é preciso escrever antes de enlouquecer. bom, na verdade, escrevo porque ouvi de um amigo que ele queria ler o que escrevo, e eu já estou na metade do caminho do enlouquecimento. é manualmente satisfatório pegar uma caneta pra escrever tanto quanto é catastrófico (porque minhas mãos tremem, suam e anseiam para escrever – principalmente sobre ele). e já peço perdão com antecedência pelo teor nojento e meloso do meu desejo. não consegui colocar uma coleira nele.
a primeira coisa que eu vi foi uma barba muito bonita de perfil. não conseguia ver o rosto direito, nem o nome completo, nem nada sobre ele. nada. o nada me interessou por um tempo. me peguei, enquanto escrevo, colocando o isqueiro entre os dentes só pra lembrar de quando ele tirou de lá e segurou pra mim, naturalmente também me recordei de quando não conseguia acender o cigarro e ele tampou o vento com as mãos. ele está sempre com uns três aneis prateados, aliás. mas retomando ao que eu vi logo em seguida: um jeito diferente de digitar risadas (gosto muito de ouvir a risada dele também, descobri depois, principalmente quando ele ri alto, quando ele ri de algo que eu disse), um papo meio estranho sobre um documentário de uma orca que ele gosta muito e eu não assisti (mas eu juro, eu vou, ainda, um dia, assistir). então achei ele engraçado, eu gosto de quando ele me faz rir, mas eu só descobri melhor essa sensação mais pra frente. aí eu descobri que na verdade ele se fazia mais perto do que eu imaginava, no andar debaixo, com um amigo em comum. eu gostei que ele é tímido, gostei porque também sou, mas só depois descobri que gostava das mãos receosas também, as dele e as minhas. gosto de tudo que sei sobre ele, gosto do rosto dele, acho ele estupidamente bonito, gosto de conversar com ele e só aí que eu descobri que sou muito mais paciente do que achava que era e que algumas esperas valem a pena. gosto quando ele conversa me cutucando ou passa a mão na barba pra pensar ou brevemente aponta com o mindinho pro absoluto nada enquanto fala. nada. gosto das histórias que ele conta. depois descobri que gosto de encostar os nossos quadris em público, e gosto da mão dele na minha cintura. calma, uma licença poética pra uma pausa: gostei que ele emprestou (meu deus, quanta coisa na minha cabeça), gostei que ele me emprestou uma camisa xadrez para eu amarrar na cintura, morrendo de frio. no processo de entender os limites da minha paciência, descobri que uma coisa que eu não gostava era ver uma camisa xadrez que não estava no corpo dele – uma fatalidade porque estamos em junho – porque sim, porque não tem graça quando não é ele usando.
enfim. aí eu descobri que gosto muito do beijo dele, e que beijar ele com uma música gostosa de fundo eu gostava também. gosto. descobri que não queria parar de beijar ele. gosto de beber com ele e rir com ele (isso eu já falei), gosto da mão dele na minha cintura de novo com mais força, gosto de passar a mão nos braços e no cabelo dele enquanto a gente se beija, que eu gosto muito de fazer. eu gostei quando ele me abraçou por trás, cruzou nossos braços e entrelaçou nossos dedos. gosto de afundar o nariz no pescoço dele porque gosto imensamente do cheiro dele e também gosto quando ele fala que sou cheirosa. gosto de compartilhar o calor com ele e gosto de colar o meu corpo no corpo dele. gosto muito dele. gosto da carinha que ele faz quando a gente para um beijo e gosto do rosto dele de lado (é um belo rosto, me perdoem). gosto que ele gostou do cigarro que eu gosto, gosto de ouvir a opinião dele e as ideias dele. gosto das roupas que ele usa. desculpa, agora eu vou contar do que eu mais gosto, eu prometo. eu gosto de todas as outras coisas que eu ainda não sei e todas as coisas que ainda não fiz com ele, porque eu gosto de fantasiar o nada. nada eu digo porque se não dei um nome é porque ainda não existe, e eu só consigo nominar o que eu nunca experimentei quando eu perco a guerra contra o delírio. descobri que quero conhecer a letra dele, quero ler algo que ele já escreveu. é um belo rosto em um belo homem, eu gosto que há muitas coisas pra gostar nele.
(eu não desgosto totalmente das coisas que desgosto nele... são frívolas as coisas que eu desgosto, mínimas, tão insignificantes quanto esse parêntese. é que eu não quero fechar esse parêntese, do mesmo jeito que não quero nominar os meus desgosto. tenho medo de ser esmagada pela realidade. é que a fantasia me agrada até onde aguenta, até antes de virar delírio, antes de me consumir por inteira. serei esmagada de qualquer forma, então peço um último perdão, vindo desse pequeno inseto, dessa alma perturbada pelo desejo, perdão porque não fecharei esse parêntese.