A camisa certamente se via como o pior pesadelo de um alfaiate. Amassada e desajustada, em perfeita consonância com sua mente — fato que qualquer um que o conhecesse, seria obrigado a concordar. Contudo, sua aparência não era uma preocupação no momento. Não, as irises escuras estavam muito mais interessadas no novo conjunto de rampas e assentos do anfiteatro, fixas nas pedras que pareciam brilhar sob o sol da tarde. “ Hm...” murmurou, contemplativo. Enquanto prendia o queixo entre o indicador e polegar, uma ideia se formava. Melhor dizendo: um percurso. É, talvez Rapunzel tenha permitido que os filhos passassem tempo demais na companhia do pai, porém, já não havia nada que pudesse ser feito a respeito. “ Junior ” chamou, dispensando um breve olhar na direção de @flynnanigans — que, diga-se de passagem, conseguia se manter em melhor estado que o irmão. “ Rolamento, salto, drop kitty, rolamento, turn vault ” listou, apontando cada passo do trajeto a ser percorrido. Contudo, aquele não se tratava de um treinamento comum, longe disso. Os filhos de Eugene podiam ter puxado as aptidões físicas do progenitor, mas por vezes a demonstravam de forma... Peculiar. “ Tirando esse caminho, vale tudo. Tenta não se perder no seu xará corrimão ” brincou, oferecendo-o um sorriso irritante.
“ Agora... Go crazy, go stupid! ” Que fossem adultos, era mero detalhe. Sem hesitar, correu em direção ao playground improvisado. Tudo parecia muito promissor, até o anileno alcançar o primeiro degrau e... Dar uma cambalhota. Uma única e ridícula cambalhota, antes de se erguer e impulsionar o corpo num pulo em direção ao próximo batente.
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O bom humor de Lux não havia sumido nem mesmo após saber sobre as novas maluquices do castelo. O fae continuava do mesmo jeitinho, o que significava que para olhos destreinados ele não estava nem ai para os recentes acontecimentos, entretanto o Cagliari sempre foi mestre e doutor em fugir dos problemas que o cercavam. Por exemplo, naquele momento ele ignorava com muita maestria a carta de Iridessa que o mandava de volta para a casa. – Não seja tao ruim assim com ele, cara. A culpa não é dele se você pediu pra fazer copia de espantalho. – brincou o fae soltando uma pequena risada. Outro habito péssimo de Lux: não conseguir segurar sua língua e acabar se metendo em encrencas. – Quer um desenho seu nesse incrível momento? Duas moedas de prata. Tres se você quiser que eu faça um fundo daora. Quadro se quiser que eu te pinte como o próximo príncipe encantado ao invés do cara que limpa os estábulos.
Havia algo de terrível no som de uma risada para ouvidos irritados. De uma manifestação alegre, o riso passava a ser combustível para a raiva sentida por outrem, elevando-a perigosamente. A situação se tornava ainda pior quando em relação ao príncipe que, longe de ser conhecido por sua calma, já exibia comportamento abertamente volátil. Provocá-lo não era a melhor das ideias, qualquer um podia ver. Isso é, qualquer um menos Lux. Sem pensar duas vezes, Soren avançou, parando a meros centímetros do fae — um exemplo espetacular de autocontrole. “ Em nome da simpatia que nutro por você, Cagliari, vou te oferecer a cortesia de vazar antes que eu enfie a mão na tua cara. De graça ” destacou, a sujeira acumulada na face carregando ainda mais a expressão irritada que sustentava. Já havia sido alvo de uma brincadeira ridícula, passar por algo semelhante novamente excedia sua cota diária. Schneeland descongelaria antes que se permitisse tal deslize. Assim, adicionou com seriedade. “ Por que pra mim, é isso que você ‘tá pedindo. ”
“O que aconteceu? Problemas no paraíso?” perguntou afim de saber o que se passava, claro que com outra pessoa talvez adotasse um tom mais debochado na fala, mas Soren era uma dos melhores amigos de sua irmã e por isso era capaz de nutrir certa simpatia por ele. “Não me diga que fez um pedido para o Djinn?” balançou a cabeça momentaneamente em negação djinn normais por si só já eram sorrateiros, um dark djinn então…compartilhava com Nymphadora o entusiasmo pelas criaturas magicas, afinal viveram em um reino cheio delas, ainda sim nunca tiveram que lidar com seres como os djinns e era grato por isso, tampouco pretendia lidar com um deles agora. “Pelo menos aprendeu algo novo, não confie em um djinn”
Seu caminhar fora abruptamente interrompido por uma voz que, embora familiar, não fez nada para apaziguar a bruma de raiva que o envolvia. Em verdade, era muito mais provável que agravasse seu estado já instável. “ Paraíso ” ecoou baixinho, permitindo que um ruído seco, vagamente semelhante a uma risada, escapasse de seus lábios. Paraíso não era algo com o qual costumassem o associar, nunca fora. Problemas, por outro lado... “ O único problema que eu tenho no momento, é você enchendo meu saco ” retrucou, absolutamente certo de que aquele era um dos passatempos favoritos do fae. Aliás, era essa mesma certeza que o fazia desconfiar do tom condescendente do outro. Conhecia Niklaus muito bem — até demais, diria —, e nutrir preocupação por terceiros não era exatamente seu estilo. Assim como não era o seu relevar esse tipo de comportamento. “ Ah, sim, aprendi muito. Parabéns pra mim. ” Sarcasmo contornava cada palavra, fazendo jus a expressão que distorcia sua face enquanto batia uma, duas vezes as palmas. “ Era isso que queria ouvir? ” indagou, cáustico. “ Vê lá se eu sou homem de fazer pedido pra djinn, ainda mais quando tenho que captura-lo pra tanto. A propósito, se eu tivesse pedido algo para aquele demônio, teria sido pra ele se foder, não a mim. ”
OOC: Feliz aniversário, Marcellaaaa! Quase uma semana depois da data certa, mas releve que você sabe que aqui tudo é na base do devagar, devagarinho kkkkkkk Pra não passar em branco e apelar ao seu bom coração que perdoe o deslize, aqui vai esse editzinho do nosso plot perigoson, embora ainda não saibamos quem é a real vitima dessa bagunça so far aaaaaaaaaaa De qualquer forma, muitas felicidades, Plebeia 1!!! <3
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conseguia saber quando soren estava incomodado ou irritado pelo mais simples trejeito, e apesar de não se sentir bem perto de pessoas em seus piores momentos, era soren, no final das contas. “você assustaria até a malévola desse jeito. e olha que ela é má.” constatou o óbvio, enquanto se aproximava em círculos. “o djinn te concedeu um desejo contrastante do que pediu? bem, não se pode confiar nesses tipos de gênio. foi a primeira coisa que meu pai me ensinou.” ser filha do grande caçador de monstros tinha essas vantagens, saber sobre eles e suas fraquezas. “você não pode xingar desse jeito, atraí coisas ruins, já te falei.” suspirou, tocando no ombro alheio. “quer me contar o que aconteceu? ou é só um tipo de frustração reprimida que só agora você decidiu jogar em quem não tem culpa?”
Fato era que gostava de alardear sobre seu azar, tanto que por vezes esquecia que a vida não se tratava somente de desastres. E seu pequeno circulo de amizades, repleto das mais contrastantes personalidades, era uma prova segura disso. Contudo, Aleta e suas crenças certamente se destacavam dentre o grupo ilustre. “ E eu não sou? ” questionou em tom de sarcasmo, incapaz de não despejar parte de sua irritação sobre a outra. Ainda assim, não deixava de ser verdade. Classifica-lo como boa pessoa beirava o absurdo, principalmente no estado em que se encontrava: furioso a ponto de não conseguir sequer formar frases decentes. “ Não posso? ” O riso curto, seco, transmitia com clareza o que pensava daquilo. “ Há coisas que palavras bonitinhas não são capazes de expressar com exatidão, essa situação é uma delas. Duvido muito que qualquer um, até você, não fosse deixar o pudor — ou o que quer que seja —, de lado ” retrucou obviamente contrariado, embora fosse notória a ausência de palavrões em sua declaração... E de um pedido de desculpas. Recusava-se a jogar fora esse resquício de orgulho. “ E duvido mais ainda que minha boca consiga atrair algo pior que um djinn, o que, deixe-me lhe dizer, já fiz. E não, eu não fiz pedido nenhum, não sou idiota, Aleta. Já não nos conhecemos tempo o bastante pra você continuar duvidando de mim? ” A boca, entretanto, contorceu-se logo em seguida. “ Não precisa responder. ”
Para certas perguntas, Callie não tinha resposta. Ser uma sabichona era um dos traços mais proeminentes de sua personalidade e, ainda assim, não conseguia desvendar o mistério de porquê era amiga de Soren. O príncipe de Corona era o seu oposto e, ainda assim, permanecia no seu pequeno círculo de amizades. Ao ouvir toda a reclamação e o desenrolar daquela cena, Calliope começou a repensar se deveria manter o status do rapaz. ㅡㅡ Inferno de Anilen, isso sim. Nunca mais vou deixar vocês em paz depois do Intercasas. ㅡㅡ A princesa o corrigiu, a cara igualmente fechada. Fosse qualquer outra pessoa, teria fugido daquela tempestade em forma de gente. Para Apolina, era mais um dia normal. ㅡㅡ O Djinn vai ter que entrar na lista, não tem muita gente que é movido na força do ódio por você? ㅡㅡ A pergunta saiu naturalmente de seus lábios, assim que a herdeira passou a acompanhá-lo em sua caminhada. Mantinha uma distância segura, pois odiava se sujar. ㅡㅡ Quem você ofendeu dessa vez? Não me diga que você foi brincar na lama por pura vontade de se divertir. Eu te ofereceria um lenço, mas acho mais efetivo pegar uma toalha.
Se o questionassem sobre quem seria a pior pessoa para encontrar naquele momento, não saberia selecionar um nome que sobressaísse aos outros, tamanha era sua popularidade entre os habitantes de Aether. Entretanto, ao ouvir a voz de Callie, soube, em seu âmago, que era ela. O próprio Narrador não seria capaz de despertar fúria tão profunda no aprendiz, que virou o corpo para encarar a cara lavada da princesa vindo em sua direção. Incrédulo com a ousadia, tinha no mínimo que admitir que a amiga era corajosa, apesar de sentir a mandíbula travar com a menção da casa de Morgana. Era obrigado a escutar cada besteira... Felizmente, não tinha obrigação alguma de se manter calado. “ Quem fez o trabalho meia boca foi você, princesa. Vai querer colocar a culpa pra cima de gente que nem tava presente quando você, digo e repito, você, estava tentando sabotá-los? ” Se possível, a carranca do Fitzherbert aprofundou no instante em que deu as costas novamente para a raliena. “ Você não aprendeu nada do que ensinei ”, murmurou, aproveitando a rápida mudança na direção do vento, que fizera o favor de levar as palavras para longe de seu alvo. Estava chateado, sim. Com Calliope, Merlin, o djinn e a própria sorte, mas até ali preservava algum senso de autoproteção — o qual jogou pela janela no segundo seguinte. “ Bem feito. ” Logo que soltou a frase, seus pés estacaram brevemente antes que pudesse se obrigar a prosseguir. Não era o que queria dizer, jamais desejaria mal a Apolina verdadeiramente, contudo, sua língua... Ah, ele certamente já se arrependia do que dissera — e se não o fizesse, com certeza a filha de Cinderela faria com que se sentisse assim. “ Engraçada ” emendou rapidamente, tentando encobrir o erro. “ Muito engraçada você. Duvido nada que seu nome esteja coroando a fila de nomes. É o que? ‘Tá querendo comprovar que manter inimigos por perto é a melhor estratégia? ” Com esforço, permaneceu com expressão emburrada, embora o brilho em seu olhar tivesse assumido nuance bem diferente, mais suave, de uma forma que beiraria o encantador na face de qualquer outra pessoa. Em Soren, pareceria deslocada, preocupante. “ Eu sou ofendido todo santo dia, a cada segundo que passo nesse lugar, e você me pergunta isso? Sinceramente, uma boa amiga iria oferecer um abraço, seria muito mais efetivo que um lenço ou toalha ” argumentou, voltando-se para Callie com uma ideia já formada iluminando seus olhos.
Não estava exatamente confortável com a atmosfera que tinha se instalado na instituição, porém, ao mesmo tempo, retornar para casa não estava entre as opções mais tentadoras. Esteban costumava ser aquele que mais analisava do que falava, e enquanto observava o vai e vem no pátio em seu trajeto entre os estábulos e as forjas, não pode deixar de reparar em como ninguém parecia tocar no assunto. “ Esto es serio? Vamos mesmo ignorar o que está acontecendo nas masmorras? Não sei você, mas nunca fui muito fã da tortura ”
Depois do pequeno incidente no dia anterior, havia saído a procura da ajuda de Esteban praticamente ao raiar do dia. Não havia dúvidas de que os estábulos e forjas de Dillamond contavam com os melhores profissionais possíveis, mas o príncipe tinha lá seus hábitos e manias — e na opinião singular do filho de Rapunzel, o rapaz a seu lado era a melhor pessoa para cuidar das ferraduras de seu cavalo. Novas ferraduras... Não, não voltaria seus pensamentos por esse caminho novamente. Estava tranquilo, quieto e na mais santa paz agora que o problema fora resolvido. E como diziam em seu reino: um homem quando está em paz, não quer guerra com ninguém, nem mesmo a menor das rebeliões. “ Eu gostaria muitíssimo de ignorar a situação, sim, pelo menos por agora. Está sendo uma rara manhã sossegada, rara, e você não 'tá ajudando, mein freund. ” Contudo, embora seu desejo fosse ignorar o assunto, sua mente não conseguiu deixar de morder a isca. “ Além do mais, é possível mesmo torturar um espectro? Algo que nem está completamente nesse plano? ” indagou, a expressão tomando ares de curiosidade genuína. Não duvidava, porém, de que se Merlin assim desejasse, encontraria um modo de empreender tal serviço. “ E independente de ser fã ou não desse tipo de método, temos que admitir que é bastante efetivo... E necessário, por vezes. ”
A camisa presa precariamente por uma ponta a calça, estava longe da brancura que ostentava a poucos minutos. A bem da verdade, não havia muito no anileno que não estivesse coberto por um rastro escuro de terra, quer se olhasse os cabelos ou as botas de montar. Sua imagem certamente despertava curiosidade enquanto cruzava os jardins, embora a expressão emburrada não convidasse a perguntas. Por sorte, Soren resmungava alto o suficiente para que até as cópias dos ratinhos da Cinderella o ouvissem. “ Inferno de djinn ”, o nome da criatura queimava sua língua tal qual ácido, sendo liberada com igual azedume. “ Porra de pedido, aquela coisa é movida é a força do ódio — a mim, aparentemente. ” E então novamente… “ Inferno de djinn! ”
❛❛ —— Mano, se ninguém tem coragem de falar, eu falo. A real é que eu achei uma merda que ninguém encontrou a lâmpada. Vai dizer que você não tava curioso pra saber o que ia acontecer? Caralho, eu queria muito ver o que ia acontecer com o infeliz que achasse. ❜❜ A falta da consequência tinha dado a impressão de que havia faltado um cavaleiro do esquecimento* e a certeza de que nunca saberia qual era o plano arquitetado para aquela relíquia não era nada satisfatória – um sentimento de frustração que era reprimido somente pela felicidade por saber que não havia perdido a sua aposta. ❛❛ —— Enfim, foda-se. Eu tô precisando falar com o Brian. Você viu ele por aí? ❜❜ Tinha um pobre anileno para sacanear e queria encontrar o dito cujo o mais rápido possível.
Não é que seu humor estivesse irascível desde o resultado do Intercasas. Não. Sua companhia se tornou das mais indesejáveis antes mesmo disso, quando se fez claro que a vitória só viria com a conquista da relíquia. Não era uma vitória real, fazia questão de declarar, feria seu ego aquele tipo de reviravolta. Então, não só veio uma derrota como uma sabotagem de bônus. Mais que emburrado, o príncipe queria se manter daquele modo. “ Nem me fale. Ainda ‘tô puto com essa palhaçada das relíquias. Quer dar uma de Ali Baba, vai procurar a merda de uma caverna ” resmungou, cruzando os braços. Era normal que estivesse contrariado — certamente tinha o direito quando a humilhação do último lugar estava tão fresca —, independente de ser mais que capaz das mesmas travessuras. “ Nem pra deixar o espetáculo ser completo e compensar o desempenho chinfrim do pessoal. ” E ali estava a outra razão de seu aborrecimento, totalmente em concordância com a Upland. Se havia passado por um pequeno inferno naquela competição, nada mais justo que pelo menos o visse ser concluído. Não que desejasse mal aos colegas, ninguém ia morrer ali. Contudo, o questionamento seguinte da imrense impediu que se estendesse no assunto. Brian? O cenho franziu ante a menção, o olhar entrecerrado pousando sobre a outra com atenção. “ Brian? O que você quer com ele? Tu tá metida com contrabando, Melena? ”
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❝Me deixa em paz!❞ Suas palavras agitadas irromperam no silêncio absoluto que pairava na enfermaria, tarde demais da madrugada para qualquer aprendiz estar conversando ou mesmo acordado naquele lugar. Ela própria repousava até uma voz desconhecida lhe invadir em sonhos — conturbados demais devido aos acontecimentos do dia —, o terror em ter algo ou alguém em sua cabeça fazendo-a acordar num sobressalto, a respiração acelerada. Tendo plena noção de como funcionava o seu poder, Autumn sabia que vozes surgindo inesperadamente não se incluíam no pacote. O que estava acontecendo? Pensou por um instante enquanto se desfazia da confusão mental em despertar bruscamente, recordando-se das poucas cenas vivenciadas consciente durante o ataque — já eram o suficiente para entender o motivo de estar ali. A dor de cabeça também entregava, claro. Numa poltrona ao seu lado, encontrava-se um Soren alerta, muito provavelmente devido ao seu grito repentino. Sequer lembrava do seu estado no ocorrido de horas atrás, mas já era um enorme alívio vê-lo ali. Vivo. ❝Te acordei?❞ Um questionamento óbvio, mas vale lembrar a condição mental da aderense ainda um tanto quanto vacilante. Sua voz nada mais era que um sussurro e, ignorando qualquer relação meramente de provocações e poucas conversas reais que ambos se faziam ter, soltou: ❝Eu… eu tive um sonho muito esquisito agora.❞
* * *
Talvez tivesse batido a cabeça mais forte do que dera crédito a princípio ou, quem sabe, fossem os remédios para dor a afetá-lo daquela maneira. Qualquer que fosse a razão, os sonhos de Soren fugiam do comum naquela noite. Ao invés das habituais cenas desconexas, misto de lembranças e imaginação, eram os contos de ninar da avó que ocupavam a mente adormecida, embora maculados por interferências medonhas. Os cenários grotescos eram tão nítidos que o corpo reagia fisicamente, retraindo-se em espasmos ante o terror inventado. O pior, no entanto, era a voz sombria, como o sibilar de várias criaturas, que sussurrava uma cantiga agourenta repetidamente.
“ Venha até mim, venha até mim, venha até mim. Mostre-me o que deseja, príncipe. ”
Despertou do pesadelo sobressaltado, o murmúrio soando cada vez mais venenoso conforme pairava no limiar da sua consciência. Caralho, que tipo de poção tinham lhe dado? Sentia os membros pesados, duros, e ainda ouvia vozes? A mão enfaixada foi até o rosto, os dedos pressionando os olhos ao tomar uma respiração profunda. Não sabia como o medicamento havia sido aprovado, mas certamente não o tomaria novamente… Ou sim, com certeza, pensou, trincando o maxilar ao tentar mudar de posição na poltrona. Servir de saco de pancada pra ogro, afinal, tinha suas consequências. De todas as coisas que podiam ter acontecido durante o jogo… O suspiro que deixou seu lábios exprimia frustração e cansaço. Dar uma de herói realmente não era para ele, porém, não podia se dizer arrependido ao lembrar de Saxa ou encarar o corpo na cama a seu lado — corpo esse que, aparentemente, vivia para assustá-lo com seus despertares súbitos. A destra automaticamente se moveu para o peito, como se o toque pudesse diminuir a dor que o movimentar repentino causou. “ Puta merda, Autumn ”, repreendeu em voz baixa. Não conhecesse melhor a princesa e seus apagões, diria que criara gosto por surpreendê-lo daquela forma — uma estratégia peculiar para desconsertá-lo por um instante. “ Não, não me acordou ” sussurrou de volta. Apesar da intenção tranquilizadora por trás da resposta, não lhe escapou como poderia soar estranha. Já esperava um “ o que estava fazendo então? Me observando dormir, bonitinho? ” como réplica, dado o tipo de provocações que costumavam trocar, contudo, fora pego de surpresa novamente. O tom sério e incerto da Stein atiçou algo em seu interior — uma curiosidade mórbida —, incitando-o a se inclinar rigidamente sobre sua cama. “ Vindo de você, Soneca, chega a ser preocupante. ” As íris escuras estavam focadas na face apreensiva, a voz saindo mais suave ao questionar “ Com o que sonhou? ” Não tinha dúvidas de que não vinha de um sono tranquilo, assim como ele. Seria possível terem tido o mesmo tipo de sonho?
* * *
Sonhos.
Sonhos eram uma área perigosa na mente de Autumn, sempre foram e nunca deixariam de ser. Eles lhe mostravam e diziam coisas as quais nenhuma criança gostaria de crescer vendo, muito menos vivenciando diariamente a cada vez que fosse dormir. Os pesadelos tentavam, constantemente, puxar-lhe para um lado o qual lutava para jamais ser puxada, esforçando-se para repetir na mente que nada era tão ruim quanto interpretava ser. Por vezes, muitas vezes, era. Fato esse a tornar ainda mais assustadoras as ameaças e convites das vozes que, naquela noite, se fizeram presentes. Tão assustadoras que sequer raciocinava com clareza sobre o que Soren dizia. Pelo menos não havia o acordado, era o pensamento, quando em outro momento teria feito questão de soltar um comentário engraçadinho de volta, principalmente sobre o apelido inusitado. Nada vindo dela para retrucar o herdeiro de Corona? A tensão realmente estava mexendo com sua cabeça — fora a dor que sentia, claro.
❝Eu, er… meus sonhos não costumam ser assim. Isso… isso nunca aconteceu antes. Eu tenho pesadelos, mas não desse jeito.❞ Apesar de baixa, apenas um sussurro, sua voz trazia nervosismo conforme as palavras saíam. Nada do que via dormindo se expressava com tanta clareza sobre a possibilidade de haver pessoas da sua vida em perigo — o próprio sonho com o Fitzherbert era um exemplo disso, o qual se tornava mais e mais difícil de decifrar. Cada vez que o encarava, as imagens repassavam-se em sua mente, um filme soturno de se assistir. Era tentando não pensar nisso que o olhou nos olhos quando aproximou o rosto do seu, possibilitando que diminuísse ainda mais o tom ao dizer: ❝Eu escutei… vozes. E essas vozes… me chamavam. Tentavam me convencer a ir com elas. Eu nunca escutei vozes antes, Soren.❞ A confissão, fruto da sua mais pura angústia, era feita num momento raro — inédito, diria. Participava do clube de Interpretação dos Sonhos, claro, mas guardava suas interpretações para si, contava por alto o que via, sabendo do teor catastrófico das próprias visões que as dos demais não traziam. E ali, no meio da madrugada, com alguém que jamais imaginaria estar desabafando sobre um sonho, o fez. Alguém a quem protegia dos próprios pesadelos sem sequer imaginar tal fato. Naquele dia, no entanto, fora ele a protegê-la. Sabia ter sido o príncipe, mesmo tendo presenciado muito pouco das cenas do fatídico dia. Sentindo a cabeça latejar de dor e reparando nos curativos do próprio rapaz por estarem tão próximos, seus pensamentos automaticamente mudaram o teor. ❝E… acho que te devo um agradecimento por me manter viva, certo? Eu com certeza teria morrido se não fosse por você hoje, Fitzherbert.❞
Competitividade era algo que corria pelas veias de Autumn — o que tornava imensamente mais decepcionante o fato de não poder praticar esportes em sua infeliz totalidade. Talvez, quem sabe, o Narrador tenha feito de propósito: lhe desgraciado com tamanho sono para que toda sua vida fosse rodeada de drama e impedimentos. Não poderia negar que renderia um bom conto, mas precisava ser o dela? Merlin, no fundo, deveria agradecer todos os dias pela quantidade de coisas que a garota era impossibilitada de fazer devido aos seus apagões. Sejamos sinceros, seriam confusões demais para dar conta se pudesse aprontar sem a chance de dormir repentinamente. Levando em conta todos esses fatores, não era difícil imaginar que a aderense era um tanto quanto boa torcedora quando aquela época do ano chegava nos ares do instituto, fazendo seus aprendizes inspirarem e expirarem rivalidade. E, por boa torcedora, leia-se: gritar nas arquibancadas e alimentar discussões triviais e momentâneas naqueles jogos eram sua especialidade. Naquele dia, inclusive, estava especialmente feliz, considerando a vitória de sua casa sobre a Ralien, o que arrancou gritos exaltados da arquibancada, os aderenses e qualquer um a torcer contra os ralienos tomados pela empolgação da partida bem-sucedida.
Estava pronta para acompanhar o restante do torneio naquela tarde, ainda decidindo se deveria torcer pelos seus colegas da Imre ou da Anilen, quando o absurdo, o inacreditável, aconteceu. Os jogadores se transformaram em ogros horrendos diante dos olhos de todos os espectadores, a torcida incrédula por um momento antes dos gritos de empolgação darem lugar à gritos desesperados — o de Autumn incluso. Precisava fugir e, no meio de todo aquele caos, sequer teve tempo de se aproximar de alguém específico para saírem juntos dali. Bom, estava ela por ela naquele momento. Desatou a correr e tudo que podia esperar era que no castelo estaria segura — e encontraria seus amigos todos bem. Qual foi sua surpresa, então, a de topar justo com Soren assim que pôs os pés no local? Justo a pessoa de quem estava fugindo pelo sonho que teve, Narrador? Sério? ❝Ai, mas tinha que ser você, né?❞
Não era hora e nem lugar para pensar naquilo, obviamente, mas não conseguiu conter o próprio choque ao refletir novamente sobre o teor do sonho e na situação que estavam vivenciando ali. E se… algo acontecesse a Soren? No meio daquele caos… seria essa a sua premonição? Fitou o anileno por um instante, absorvendo os próprios pensamentos, antes de dizer: ❝Escuta aqui: você não tem autorização de morrer hoje, ‘tá me ouvindo?❞ Óbvio que eram palavras inúteis de se dizer, dado o cenário atual e estarem impossibilitados de tomar qualquer atitude funcional a respeito, entretanto era inevitável a preocupação. Ela não queria acreditar que poderia estar sonhando com mortes reais. Podia provocar o herdeiro de Corona e encherem a paciência um do outro, mas vê-lo morrer não estava nos seus planos. ❝Trate de ficar vivo, Fitzherbert.❞ Seu tom sequer disfarçava a própria apreensão e, tendo desviado a atenção momentaneamente para o príncipe, não percebeu o ogro que se aproximava dos dois. Digamos que o susto da garota foi tamanho que, bom, vocês já sabem: ela apagou.
* * *
Após quase duas décadas amaldiçoando seus poderes, Soren se via vergonhosamente dependente deles no momento. Ah, a ironia… Podia viver muito bem sem ela, obrigado. Infelizmente, o Narrador não parecia compartilhar do mesmo pensamento. Monstros resistentes a magia? Era pra acabar com qualquer príncipe de armadura brilhante — e ele sequer possuía uma. Enquanto atravessava os jardins de Dillamond com dois ogros em seu encalço, quase sentiu uma centelha de simpatia pelos ralienos e seus futuros atormentados por criaturas como aquelas. Claro, o lapso não demorou a passar. Sua mente tinha coisas mais importantes para lidar, como por exemplo, encontrar algo afiado e pontiagudo para imobilizar os pés incrivelmente rápidos que o seguiam. Puta que pariu, aquilo não fazia o menor sentido, nada fazia!
Contudo, não era hora de questionar as leis da física. Uma breve olhada para trás, que lhe causou uma pontada dolorida na altura das costelas, foi o suficiente para confirmar o que seus ouvidos já alardeavam: seus perseguidores se aproximavam. Esticando uma das mãos às costas, permitiu-se liberar um pouco do seu poder, os lábios delineando a palavra “ Germinare ”, um segundo antes da magia atingir a terra atrás de si num borrão escuro. Ao invés de florescerem belas e delicadas plantas, do encantamento de Soren ergueram-se ramos secos, de galhos grossos e espinhosos. Os jardineiros de Aether teriam muito com o que trabalhar quando — se —, tudo voltasse ao normal, considerando que aquela estava sendo sua estratégia de retardamento desde que pisara em solo gramado.
Talvez devesse começar a pensar nos marceneiros, também, pois ao voltar a correr, as portas laterais do castelo entraram em seu campo de visão — e não havia chance alguma de que fosse abri-las gentilmente. Sua respiração vinha sofregamente e a lateral do corpo protestava com cada movimento, ainda assim, impulsionou-se com mais afinco em direção a entrada, os dedos já formigando pelo que estava por vir.
“ Aperire! ” O estrondo que seguiu as palavras geralmente significava uma longa detenção, porém, agora era o prenúncio de um aumento exponencial da sua expectativa de vida. Estilhaços de vidro e madeira se espalharam pelo terraço e além, não demorando a serem espatifados sob o peso das botas de Soren.
Raros eram os momentos em que mente e instinto trabalhavam em harmonia com o príncipe, mas agora pareciam uma sofisticada melodia: clara e precisa. Sabia para onde ir, como chegar e, uma vez no local, o que pegar. Cruzava com rapidez e naturalidade os corredores, não alheio aos eventuais gritos e baques que vinham de lugares próximos, quando deslizou numa parada abrupta. A sua frente, bloqueando o caminho, estava um ogro. Ótimo. Grandes, ligeiros, resistentes e silenciosos.
“ Porra! ” soltou entredentes, voltando-se sobre o calcanhar para correr na direção em que viera. Sua má sorte ultimamente estava pegando turno duplo, horas extras e tudo mais que tinha direito, era quase ilegal. Apressou-se, então, pela primeira entrada livre a sua direita, fechando a porta ao passo que exclamava “ Petrefactum ”, as mãos espalmadas contra a madeira. Logo era em pedra que tocava, dura e espessa, espalhando-se também para as paredes. Tinha que servir, pensou, já se movendo para o portal oposto. Sem perder tempo, repetiu o encantamento, tendo como som de fundo batidas surdas, insistentes. Certo, aquilo retardaria o avanço do monstro, mas ainda tinha meio castelo para atravessar até que pudesse chegar ao ginásio. Uma breve inspeção foi o suficiente para perceber que estava próximo do saguão principal. Sem mais empecilhos, estaria empunhando uma espada dentro de instantes. Uma visão bastante otimista e improvável, dado quem era; a voz que escutara em seguida apenas comprovando isso.
“ Sempre um prazer, Tonton ” retrucou, o trejeito galante falhando miseravelmente na rispidez do tom — ser charmoso e buscar por ar simultaneamente não estava se mostrando tarefa fácil. Confiante da resistência do encantamento, afastou o corpo da parede recém criada, indo em direção a Autumn de forma semelhante à que fizera no Calanmai. A ação, junto com o uso do apelido adotado desde então, trouxera lembranças da noite — que, inclusive, recordava detalhadamente. Assim, não deveria estranhar as palavras incoerentes da Stein, conhecida por sua tagarelice ímpar. Contudo, o cenho teimava em franzir, confuso ante a formulação do aviso. Soava muito específico, como se… E então veio a desconfiança, sentimento sempre presente nas últimas interações entre eles. Sonhara com ele novamente? O que exatamente ela sabia? As perguntas o perturbavam, mas se forçou a uma parada ao chegar perto da figura diminuta, limitando-se a sorrir com picardia mesmo naquele tipo de situação. “ Não está nos meus planos fazer o contrário. ” Mas talvez estivesse nos do Narrador, pois a próxima coisa que soube, foi que tinha uma bela bastante adormecida caindo aos seus pés. Ah, ele nunca perdia o toque.
Instintivamente, precipitou-se sobre a aderense, segurando-a contra o próprio peito firmemente, apesar do disparo de dor sentido nas costelas. Os dentes trincaram com o movimento repentino, rangendo ao ver a causa do apagão. Soltou o ar num bufar irritado, adrenalina sendo liberada em sua corrente sanguínea a cada passo que a criatura dava para onde estavam. “ Fuck. Me. ” amaldiçoou sob a respiração. Aquilo era apenas ótimo. Quantas daquelas coisas estavam no castelo, afinal? Não importava o número, fora ingênuo ao pensar que enfrentaria somente três. Com sua sorte, toparia com todos os transformados até o fim do dia — isso é, se chegasse a vê-lo, é claro. Não obstante os pensamentos pessimistas e a tensão causada pelos hematomas adquiridos anteriormente, jogou o corpo de Autumn sobre o ombro, erguendo-se sobre os pés com presteza. Sem perder tempo, enrolou um braço contra as pernas alheias, estendendo o livre enquanto dava passos em direção a escadaria. “ Liquefiat ”, proferiu, mirando o chão à frente da besta. O mármore não demorou a ceder, chiando ao ser consumido pela magia. Uma armadilha de pedra derretida. Esperava que o ogro não fosse tão inteligente quanto era rápido, porém, não esperou para ver se seu plano daria certo. Correu pelo saguão, seguindo a estratégia momentaneamente esquecida. Sem armas, com uma garota sobre o ombro e incapaz de usar feitiços mais eficientes… Suas chances não eram boas, muito menos as da Stein. Que bom, então, que pela segunda vez ouviu uma voz inesperada.
“ Parece que você precisa de uma mãozinha, mon cher. ”
Se deveria ou não estar ali, era mera questão de opinião — e na dele, obviamente, devia. Garantir a vitória da Anilen fazia parte do seu código de honra, de modo que o salpicar da poção residuam nas luvas dos receptores era atitude mui digna. Havia até permanecido no vestiário, escondido num canto fedido, para garantir que tudo ocorresse como planejado, denotando o tamanho de seu esforço. De maneira nenhuma que sua Casa perderia para a Imre, ainda mais quando os Mauricinhos já tinham perdido para Aderem. Nenhum golpe atingiria o orgulho anileno naquela tarde, certificaria-se disso. Então, foi com satisfação que observou o time adversário gritar um péssimo discurso motivacional e irem a campo, luvas enfeitiçadas e tudo. A vontade de rir era quase incontrolável, mas se contentou em ostentar sorriso arrogante enquanto saia discretamente pela porta lateral do vestiário, muito cheio de si para fingir inocência. Não importava que lhe apontassem o dedo ou taxassem de infantil, caso sua interferência fosse frutífera, encararia a detenção com a tranquilidade de quem havia sido vitorioso. Eram tempos de jogos, nenhuma artimanha estava fora de cogitação. E aparentemente, não era só ele que pensava assim. Já na intersecção que ligava os vestiários e a entrada para as arquibancadas, disposta bem no meio da arena, seu trajeto deixou de ser solitário. O sorriso convencido caiu por terra, dando lugar a uma expressão confusa, logo substituída por raiva e ultraje. Como ela se atrevia!? Pois, de conduta tão suspeita quanto a sua, não era difícil para Soren adivinhar o que Saxa, vindo em sentido oposto ao seu, devia estar fazendo. Parando quase de imediato, cruzou os braços, tendo os lábios crispados e os pés afastados. “ Você. O que está fazendo aqui, Sax? ”
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a camiseta vermelha e preta, juntamente com dois traços em suas bochechas, seguindo o padrão de cores de sua casa compunham o uniforme completo de uma torcedora fiel do grupo esportivo da imre. não que ela fosse fã de esportes no geral, mas adorava competições intercasas pelo mesmo motivo que saxa adorava qualquer evento que lhe permitisse beber a luz do dia. acontece que se ela era tão afeiçoada ao evento, porque estava saindo do vestiário do time inimigo? a resposta era uma só: saxa sabia que seus companheiros não eram lá tão bons, e ela gostaria que a imre fosse longe no campeonato, porque quanto mais longe eles fossem, mais dias ela teria para festejar e, é claro, beber. não havia mal nenhum em ajudar a sorte, não é? saxa, pelo menos, não via problema algum, e após sair do lugar se sentia confiante, de fato, estava pensando em beber em comemoração ao seu plano brilhante, mas foi a visão do moreno que fez o seu sorriso minguar até se tornar uma expressão perplexa. não precisava de mais explicações. se soren estava saindo do vestiário da imre, ele estava dormindo com o ínimigo ou tramando algo, ou os dois. “eu? você está com cara de quem aprontou e não de quem transou então pode começar a falar, ren. sei que você está armando algo. como você pode?” apesar do fato de saxa ter sido tão mal carater quanto, ela realmente parecia chocada que o amigo poderia prejudicar a sua casa. se ela tinha alguma dúvida, bastou que os berros lá em cima, e ela bufou irritada. “soren, o que você fez?” ela só tinha dado laxante para os jogadores, nada que justificasse gritos, a não ser que eles estivessem defecando no gramado, se fosse isso, saxa nunca perdoaria o moreno por estar fazendo ela perder essa cena.
Até aquele momento, não havia percebido o quão desconfortável o tecido da camisa se sentia sobre a pele. Um efeito do vinho, certamente, que o tornava sensível ao menor estímulo sensorial… Mas não era como se Soren lembrasse ou mesmo se importasse com tal fato. Estava além desse tipo de noção enquanto o linho, embora macio, fazia-o formigar. Com uma mão ocupada por uma taça de vinho dos sonhos, há muito vazia, tentava passar os pequenos botões pelas casas minúsculas. “ Porra, quem diminuiu esse negócio!? Brincadeira sem graça do caralho ” resmungou, deixando as peças de tamanho padrão escaparem novamente. Obviamente, precisava mudar de método. Levantando o olhar, parou a primeira pessoa a passar do seu lado, segurando-a pelo braço. “ Ei, você pode segurar isso aqui rapidinho? Não deixa ca- Njord!? ” exclamou, o pedido e a taça ficando momentaneamente esquecidos ao perceber quem havia puxado. A surpresa de ver o rosto do rapaz fez com que um riso inesperado deixasse seus lábios e, ainda que não transmitisse muita alegria, também não era de todo seco. Mesmo sob o efeito do álcool feérico, tinha ciência de que os sentimentos entre eles não eram completamente amigáveis, mas estavam ligados, não estavam? E isso, por si só, deveria ser o suficiente para se permitir gostar de vê-lo, como o fazia agora. “ E aí, meu cúmplice! Espero que não tenha feito nada muito errado sem mim. ”
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O transitar pela festa era lento e despreocupado, porque efetivamente não tinha que chegar a nenhum ponto específico. Mesmo sob efeito da bebida feérica, Njord não poderia se dizer eufórico como alguns dos colegas, adotando uma postura blasé em relação aos que o cercavam. Poderia ter apenas permanecido estirado num dos cantos enquanto aguardava o tempo passar e ingeria mais do líquido que faria com que perdesse a noção de onde estava, porém, em dado momento, inevitavelmente foi tomado pelo mal estar que acompanhava a ingestão exagerada de vinho dos sonhos. Caminhando para longe da música e do calor das fogueiras, o príncipe dobrou-se sobre o próprio corpo uma vez, esperando que a onda de náusea voltasse, para que ele pudesse enfim se livrar do conteúdo do estômago. Não demorou, contudo, para que ouvisse a voz conhecida ao fundo – o resmungar de um bêbado, sem que Krastan tivesse identificado do que ele estava reclamando. O resquício de sobriedade que lhe restava avisava para que saísse dali, caminhando para longe do rapaz, afinal, nada de bom tinha advindo das vezes em que se encontraram. Ainda assim, o Westergaard ignorou o instinto, caminhando para perto da figura que ele sabia se tratar de Soren. Sentiu o tatear típico de um ébrio em seu peito, tão logo se aproximou, sentindo, então, o cristal frio em seus dedos. Porém, como não tinha de prestar favor algum ao Fitzherbert, descartando a taça no solo assim que ele lhe entregou. “ Precisando de ajuda? ” falou, uma pitada de malícia e um revirar de olhos, enquanto indicava a camisa molhada, possivelmente por vinho — qual a dificuldade em tirar a roupa, afinal? Foi a fala seguinte que fez com que o sorriso morresse na boca do filho de Hans. Mesmo embriagado, a insinuação despertou pânico em alguma parte de seu cérebro. “ Cale a porra da boca, Soren ” disse, seco e baixo, olhando uma vez por sobre o ombro. “ Pode ter mais alguém ouvindo. Mas o que sabe sobre discrição? Até sua irmã está me perguntando coisas ”
Posso te proporcionar uma noite inesquecível, só tem que prometer que ela permanecerá assim. Posso te proporcionar uma noite inesquecível, só tem que prometer que ela permanecerá assim. As palavras soavam totalmente inofensivas, fazendo com que franzisse o cenho em desconfiança. Nem a mais forte das drogas poderia fazer um fae aparentar inocência — e o anjo pairando sobre o ombro da criatura, pelo jeito, concordava com seus pensamentos. Tinha que haver alguma pegadinha ali, sabia disso, por mais que a raposa a seus pés afirmasse o contrário. “ Porque está oferecendo isso logo a mim? ” indagou pela terceira vez, questão para a qual recebeu a mesma resposta de antes. Por que você tem potencial. Que estranho, ninguém nunca disse que tinha potencial para qualquer coisa além de destruição. O que nem sempre era ruim, apontou a raposa. Inclinando a cabeça, ponderou. De fato, sua tendência a causar confusão pelo menos era divertida — exatamente o que desejava que a noite fosse. A discussão entre ele e suas ilusões durou por mais alguns segundos antes que finalmente voltasse a encarar seu gênio de orelhas pontudas. “ Se eu disser sim, você vai voltar para pegar meu primogênito? Ninguém gosta da vibe Rumple, entende? Mas se a criança for como eu, talvez não faça mal entregá-la… ” A destra foi de encontro ao próprio rosto, acariciando o queixo em profunda reflexão. Estava tão absorto na troca que sequer notou o brilho malicioso nos olhos do feérico ou Melena se aproximando.
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A sobriedade fazia Melena entender porque algumas pessoas detestavam festas. Basicamente, não era fácil encarar um ambiente como aquele totalmente sóbria e, por mais careta que pudesse soar, ela conseguia notar com perfeição todas as atitudes que podiam levar à vergonha alheia. Beijos completamente aleatórios, agarrações exageradas em público, danças sensuais demais para uma festa e afins. Já tinha contado, pelo menos, dez cenas que renderiam boas fofocas no dia seguinte e estava em busca de mais algumas atitudes do tipo quando seus olhos se depararam com a curiosa cena de Soren com uma fada. Não imaginaria que o príncipe seria burro à ponto de cair na conversa dos faes. Portanto, sendo movida pela curiosidade, a bruxa esverdeada se aproximou do colega, para conferir tudo mais de perto, e chegou no exato momento em que poderia evitar um desastre. Aquele bastardo! Ficaria devendo uma pra ela pelo resto do século. A esverdeada pensou quando decidiu dar uma de heroína pra situação, aproximando-se do príncipe com uma postura intima, abraçando seu pescoço enquanto fingia estar embriagada;; colocando mais peso do que deveria no corpo masculino. ❛❛ —— Onde você estava, benzinho?! Eu não disse pra me esperar? Nós temos algumas coisinhas para resolver. ❜❜ Sua voz soava propositalmente alterada e, como se não estivesse percebendo que atrapalhava, ela começou a puxar o corpo masculino para longe da fada enquanto caminhava de costas. ❛❛ —— Vem!! Você me prometeu que nós faríamos o Grande Rito em particular. ❜❜ Ela tornou a falar em um tom alto o suficiente para ser ouvida pela feérica, dando uma rápida olhada para checar se tinha sido bem sucedida;; algo que parecia ter acontecido à julgar pela frustração do ser mágico que xingava-a em alto e bom som.
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O adocicado do vinho parecia particularmente luxurioso quando oferecido diretamente dos lábios dispostos de um fae. Num estado mais sóbrio, Soren teria considerado a oferta por mais de um segundo antes experimentar o líquido de ser tão malicioso, talvez por dez segundos inteiros. Um descuido gravíssimo, muitos diriam, mas não para o filho de Rapunzel. Claro, nada disso significava que os riscos de aceitar qualquer coisa provinda do povo das fadas estavam sendo ignorados, de maneira alguma. Estava bastante ciente do efeito do vinho e da everapple, que vinha evitando, porém, mesmo ele — principalmente alguém como ele —, precisava ter uma noite em que o medo não atrapalhasse, apesar de ainda se manter nas bordas da sua mente. Assim, o plano era claro: beber, se divertir e esquecer qualquer bobagem no dia seguinte. E estava se saindo muito bem nos dois primeiros; isto é, até seu olhar captar o de Autumn observando-o. Fazia dias que a princesa o encarava de forma estranha — desde a visita a Ilha dos Prazeres, na verdade —, o que o enervava… Embora agora não lembrasse bem o porquê. Contudo, ser assistido por razões que não fossem causar prazer, nunca lhe caiu bem, e agora não seria diferente. Portanto, via-se obrigado a consertar esse pequeno equívoco. A sugestão de um sorriso apareceu em seus lábios enquanto mantinha o olhar fixo na garota, afastando o fae para seguir em sua direção. “ O que tanto olha, Autumn? Se não parar logo, vou começar a pensar que está louca para me beijar ” disse a poucos metros, continuando a se aproximar. O tom naturalmente alto não seria difícil de ouvir, de modo que o flerte não ficaria perdido ao vento. “ É isso que quer? ”
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Havia algo de diferente naquele momento. A sensação era de estar em mais um de seus sonhos, como se a atmosfera lhe fosse nova, de cores muito vivas, de cenários ainda desconhecidos. Sua pupila, sem sombra de dúvidas, estava dilatada em admirar tanto ao seu redor. E, um sentimento que já parecia muito vívido, tornou-se ainda mais ao ter Soren entrando em seu campo de visão. De novo ele ali, em seus sonhos? Era a pergunta que sua mente fazia, intrigada. Não era como se pudesse recordar com clareza o conteúdo do que sonhara anteriormente, os pensamentos difusos demais, porém uma coisa era certa: Soren estava lá. E mais uma vez agora, aparentemente. Encarava-o com curiosidade, esperando pelo que ia acontecer, até que o próprio veio caminhando em sua direção. Isso não costumava acontecer em seus sonhos. ❝Eu estou te olhando porque não acredito que estou sonhando com você de novo. Não para mais? Sai da minha cabeça, Fitzherbert.❞ O comentário não era mais do que uma reclamação a não ser levada a sério, considerando o tom de Autumn sem um pingo de irritação, na verdade. Talvez fosse impossível ficar verdadeiramente irritada quando se estava sob o efeito do tal vinho e, além de tudo, acreditar estar vivenciando um de seus sonhos. O protagonista estava ali, não era mesmo? E o dito cujo fazia perguntas que, independente da realidade, despertavam um sentimento intrigante na aderense. ❝Eu? Louca para te beijar?❞ O olhar intercalava entre os lábios e os olhos do rapaz, como se o questionamento lhe fosse ultrajante. Sonho curioso aquele, no entanto. ❝Eu não quero. Por quê? Você quer, por acaso?❞
Margaery aproveitou seu horário livre para poder ficar esperando o final da aula do herdeiro de Corona. Encostada em uma parede fingia ler seu livro, mas na realidade estava atenta para a aparição de Soren. Quando o garoto finalmente saiu da sala, a anilena guardou seu livro e movimentou sua mão direita em direção a ele, sussurrando: - Lubricam principis corona facta est terra. – sua magia roxa saiu em forma de fumaça, dirigindo-se aos pés de Fitzherbert. Ao vê-lo cair uma risada alta escapou de seus lábios e ela bateu palmas anunciando sua culpa. Seus olhos chegavam a derramar lagrimas de alegria enquanto ela se aproximava de um príncipe que era incapaz de levantar. Os demais aprendizes já se afastavam sabendo das desavenças da dupla. – Sabe, Soso, eu não sabia que finalmente tinham te tirado do trono de Corona! Mas ainda bem que já arrumou um trabalho aqui no castelo como faxineiro. Você está fazendo um ótimo trabalho limpando o chão!
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Aproveitar-se da distração alheia ao sair da aula, para Soren, era de uma covardia extrema. Deturpar a emoção pura de ser livre da tortura diária era baixo, muito baixo. E, apesar de normalmente não estar acima de tais ardis, tudo mudava de figura quando estava na outra ponta da equação. O alto humph! que deixou seu corpo junto a uma quantidade considerável de ar, só ajudava a provar isso. “ Porra… ” gemeu, confuso com o que o tinha levado a cair de forma tão espetacular. Mentalmente, tinha lá suas dúvidas, mas fisicamente era o epítome do equilíbrio. A questão, porém, logo foi esclarecida pela risada escandalosa de Margaery. Que pequena mequetrefe! Levantando o olhar para a loira, não havia nas íris castanhas nada além de intenção assassina. Contudo, o príncipe se forçou a soltar uma risada, surpreendendo aqueles que passavam apressados por eles — com certeza antecipando uma briga. E não seria o Fitzherbert a decepcioná-los. “ Ah, Mae, aí que você se engana. ” Ainda sobre as próprias costas, esperou que a anilena ficasse ao seu alcance, o que aconteceu pouco antes de sua última provocação. Ela estava melhorando em seus esforços para tirá-lo do sério, tinha que admitir, mas nenhuma centelha de respeito o impediria de reaver seu orgulho. Esticando um braço, rapidamente o posicionou por trás dos tornozelos da princesa, puxando-os em sua direção. “ Eu nunca faria um trabalho tão bom quanto você. ” Praticamente podia ouvir as vozes de seus amigos repreendendo-o por se trocar com a Pendragon, censurando-o por derrubá-la. Obviamente, estava ciente do quão não cavalheiresca era sua atitude, no entanto, ponderado não fazia parte de seus atributos. O sorriso em seus lábios, então, tornou-se mais genuíno. “ Se eu soubesse que queria tanto trocar de lugar, teria te dado a chance de se voluntariar primeiro. Tenho certeza que você tiraria mais proveito da função, já que dificilmente será rainha. Talvez até conseguisse o papel de Gata Borralheira! ” Sentindo que o agarre do feitiço havia enfraquecido, tentou levantar novamente, agora sendo bem sucedido. Não nutria emoções positivas pela garota no momento, principalmente quando havia tanto a fazer antes da excursão ao parque no dia seguinte e ela atrapalhava sua agenda, porém, viu-se oferecendo-a uma mão amiga… A princípio. “ Por mais ansiosa que esteja por realizar uma boa ação, está começando a atrapalhar o fluxo do corredor. ”
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O choque de cair no chão só não foi maior do que sua raiva. Se ela pudesse, matava Soren ali mesmo naquele momento, sem se importar com o que os outros pudessem falar. Como ele ousava fazer isso com ela? Pouco importava na cabeça de Margaery que ela havia começado. Oras, ela estava se divertindo e ele estava provocando. Eram coisas totalmente diferentes! – Eu vou te amar seu safado! – xingou a Pedragon, o que arrancou algumas risadas das pessoas ao seu redor. – É melhor você sair correndo porque quando eu levantar eu vou te transformar em um inseto! – ameaçou a princesa enquanto tentava se colocar novamente sob os pés, mas caia toda vez que se movia, o que a deixava ainda mais irritada. Seu pai havia dito algum dia que o feitiço sempre se virava contra o feiticeiro e essa era uma daquelas situações, porém a anilena odiava quando Arthur estava certo e estava realmente decida a transformar o príncipe em um animal qualquer. Com um orgulho totalmente ferido, pensou em negar a mão que Soren oferecia, porém pensou melhor e aceitando a oferta, puxou-o novamente para o chão ao mesmo tempo em que se levantava, desvencilhando-se do feitiço. – Acho que o gatinho borralheiro aqui é você, vossa alteza. – dando foco no final de sua fala, Margaery fingiu fazer uma referencia quase que teatral. – Mas não sei pra que essa cara! Vou melhorar seu dia, ok? – usou seu sarcasmo apenas para dar inicio ao movimento de sua mão direita, que se mexeu fazendo um circulo no ar. Murmurou o feitiço – pluviam – e assistiu satisfeita uma nuvem preta começar a nascer em cima da cabeça de seu adversário. Acenou para ele em despedida no mesmo tempo em que a água começou a sair da nuvem com estrondoso relâmpago.
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Conhecia bem o temperamento intempestivo da Pendragon e, apesar dos indícios contrários, tinha plena ciência do que provocava ao atiçá-la. Bom, talvez não plena, mas essa não era a questão. A verdade é que as consequências de suas ações pouco lhe importavam, de modo que não havia nada para impedi-lo de debochar da princesa que o ameaçava. “ Você não deixa de surpreender, schatz. Já escutei declarações feitas nas alturas, mas gritadas do chão é a primeira vez. ” Que sua risada estrondosa se juntasse a de outros estudantes pudesse irritá-la, não fazia diferença alguma para Soren. Se muito, a possibilidade de retaliação servia apenas para incentivar um comportamento ainda mais imprudente. E como não seria assim? Vivia pelos desafios que surgiam em seu caminho. Pelo menos, de covarde não poderia ser taxado — um dos erros principais na insinuação de Mae, que deveria ter apostado todas as fichas em sua estupidez. Até mesmo ele tinha que admitir a burrice de seu ato de gentileza para com a garota. Que inferno, já não havia aprendido que cachorro maltratado sempre mordia a mão que lhe era estendida? A risada cheia de antes foi substituída por uma seca, destituída de graça, porém repleta de irritação. “ Foda-se ”, respirou. Ela literalmente o tinha sobre os joelhos. Por um segundo, limitou-se a encarar o chão, sentindo o peito oprimir e a visão embotar. Estava perdendo o controle, sabia disso, contudo, não conseguia refrear a onda de raiva que engolfava qualquer pensamento racional. Estava furioso. Mais que isso: revolto. Uma reação perigosa, e completamente desmedida, impulsionada por um gatilho há muito esquecido e inadvertidamente disparado. Não tinha culpa, é claro, seu corpo simplesmente agia por instinto e seu poder, ansioso por retaliar a suposta ameaça, agitava-se em resposta. Em outro momento, seria certo dizer que jamais usaria seu poder contra alguém, contra Mae, de forma tão direta. Entretanto, certezas não poderiam, nem deveriam, ser consideradas em relação a ser tão imprevisível quanto o Fitzherbert. Ao erguer novamente a face para encarar uma sorridente Margaery, cujo os lábios teciam outro de seus feitiços, algo mudara no príncipe. Os traços que denotavam irritação relaxaram, tornaram-se inexpressivos… A não ser pelos olhos, lentamente consumidos pela escuridão outrora restrita às profundezas de sua magia. Como num mau agouro, o castanho fora engolido pelo negro, alastrando-se para além de suas bordas. Foi uma sorte, realmente uma sorte, que o professor finalmente tenha se aventurado para fora da sala de aula, motivado pela comoção criada. “ O que está acontecendo aqui!? ” A voz forte, juntamente com o trovão soando acima de sua cabeça, foi o suficiente para atravessar o transe que Soren havia sucumbido. Tão rápido quanto havia lhe tomado, seu poder retrocedeu, deixando-o ofegante. Que merda tinha acabado de acontecer? Só poderia esperar que a água ensopando sua camisa, colando-a a seu corpo, não só justificasse sua reação, como distraísse sua plateia dela. Foco, era disso que precisava, surtos teriam que ficar para depois. Assim, ergueu-se sobre seus pés, forçando o mais descarado dos sorrisos em seus lábios ao dar um passo em direção a anilena que tratava de fugir, puxando-a para seu lado.
“ A minha querida Mae estava frustrada com o clima ensolarado de hoje, muito avesso ao humor dela, e resolveu me usar como solução, não é? ” Indagou, pressionando-a contra seu flanco, satisfeito por compartilhar a pequena tempestade. Voltando-se para o docente, continuou em tom de camaradagem. “ Eu que não me oporia aos desejos de uma dama. Então como pode ver estamos bem e decentes… Por pouco tempo. ” De fato, chuva, roupas brancas e pudor nunca formaram uma boa parceria. “ Se nos der licença, temos que… ” disse, fazendo menção de ir embora, entretanto, fora interrompido antes de dar um passo sequer. “ Parados, os dois. Não ousem subestimar minha inteligência, altezas. Me acompanhem até a diretoria. ”