"O Sul mais ao Norte" ou "O Norte mais ao Sul"
90% das vezes em que contei para conhecidos que iria fazer Intercâmbio na Coréia, ouvia em seguida: “qual delas?” acompanhadas ou de uma risadinha sarcástica ou de um tom de legítima preocupação. Não, não fui fazer intercâmbio na Coréia do Norte (imagino que se isso é possível, só com nacionalidade russa ou chinesa, mesmo com o Brasil tendo representação diplomática no país), nem passei um final de semana em Pyongyang (apesar de hoje em dia isso ser possível, á preços exorbitantes, através de agências de turismo especializadas http://www.koryogroup.com/ ) mas tive minha aventura nas terras de Kimzinho.
Não é segredo para ninguém que o Norte é a maior pedra no sapato do Sul: enquanto a pauta de reunificação parece estar mais distante á cada nova geração de coreanos que nasce acostumado com a idéia de um país dividido, o governo de Seoul faz de tudo para que a atmosfera de ameaça nuclear do seu “irmãozinho briguento” seja minimizada o máximo o possível. E não é a toa: á cada teste militar ordenado por Kim Jong Ul, as ações de quase todas as empresas coreanas despencam e o sonho de uma nota de Benchmarking mais elevada é posto fora de negociação. Ainda existe uma ilusão de que a coréia é um lugar perigoso de se investir. A solução: sedimentar o conflito tornando ele um patrimônio turístico.
Existem hoje na Coréia do Sul 4 empresas autorizadas que oferecem tours guiados á buffer-zone da fronteira, ou DMZ (Demilitarized Zone), e até mesmo á JSA (Joint Security Area), o único ponto em que soldados sul e norte coreanos se encaram e a ultrapassagem da fronteira é permitida para negociações. A brincadeira é cara (77 dólares para o tour da JSA, uma vez que os soldados que te protegem são pagos para estar ali), burocrática (o passaporte deve ser enviado com 48h de antecedência para avaliação e deve ser mostrado pelo menos 3 vezes aos soldados á medida que se atravessa o lugar, apenas 3 pontos são autorizados para se tirar fotos dentro da DMZ) e desgastante (o tour demora 7h, apenas 30 minutos são da JSA de fato, o resto é orientação, almoço, circular pela DMZ tendo aulas extremamente parciais sobre a história da Coréia). Mas olha, se você gosta de história, vale muito a pena.
A primeira parada é Imjingak, a última estação de trem antes da fronteira e último ponto em que civis podem chegar sem autorização (o tour da JSA e DMZ é proibido aos cidadão sul-coreanos). Existe um observatório onde por binóculos é possível ver os primeiros pedaços de terra da Coréia do Norte (todos montes pelados, uma vez que a matriz energética do país ainda é o carvão e os recursos naturais são escassos). Também aqui são feitas as homenagens aqueles que tiveram as famílias separadas e não podem mais atravessar a fronteira, de modo que a região ganha ares de muro de Berlim
Do observatório também é possível ver os destroços da Gyeongui Train Line, destrúida pelos próprios sul-coreanos durante a guerra para impedir os avanços do norte e a Freedom Bridge, atual meio de conexão entre Seoul e a zona desmilitarizada para além do rio Imjingak (que dá nome á estação). A locomotiva que estava cruzando a ponte também é exposta como memorial ao conflito.
Á partir desse ponto, dois soldados sul-coreanos passam a nós acompanhar e todos os nossos movimentos são observados. Todos devem assinar um termo de responsabilidade (roubei uma cópia extra como souvenir) e fotos só são permitidas em pontos pré-determinados, com checagem aleatória de câmeras.
Passamos pelo vilarejo que existe dentro da DMZ. SIM, existem coreanos que moram dentro da fronteira. São agricultores subsidiados pelo governo sul-coreano cujos descendentes moravam na região antes da divisão. Os coreanos que lá vivem não pagam impostos e recebem um salário adicional, mas só podem sair da zona em momentos pré-determinados e tem suas casa checadas diariamente por soldados para verificar se suas famílias ainda tem o mesmo número de pessoas. Como o vilarejo não possui High School nem Universidade, as crianças que ali moram devem escolher aos 15 anos se vão ficar trabalhando na lavoura ou ir junto com suas mães estuda em seoul (os pais jamais devem deixar de residir nas casas, dó contrário perdem o patrimônio), podendo regressar apenas ao fim de seus estudos. Do outro lado também existe uma vila, porém falsa, onde ninguém vive e as edificações são pintadas e por onde anos os Norte-Coreanos emitiram ondas de rádio e TV com propagando Kimilsungnista. Se me perguntarem um lado é tão irreal quanto o outro.
Chega o grande momento: o edifício do outro lado já é a coréia do norte. Mas pera, cade os Norte-coreanos?
Vamos só dizer que eu não tive muita sorte… Os soldados Norte-coreanos só aparecem em maior número quando existem visitas do outro lado, mas mesmo assim fomos advertido inúmeras vezes para não apontar, acenar ou fazer qualquer tipo de movimento que pudesse ser gravado e posteriormente usado como propaganda negativa em relação ao ocidente.
A fronteira em si: a parte em concreto é o norte e as pedrinhas são o sul.
Dentro da sala de negociação, o microfone é o divisor oficial entre o norte e o sul. Tivemos exatos 7 minutos para tirar as fotos, o que explica o desespero das pessoas na foto em tirar selfies.
Mas quem resiste, né? Rumores dizem que só os soldados mais saudáveis e altos são escalados para esta posição na tentativa de impressionar o outro lado.
No final todos são levados para uma parada obrigatória: o gift shop (!), onde todo o tipo de tranqueira com o logo da DMZ e emblemas estadunidenses e sul-coreanos é vendido. Bandeiras da Coréia do norte, por lei, não podem ser comercializadas, mas acabei trazendo uma lembrancinha:
100 wons Norte-coreanos pela bagatela de 3000 wons Sul-coreanos; e você ai reclamando do câmbio do dólar.















