A procura sem fim por memorias corrompidas pelo próprio desejo de esquecer, perdido em um labirinto infinito de escadas rolantes com várias portas e passagens ligadas entre elas, onde pessoas aleatoriamente subiam e desciam, então perguntei para essas pessoas várias vezes onde eu estava e o que estava acontecendo, mas era continuamente ignorado pelos estranhos.
Sentei em um banco que em um dos pisos da troca entre uma escada rolante e outra, não sabia o que fazer, estava observando tudo sem pensar procurando um talvez que me desse um caminho e um sentido. As coisas estavam ficando mais embaçadas do que de costume com minha fraca visão, comecei a me sentir cansado e com o corpo pesado senti um estranho sentimento de fim. Levantei do banco e olhei para baixo vendo a enjoativa repetição dos acontecimentos, pensei que a saÃda mais rápida seria pular daquele piso, não sabia ao certo se sairia ileso, comecei a pensar que aquilo acabaria rápido porque talvez estivesse sonhando e logo esqueceria a situação confusa.
Repentinamente escutei um sussurro de uma voz conhecida, me sentia despertado, olhei aflito para todos os lados procurando de onde vinha aquele sussurro, comecei a subir e descer rapidamente as escadas rolantes, mas apenas as que não tinham multidões empacando o meu caminho, parei em um dos pisos para analisar ao meu redor. Então vi um único rosto feminino, não conseguia enxergar muito bem, mas seus curtos cabelos negros, óculos e o livro que ela estava segurando não me eram estranhos, gritei aflito pelo seu nome e a multidão começou a me encarar fixamente sem parar a repetição de trocas de escadas, mas a única pessoa que queria que me olhasse nem sequer se moveu, tentei procurar escadas rolantes que não estivessem ocupadas, mas todas estavam cheias de um momento para o outro, sem pensar duas vezes comecei a ir para escadas rolantes que iam para direções contrarias de seus destinos e também arranjava caminho pela multidão que continuava a me encarando fixamente sem qualquer outra reação.
Cada vez que parava para tentar reencontrar a garota ela ia para uma escada rolante diferente, mas cada vez mais perto do que antes. Quando estávamos entre uma escada que subia e outra que descia, eu não consegui me segurar, pulei entre elas sem muito esforço e parecia que as pessoas haviam liberado um pequeno espaço para eu poder aterrissar sem causar problema, logo estava na mesma escada rolante que a garota, comecei a procurar espaço entre a multidão novamente para chegar até ela, mas não consegui, então resolvi esperar até chegar no próximo piso, ela ficou naquele piso imóvel olhando para a infinita repetição das coisas em volta.
Quando cheguei perto dela senti seu cheiro familiar e chamei pelo seu nome, ela se virou e estava chorando, então ela começou a falar, mas não escutava sua voz sair via apenas suas reações que pareciam desesperadas e as suas lagrimas caindo, tentei dizer que não estava entendendo o que ela estava me dizendo, mas ela continuou a falar e parecia que já estava gritando, a multidão a minha volta começou a derrubar lagrimas de sangue com a mesma reação de seus rostos imóveis me encarando fixamente, comecei a me assustar com que estava acontecendo, fechei os olhos por um segundo para respirar e segurar minhas lagrimas de tensão, quando abri os olhos ela estava descendo até uma escada rolante que dava até um piso térreo com uma grande passagem que tinha uma pequena plaquinha verde com um desenho de um bonequinho andando. Segui-a tentando correr, mas não conseguia correr, então tentei gritar seu nome repetidas vezes, mas estava sem voz parecia que ela estava descendo mais rápido e eu estava me afastando dela, comecei a me desesperar. Ela chegou ao piso e parou na passagem por um momento, tirou os óculos e guardou-os em algum lugar, largou o livro e começou a correr para passagem, senti seu cheiro indo embora. Quando cheguei ao piso me ajoelhei e peguei o livro, sua capa estava toda em branco folheei as paginas que também estavam em branco, o livro em um piscar de olhos havia sumido de minhas mãos, comecei a chorar sem saber o motivo, vi lagrimas de sangue caindo no chão, passei a mão em meu rosto e realmente era sangue, então dei um grito que ecoou infinitamente pelo labirinto, me levantei, olhei em volta, a multidão havia sumido e as escadas rolantes não funcionavam mais, escutei novamente o sussurro dela e comecei a correr pela passagem...