Por um breve momento, Jace pegou-se pensando sobre o quão fácil era arrancar sorrisos que pareciam sinceros nos lábios de Lady Wylla. Estava acostumado aos sorrisos afetados e insinceros das moças do sul, ou à forma que suas raras piadas nunca eram entendidas como tal. Mas havia certo conforto naquela interação, algo com o qual não estava acostumado. — Receio que a violência seja algo muito distante de minha natureza, milady. Ainda que, devido à minha igual falta de familiaridade, um leque em minhas mãos possa se tornar uma arma tão eficaz e perigosa quanto aparenta ser nas suas. Por isso me mantenho longe dele. Pela nossa segurança. — fez um gesto apontando para os dois. Não tinha total certeza de que era apenas uma brincadeira, de onde observava, os leques sempre lhe pareceram objetos estranhamente parecidos com uma adaga. — Mas acredito que as septãs não seriam tão cruéis se soubessem que vem de um lugar com um clima muito mais agradável que o desta cidade que parece ter sido fundada a partir da respiração de mil dragões. — esperava que sua voz não aparentasse amargura, apenas o tom brincalhão que tentava empregar nas palavras. Detestava Porto Real, suas ruas apinhadas e o calor característico de um lugar com tão poucas árvores. Sentia tanta falta da Campina que mal lhe cabia no peito.
Sorriu minimamente então. — Se elas se importarem por se esquecer do nome de alguém que mal pode ser considerado um príncipe, sendo apenas o segundo filho de um segundo filho, talvez as septãs sejam excessivamente rigorosas. — disse em tom de brincadeira, surpreendendo-se ao perceber que não mais sentia vontade de fugir daquela conversa. Também se surpreendeu ao conseguir conter a resposta que lhe veio à ponta da língua e que provavelmente colocaria um fim no clima leve, mesmo que tenha sentido um leve rubor colorir suas bochechas ao ouvi-la. Afinal, mesmo que Lady Wylla fosse gentil o suficiente para entender suas brincadeiras e tivesse dito aquilo claramente como uma brincadeira, não achava que "eu sequer a conheço para considerá-la minha amiga, milady" fosse ser visto como nada além de pura grosseria. É claro, ele jamais o diria com a intenção de ser grosseiro, era apenas um fato. Mas, há muito o pai vinha tentando lhe ensinar que, em determinados momentos, pontuar fatos era visto como uma forma de grosseria. Sua maior dificuldade era entender quais eram esses momentos. Por isso, levou meio segundo a mais do que poderia ser considerado normal, enquanto vasculhava a mente a procura de uma resposta que não fosse grosseira nem que parecesse forçar uma intimidade que não tinham. — Acredito que, depois de nossa conversa, estejamos nos encaminhando para uma boa amizade, Lady Wylla. — respondeu então, o tom igualmente brincalhão.
Se alguém lhe dissesse que, ao chegar a Porto Real, ela teria uma conversa tão agradável como aquela, Wylla certamente riria. Para os nortenhos, a imagem das pessoas vindas do Sul era frequentemente associada à falsidade e às aparências, coisas que o Norte não tinha entre suas prioridades, afinal, jogos e politicagens de nada importavam quando o inverno chegava. E se lhe dissessem ainda que a conversa agradável seria uma dividida com um membro da família Hightower, Wylla diria que a pessoa era certamente louca. Contudo, lá estava ela, trocando sorrisos e brincadeiras com o segundo filho do Mestre dos Sussurros do rei Aemond. E ela percebeu, quando mais um sorriso apareceu em seu rosto em decorrência das brincadeiras entre eles, que rir com Jace era fácil como rir com suas irmãs e seu irmão.
— Vou me certificar de que nenhum leque caia em suas mãos, então. — Foi a sua resposta, que veio num tom de confidência, como se compartilhassem um segredo. E então ele se referia à cidade pelo calor que de fato os rodeava, e Wylla suspirou aliviada por saber que mais alguém, para além de sua família, compartilhava de suas opiniões. Contudo, o sorriso ameaçou morrer em seu rosto quando Jace demorou em responder à sua provocação sobre serem amigos. Talvez eu tenha passado dos limites, ela pensou, e o pedido de desculpas por sua ousadia já estava na ponta da língua quando o ouviu falar, com um sorriso, que encaminhavam-se para o início de uma boa amizade. Seu embaraço pela possibilidade de ter se excedido, porém, limitou sua resposta a um breve acenar, temendo expor-se ao ridículo por se sentir confortável demais na presença de um nobre que acabara de conhecer.
— Disse que a cidade foi construída a partir da respiração dos dragões. — As septãs, sua didática e o rubor incômodo que pintava suas bochechas jaziam esquecidos (ou assim ela esperava), pois Wylla favorecia propositalmente a conversa sobre o clima em vez de aprofundar-se nas nuances da proximidade recém-criada ou no fato de ele ainda ser filho de um dos membros do pequeno conselho e, portanto, tão socialmente relevante quanto qualquer um dos muitos príncipes. — Eu não poderia descrever esse lugar de forma melhor. Entretanto, já ouvi dizer que a Campina é ainda mais quente. O que me diria um nativo da região? — Esperava que ele lhe dissesse algo que justificasse continuar reclamando do calor sem parecer uma convidada desagradável.


















