(...) a dogmática transcendental [obriga o senso comum] a elevar-se a conceitos que ultrapassam largamente a penetração e a potência racional das inteligências mais exercitadas no pensar. (...) Encontra[-se] assim num estado em que nem os mais sábios lhe levam qualquer vantagem. Se é certo que disso pouco ou nada entende, também ninguém se pode gabar de entender muito mais; e embora não possa dissertar sobre esse assunto, tão metodicamente como outros, pode, todavia, entregar-se a todas as argúcias e subtilezas, porque divaga por entre puras ideias, acerca das quais se pode ser o mais eloquente possível, porque delas nada se sabe; ao passo que, no tocante à investigação da natureza, teria de calar-se e confessar a ignorância. Comodidade e vaidade são, pois, uma forte recomendação a favor destes princípios. (...) A dificuldade de não compreender [a suposição em que deposita confiança] não o inquieta, porque (não sabendo o que é compreender) nem sequer lhe vem ao espírito e assim reputa conhecido o que, por um uso frequente, se lhe tornou familiar. (...) Também o interesse especulativo desaparece perante o interesse prático e imagina saber aquilo que os seus temores ou as suas esperanças o levam a admitir ou a crer.