Então foi assim, cara. Deixei pra lá. Larguei. Abandonei. Foi difÃcil pra caralho, mas larguei de mão. É como dizem, cara, à s vezes dar um passo pra trás é melhor do que dar um pra frente e você acabar caindo em um precipÃcio. Assim, cara, eu sinto falta dela ainda, sabe? Falta do calor dela, do cheirinho dela no meu travesseiro, das roupas dela espalhadas pelo chão da casa ou da cantoria dela enquanto cozinhava alguma coisa pra gente, só que sentir falta sozinho, não adianta nada, muito menos amar sozinho, então, com muito custo, consegui deixar pra lá. Acho que agora não vivo mais em função dela. Ei, cara, você lembra da loira? É, a gente se encontrou algumas vezes. Rolou e ainda tá rolando, mas não é nada sério. A gente se encontra quando dá, tá ligado? Pois é. De certa forma, a loira tá suprindo a falta que ela me faz. Claro que não dá pra comparar picanha com coxão duro, mas quando a fome aperta, a gente faz uma forcinha, certo? Sei que essa comparação de carnes foi a pior que eu podia ter feito, mas eu não consegui pensar em nada melhor. Ok, flores. Ela poderia ser uma rosa enquanto a loira seria uma… uma… Que outro tipo de flor existe sem ser rosa? Ah, uma flor qualquer que dá em qualquer lugar e não é bonita ou rara, pronto. Ah, cara, quem é que eu tô querendo enganar? Eu sinto falta dela pra caralho! Só parei de chorar, mas ainda sinto falta dela. Porra, como é que ela consegue? Sério, ela devia me falar como ela consegue ficar esse tempo todo sem me ligar ou tentar vir atrás, porque quem sabe assim, eu também consiga. Eu cheguei a ir várias vezes até a casa dela, cara. Exitei várias e várias vezes em bater na porta e fiquei, muitas vezes, apenas olhando-a da janela assistir seus filmes ou desenhos animados. Quantas vezes não a peguei dormindo no sofá lendo algum de seus livros? São cinco meses longe, cara. Ela tá usando óculos agora, sabia? Tá tão linda… Aqueles olhos grandões dela parece que ficaram maiores ainda. Tudo bem que esses dias ela tirou uma foto com o óculos e postou no facebook que estava parecida com uma atriz pornô. Sabe aquelas fotos em que acontece isso? Ainda assim, ela tá linda. Ô droga, viu. Ela nunca nem ao menos me ligou, cara, ou me chamou no chat ou pediu pra alguém perguntar como eu tava, se tava bem, mal… Eu fui parar três vezes no hospital com quase coma alcoólico e tenho certeza de que ela nem ficou sabendo. Também, quem é que quer ficar sabendo do que acontece na vida de um encosto desse? Porque à s vezes é isso que eu penso que sou, cara, um encosto que não acrescenta nada na vida de ninguém. Eu tentei ser certinho, só que eu acho que só sei ser errado. Uma vez ela me falou que eu era o errado que tinha dado certo. Ri na cara dela. Aonde é que alguma coisa errada pode dar certo? Só quando eu tava com outra mina e acabei ficando com ela. Aà sim, foi um errado que deu mais que certo. Mas, cara, com ela eu me sentia certo. Sentia que eu poderia ter algum conserto, entende? Não me sentia aquele machão, garanhão ou pegador que eu de fato era, me sentia apenas um cara normal. Um cara que podia errar, que eu tinha certeza de que ela não me condenaria por isso, coisa que quantas vezes não já me aconteceu com outras. É complicado, cara. Mas mesmo assim, com tudo isso, essa saudade, esse amor, essa vontade que eu ainda tenho dela e por ela, eu não fui atrás. Quer dizer, até fui, mas não consumei os atos. Tô na minha. Não foi ela quem quis assim? Ótimo, vamos nos acostumar com essa vida. Eu estava até que bem com a loira. Ela era engraçada, divertida e me fazia rir bastante. Muitas vezes que estive com a loira, quase esqueci dela, mas, as coisas que eu contava pra loira, era as coisas que eu queria contar pra ela. Como por exemplo que eu fui promovido no meu serviço. Pô, cara, valeu. Eu ganhei um beijo de ‘parabéns’ da loira, que quem costumava dar era ela, mas foi completamente diferente. Ela pulava em cima do meu colo, segurava meu rosto com as duas mãos, quase esmagando minhas bochechas, me obrigando a fazer bico e enchia meu rosto de beijos. A loira, por sua vez, apenas me deu um selinho e sussurrou um: Precisamos comemorar então, não acha? e foi logo começando a tirar a roupa. Essa era a maior diferença entre as duas: com ela, era tudo uma coisa diferente, mais sentimental, com mais valor. Com a loira tudo se resume à sexo. Chegamos cedo do rolê: sexo. Consegui algo: sexo. Ela conseguiu algo: sexo. Ou mesmo que não tenha acontecido nada demais: sexo. Quantas vezes já não me aconteceram coisas legais e nossa comemoração foi assistir à um filme de mariquinha comendo brigadeiro de panela? Coisa que com a loira é completamente diferente. Eu juro que tento não lembrar disso e fazer comparações, cara, mas é difÃcil. É difÃcil quando seu mundo se resumia — e ainda resume, por mais que você bata o pé e diga que não — à uma só pessoa. Mas tudo bem. Hoje estava fazendo três meses que eu não fazia nada em relação à ela. Ia até sua casa. A observava pela janela. Olhava seu número na agenda do celular ou as mensagens que ela tinha me enviado. Por falar nas mensagens, eu as apaguei. Ela não queria que eu seguisse minha vida? Então vamos deixar o que é passado lá no passado. E ela, por mais que eu não quisesse, era passado. Era, cara, era. Porque eu tava em casa, esparramadão no meu sofá, quando o celular tocou... Ela.
Relatos de um homem — até então — sem coração.
















