro, como se uma peça tivesse se encaixado no lugar. Pela primeira vez em muito tempo, Electra sabia exatamente quem ela era.











