sempre me preocupa como eu escrevo de luto sendo que nunca experenciei o luto da morte de alguém querido... eu processo esse sentimento de uma certa forma romantizado. o fim traz novos começos, mas o fim de uma vida não.
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Mudanças
Tudo muda, o tempo todo, e eu não posso evitar.
Venho me sentindo muito mais velha do que sou, eu realmente esqueço minha idade algumas vezes e chuto que tenho vinte e cinco. Falta ainda dois anos para isso.
É engraçado, porque dois anos atrás eu ainda me sentia muito jovem. E agora que digitei isso, penso na música I felt younger when we met...
Eu nunca dei muita atenção para essa música, não estava planejando falar sobre ela, mas a terapia que é escrever me obriga mencionar.
A música encerra Fandom, um álbum sobre o luto de um término. O vocalista da banda em uma entrevista mencionou sobre como ele fez muito tempo de terapia para lidar com o término de seu relacionamento e percebeu como o luto na verdade é um ciclo. Tem altos e baixos, e sempre acaba voltando pro mesmo lugar, por isso, I felt younger when we met termina se conectando à primeira faixa, Cherry Red.
Eu sem querer me identifiquei com essa música, pois vivencio o luto de finais de relações (românticas e afetivas) muito similar a como Awsten vivenciou.
O desgosto de ter se permitido ser vulnerável com quem não merecia, e as noites em claro desejando que o culpado saiba como isso te fez mal. Os trechos sobre como ele vendeu todos os discos para voar e encontrar sua ex-namorada me assimilaram muito a como eu também invisto dinheiro que nem tenho para me dedicar a quem eu amo.
Eu odeio me identificar com as músicas do Waterparks, não pelas suas histórias, igual me identifico à Taylor, mas porque me identifico com os sentimentos. Muitas das músicas deles são sobre sentir raiva de algo... Eu sinto raiva o tempo todo.
Como pode o mundo continuar seguindo sem minha melhor amiga por perto? Por que eu sinto raiva de mim mesma? Eu sinto que tudo está fora do lugar e só consegui voltar a ter um sono decente nos últimos três dias. Por que eu torno isso sobre mim? Qual direito eu tenho de tornar isso sobre mim? Ela me odiaria por escrever esse texto ou ela entende como eu amo ela?
Ela vai ter tempo de perceber que eu não sou alguém que quer ter por perto?
Ela diria se não quisesse me ver mais?
Eu me pego pensando como a vida dela vai mudar... Isso vai ser um trauma ou ela vai levar com leveza no futuro?
Chega de interrogações.
Talvez eu goste tanto do Fandom porque ele retrata o término de uma maneira tão crua que é fácil de aplicar a outras situações. O conceito do processo de cura não ser linear é muito similar ao que eu sinto.
Alguns dias eu estou bem, decidida, eu não preciso de quem me machucou na minha vida. É, é sua perda, não minha. Porém em outros momentos tudo volta, a dor, a solidão, a traição. A vontade de gritar aos quatro ventos que eu sei o que ela fez e tentou esconder de mim... A busca por uma justiça que nunca vai existir.
E o pior é saber que eu revivo isso porque é confortável. É uma dor que eu conheço há meses e que eu sei onde termina... Termina comigo percebendo a verdade. É um final feliz! Por que então eu não consigo enterrar?
Talvez eu tenha medo de mudar.
O que é uma Sophia confiante de si? Eu não sei. Eu acho que eu tenho medo.
A insegurança é uma corda que me prende para que eu não exagere. Eu não posso deixar que as outras pessoas realmente saibam como eu sou, porque isso as afastaria de mim. Todo mundo que já viu meu pior lado se afasta.
Eu sou cheia de raiva e perco a linha quando percebo que me deixaram decepcionaram. Já ouvi mais de uma vez que minhas palavras machucam quando brigo... Então não deveriam me magoar! Se eu fico desconfortável, você também ficará.
Todo mundo tem um motivo para me odiar... E mesmo assim não é todo mundo que me odeia.
Alguns amigos meus viram minhas piores faces, discordaram de mim, brigaram comigo, e mesmo assim eles continuam ao meu lado. Isso é tão esquisito. Quase me faz acreditar que amizade é assim... Ela não é perfeita e não é linear, tem altos e baixos e quase sempre volta para o mesmo lugar.
Igual o luto.
Algum dia quero confiar em mim mesma, sinto que cada vez mais esse dia se aproxima. Eu já sei o que eu quero e entendo o que eu sinto, o que me falta é ter a confiança de mostrar minha verdadeira face para pessoas que não me conhecem ainda.
Eu quero mudar.
Eu quero aceitar as mudanças em mim, nas minhas amizades, nos meus relacionamentos, na minha família, no meu corpo, nas minhas habilidades, na minha rotina, na minha vida. Não acho que isso as tornará tão mais fáceis, mas me fará as temer menos.
Como tudo muda rápido...
Me pego pensando nas palavras que nunca mais vou dizer, nas pessoas que uma vez me despedi sem saber, nos hábitos que morreram e os lugares que nunca mais vou visitar.
Cara... Eu amava ir à chácara e sempre ansiei pelo dia que eu iria jogar rpg lá, e isso nunca vai acontecer. Isso foi arrancado de mim. É ridículo pensar que ainda sequer considero querer saber o que ela sente da minha dor sendo que dou tão pouco valor às suas palavras hoje em dia. Não consigo valorizar o que não sei se é verdadeiro. É meio por isso que nunca gostei de ler fanfic.
Quando o Sizzles, meu cachorrinhozão de infância morreu, eu me despedi dele uma última vez com seu corpo desacordado. Falei que o amava. Eu nunca mais falei "eu te amo, Sizzles", e só a ideia de falar isso me traz a lágrimas.
Eu sequer tive o corpo do Luan para me despedir. Eu falei "boa noite, Luan" para minha estante vazia, onde ele dormiu seus últimos dias. Agora, um rádio está em seu lugar. Ridículo.
Eu passei todos os meses que o meu gatinho Luan passou comigo sofrendo por causa de gente que não merecia meu sofrimento. Por gente que me olharia e me chamaria de vitimista, que daria a porra de um prazo pra minha dor. Que me socou na cara e ficou reclamando de minha pele ainda estar roxa, e ainda me disse que eu colocar gelo que me deu para desinchar meu rosto a deixava culpada.
Não sou uma pessoa de arrependimentos, mas disso eu me arrependo. Ficar cega de raiva não me fez olhar para o ser que dormia comigo todas as noites. Passei noites chorando pensando que queria que soubessem como eu estava sofrendo e sequer o agradeci por estar ali comigo. Eu me arrependo disso. Me arrependo de ter permitido isso acontecer comigo.
Eu me culpo tanto por ter machucado meus amigos com isso, e eu fiz terapia o suficiente para entender que não é minha culpa, que isso é apenas uma consequência da dor me foi infligida, então eu sinto raiva de sentir culpa. Caralho, eu realmente sinto raiva de tudo!
É por isso que eu odeio me identificar com as músicas do Waterparks. Eu odeio como a raiva domina cada célula do meu corpo e me cegar das coisas boas ao meu redor. Eu sempre tive tantos amigos bons, que realmente gostam de mim, por perto.
Eu sei que tudo muda, mas eu espero que o amor deles, se é que eles sentem isso por mim, não mude. Estou cansada de aprender através da dor, é possível aprender com o amor, e eu torço todos os dias para que o futuro seja um pouco mais gentil comigo, porque tudo está em constante mudança, e não tem nada que eu possa fazer para evitar.
Eu vejo fantasmas desde que fiz 14 anos
Não é uma habilidade que eu admiro muito
Eu os vejo em vídeos na internet
Os assisto controlarem os gestos de outras pessoas
Às vezes, cruzam meu caminho na rua
Mas nada se compara a conversar com um fantasma
É como se tornar um observador do embate entre o passado e futuro
Mas fantasmas não existem, certo?
Então eu aprendi a os ignorar e dar atenção para os vivos
Jet Black Heart e Michael Clifford
Eu queria muito estar escrevendo esse texto sentadinha no meu computador que paguei caro pra aprimorar, mas como está um calor insuportável no meu quarto, infelizmente vou ter que fazer pelo celular mesmo.
Acho que todo artista sente que tem algo de errado na vida quando fica muito tempo sem criar algo. Eu tenho tantas ideias, mas fico esperando as condições perfeitas para trazê-las à vida, e isso, junto do perfeccionismo, inibe muito meus trabalhos.
Eu gostaria de saber se tem uma parcela de artistas que também sente muita vontade de criar algo em tributo a alguém ou algo muito especial para si, mas que sente que não seria capaz de representar todos os seus sentimentos com suas habilidades. Deve ter alguém, não deve ser só eu.
Se parece meio dramático falar isso e logo em seguida começar a descrever meus sentimentos por um guitarrista que não me conhece, é porque arte é dramática! Então meu texto também será!
Acho que nenhum texto, nenhum desenho, nada que eu crie conseguiria chegar perto de retribuir para o universo todo o conforto que o 5 Seconds Of Summer trouxe para minha vida.
Se hoje eu tenho uma conexão muito profunda com as músicas que eu escuto, é tudo porque uma dia eu escutei Jet Black Heart.
Você não tem escolha
Esse texto contém pequenos spoilers das histórias de Enigma do Medo, Frozen, Kpop Demon Hunters, Deltarune, Life is Strange, Spiderverse e Percy Jackson (vai fazer sentido, eu juro).
Imagine ser obrigado a existir em um mundo onde todas as escolhas que você pode tomar são limitadas a consequências das escolhas de outras pessoas.
Imagina viver em um mundo onde você não tem outra escolha se não conviver com essas decisões importunas, que diretamente afetam sua rotina. Decisões que te privam de alcançar seus objetivos.
Assim, não é muito difícil de imaginar, porque essa é nossa realidade.
Todos nós somos jogados no mundo a partir as decisões de outras pessoas, e o que nos resta é esperar que nos ensinem como viver.
É mais ou menos sobre isso que se baseia o diálogo final de Jaser Strach, de Enigma do Medo. A única escolha que ninguém pôde tomar, é a escolha de existir.
Existir é difícil, quanto mais eu penso sobre, mais eu percebo. Estamos amarrados a uma constante pressão de tomar as melhores decisões para existir com dignidade. Sendo assim, apenas o privilégio de poder questionar isso, é uma consequência de quem veio antes de mim e do ambiente em que cresci.
"Você pode ter a sorte de ser forçado a existir em um caminho de escolhas fáceis. Ou você é forçado a existir em uma situação onde toda decisão parece ser a escolha errada." - Jaser Strach, Enigma do Medo
Se você vê o conceito de existir como uma benção ou uma desgraça, não importa, pois todo dia temos que acordar e viver da mesma maneira, independente do que você acha. Ninguém é imune.
Eu acredito que inconscientemente sempre gostei desse tipo de reflexão sendo retratado na arte, mas só consegui ligar os pontos recentemente, agora que estou mais velha e passo mais tempo com meus pensamentos no transporte público.
E olha, se eu ficasse dez anos listando todas as obras que tratam desse tópico, ainda assim eu deixaria algumas de fora. Os conflitos de existir estão presentes em quase toda peça de arte, mesmo que não intencionalmente, porque é algo tão intrínseco no ser humano, que acho que nem todo mundo percebe isso.
Afinal, o que é mais humano que aprender a se adaptar à sua realidade? Você não tem escolha, de qualquer maneira.
Não teria como eu começar a falar sobre escolhas sem mencionar meu filme favorito: Frozen!
Elsa, de Frozen, e Rumi, de Kpop Demon Hunters, têm construções narrativas muito similares. Ambas mulheres sem escolha, se não viver com a maldição, ou benção, que seus pais as proporcionaram, antes mesmo de nascerem. Ambos os pais tomaram decisões egoístas, sem pensar na criança que trariam ao mundo e o que ela precisaria vivenciar.
Além disto, é impossível não associar esse tema à vivência queer. Novamente, ambas são mulheres que precisam reprimir um lado de si para se encaixar na realidade que nasceram. Encobrir, não sentir, não deixar saber... É literalmente algo ensinado à Elsa quando ainda criança.
Caso pise na bola, tudo que você conhece vai deixar de existir da forma que era antes. É assustador. Ambas, não têm escolha, se não carregar esse fardo eternamente. Existir é trabalhoso.
Talvez existir seja mais próximo da realidade de Kris de Deltarune. "Suas escolhas não importam" diz Susie ao encerrar nosso primeiro diálogo no jogo.
Todos os caminhos nos levam para o mesmo lugar, todas as decisões que você, como jogador, toma, eventualmente levarão ao final da profecia.
A mesma coisa acontece em Life is Strange. Max talvez tenha um dos mais desejados poderes, a chance de poder tomar novas escolhas, escolhas melhores, a chance de ser melhor sem ter que lutar por isso.
O poder de Max é tão tóxico porque da a ilusão de escolhas ao mesmo tempo que tira a habilidade mais humana que existe: a chance de errar e aprender.
É apavorante quando tiram esse poder de você quando você precisa salvar Kate, porque, se você não buscou realmente entender o que ela estava vivendo, apenas buscou as melhores respostas, o resultado pode ser desastroso.
Não importa o que você faça no jogo, algumas coisas não são capazes de evitar, o caos é inevitável e a Max vai ter que aprender a viver com a dor de errar.
"Algumas coisas precisam acontecer"... Quem disse isso pela primeira vez? Você acredita nisso? Acredita em destino? Eu ainda tenho minhas dúvidas.
De fato, algumas coisas ruins precisaram acontecer para que eu pudesse evoluir como pessoa, mas eu me questiono se realmente a única maneira de aprender é com a dor.
A ideia de eventos canônicos ficou bem popular por causa da franquia de Spiderverse, essa ideia de que você não pode evitar o "canôn", um conceito não muito diferente de uma profecia.
Tanto seu pai quanto o Homem Aranha dizem que ele "não tem escolha", é o fio que liga toda sua história, ele não pode evitar o canôn, mas Miles não se conforma com isso.
Miles busca mudar o cânon igual Susie quer mudar a profecia, independente do que eles ouviram a vida toda, suas escolhas vão importar.
"Mas, Kris, eu acredito que as SUAS escolhas também são importantes" - Ralsei, Deltarune
O nosso leque de escolhas é pequeno em Deltaurne e Life is Strange, mas não fora dos jogos. Nós somos forçados a existir, mas também somos forçados a escolher, dentro da nossa própria realidade. Somos obrigados a existir e mudar constantemente.
Percy Jackson é escrito muito similar a Elsa e Rumi, ele também é obrigado a existir com um fardo que veio por causa de pessoas que vieram antes dele. Ele é uma vítima de algo que ele nunca escolheu fazer parte, e, mesmo assim, ele ainda tem esperança de tornar o mundo um pouco melhor para as pessoas que virão depois dele.
''E aqueles que chegam antes só podem ensinar aqueles que vêm depois a se adaptar às regras às quais foram forçados a aprender.'' - Jaser Strach, Enigma do Medo
Acho que por isso que eu gosto tanto do Percy, os ideais dele são mais próximos dos meus. Existir pode ser difícil, mas encontro meu propósito nas pessoas ao meu redor.
Acredite, se você está lendo meu texto, sua existência é importante para mim. Para mim, é importante que minhas palavras cheguem em alguém e que causem algum conforto. Quero que saiba que, seja o que estiver sendo obrigado a viver no momento, você não está sozinho, a arte mostra que todos passamos por dores parecidas, e sempre vai ter alguém que entenda a sua.
Eu sei muito bem que tem dias que fica difícil de encontrar um motivo para levantar da cama, às vezes é revoltante existir, mas do mesmo jeito que você é obrigado a viver, você é obrigado a mudar, assim como todo mundo.
Independentemente de canôn, profecia ou destino, você ainda pode decidir a sua jornada. Mesmo que os jogos terminem da mesma maneira, as suas decisões e as suas experiências são únicas.
E você não tem outra escolha, se não vivê-las.

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“Flowers teach us that nothing is permanent: not their beauty, not even the fact that they will inevitably wilt, because they will still give new seeds. Remember this when you feel joy, pain, or sadness. Everything passes, grows old, dies, and is reborn.”
— Paulo Coelho, The Spy
Escrever é fácil...
Eu tenho o mundo na ponta dos meus dedos, um mundo que eu posso voltar sempre que o mundo que eu vivo me sufoca demais com a falta de controle.
Como eu queria poder pausar a vida só pra corrigir uma palavra que eu me arrependo no capítulo anterior... Mas eu não posso.
Vinte e três anos agora e eu não consigo lidar bem com o livre árbitro dos outros ao meu redor. Por que as pessoas não conseguem me falar o que sentem com facilidade? Por que eu causo tanto medo? O que eu posso fazer pra mudar isso? O quanto de mim eu tenho que mudar para parar de causar dor às pessoas que eu amo?
Seria tão mais fácil se eu fosse a autora. Eu sei exatamente o que se passa na cabeça dos meus personagens. Eu implico a dor neles, mas também a solução. Nenhuma dor é em vão.
A minha dor vai ser em vão? Meus pensamentos, meus aprendizados, meus conflitos, eles podem servir de algo? Eu gostaria tanto deixar uma marca boa no mundo. Que alguém, em algum momento, possa ver o que eu passei e se sentir um pouco menos sozinho.
Quando eu era mais nova, eu acreditava na minha existência como algo bom. Eu era importante para as pessoas ao meu redor, era alguém que as pessoas se sentiam confortáveis, que elas confiavam, que não se sentiam julgadas, um porto seguro na vida nebulosa. Quando isso mudou? Eu já nem sei.
Ainda bem que eu escrevo.
Quando eu escrevo, eu sinto que ainda posso fazer o bem, que ainda tenho algum significado. Sinto que ainda posso abraçar alguém com minhas palavras.
Quando eu escrevo, eu tento sempre ter em mente o que a Sophia de doze anos procurava, e eu torço pra que isso sirva de alguém.
Eu posso mudar a narrativa quantas vezes eu quiser, posso fazer todos os personagens perdoarem e evoluírem, posso criar algo constante.
Talvez eu odeie mudanças, porque eu odeio inconstâncias, mas a vida é assim. Se eu pudesse controlar a minha vida com tanto afinco, talvez eu não teria tanto medo, mas eu também perderia a beleza da espontaneidade.
Meus amigos não são meus personagens, eu não posso controlar quando eles vão me machucar, quando eles vão mentir para mim, ou quando eles vão me deixar, mas eu também não sei quando eles vão fazer pequenos atos que vão me manter viva por mais um dia.
Mais um dia.
Todo dia, mais um dia, mais um motivo. Eu preciso de um motivo. É por isso que eu escrevo. Para que outras pessoas consigam encontrar mais motivos para viver.
É minha única forma de retribuir para o universo o quanto a arte me salvou. Como música, jogos e livros me salvam todo o dia. Eu quero fazer parte disso. Ninguém pode tirar isso de mim.
O universo pode tirar cada grão de felicidade do meu dia a dia, mas não pode me tirar meu poder de fazer arte, apenas no dia que eu morrer. E por mais que me doa, eu vou continuar vivendo.
Eu subestimo o quão Ordem Paranormal significa para mim
Ontem fez exatamente um ano desde que Enigma do Medo foi lançado. O Cellbit fez uma carta enorme no Twitter falando sobre os sentimentos dele e sobre a experiência da produção de um jogo no Brasil, e eu queria muito falar algo sobre, mas nada saiu.
Acho que felizmente desaprendi a criar linhas de raciocínio curtas, nunca conseguiria falar sobre o impacto de Ordem na minha vida em tão poucos caracteres.
Impossível começar a falar de Ordem Paranormal sem falar um pouco sobre seu criador.
Sou parte daquela parcela que acompanhava o Cellbit quando ele era apenas um youtuber teen que gritava fino jogando Amor Doce. Mesmo que eu tenha o acompanhado por tantas eras, eu não diria que sou sua fangirl, mas sempre admirei a capacidade dele de se reinventar.
Ninguém consegue ser o mesmo para sempre, muitas pessoas públicas se perdem ao tentar se manter iguais para toda eternidade, com imitações repetitivas e sem paixão do início da sua carreira. Entretanto, o Cellbit é a prova de que, se você consegue se conectar com seu público, a sua paixão pelo que você faz pode te manter vivo.
Eu não sei dizer exatamente quando foi que ele decidiu pausar um pouco as gameplays pra fazer os vídeos de enigma, porque parei de o acompanhar por uma época, mas nossa, esses vídeos alteraram a química do meu cérebro.
Era algo tão ousado pra época, ele parou de ser o "cara do grito fino" e se tornou "o cara dos enigmas". Todo mundo sabe até hoje que isso é algo importante para ele, tudo porque ele tinha aquele brilho no olhar ao falar de algo que gosta tanto.
Então quando ele decidiu mestrar RPG, eu nem hesitei em acompanhar.
É meio difícil de lembrar desses últimos anos e não associar momentos da minha vida com cenas de Ordem. Eu voltava de ônibus da escola ouvindo aqueles barulhos bizarros da Degolificada. Meu terceiro ano do ensino médio são apenas memórias de como eu era apaixonada pela Liz e pelo Thiago - minha primeira fanart de Ordem foi deles no hospital bebendo whisky. Meu primeiro ano da faculdade está diretamente ligado a aquela maldita mansão onde o Tristan morreu. Eu passava todas as sessões de Calamidade desenhando ou trabalhando nos projetos da faculdade - e por causa disso, não lembro de nada dessa temporada. Assistir O Segredo na Ilha foi como um abraço após a morte do Sizzles, meu cachorrinho. Lembro de chorar de rir na minha sala assistindo a cena da vaca, enquanto mandava mensagem para pessoas que encheram minha vida de cicatrizes. E não associo Quarentena a nada porque eu perdi o ao vivo e só fui assistir de cabo a rabo esse ano.
Todos esses momentos me levaram a jogar Enigma do Medo pela primeira vez, e eu nunca vou esquecer... De como fiquei procurando como tirar a névoa porque meu PC não estava aguentando.
"RPG é uma experiência incrível, e você nunca deveria deixar alguém te diminuir por algo que te faz bem. Esse ciclo de 'zoar nerd' pra tentar ser descolado vai e volta, mas os momentos e sentimentos que jogar dadinhos num mundo imaginário me trouxeram, ninguém nunca vai mudar." - Rafael Lange (Cellbit)
Eu gosto muito dessa fala dele por dois motivos, mas ambos estão entrelaçados.
Admiro muito como o Cellbit é apaixonado por tudo que faz. Quando ele anunciou o Enigma do Medo, eu nunca, em nenhum momento, duvidei de que ele faria um trabalho impecável, porque ele mergulha de cabeça em tudo que é muito apaixonado. Ele se orgulha do que faz. E eu acho que essa citação, tem muito a ver com isso.
É preciso ter orgulho para bancar os seus gostos. Ele sabe que o que vem dele é digno de orgulho, e não deixa que as pessoas diminuam a ele ou seus projetos, porque entende seu valor.
É algo que falta em mim.
Acredito que todo mundo já passou por momentos onde foi ridicularizado por gostar de algo. Se você é mulher, você sabe que qualquer coisa que você gosta é feita de chacota, ou no mínimo, questionada.
Cresci minha vida toda sendo humilhada quando era "igual" às outras garotas e ridicularizada quando era "diferente" das outras garotas. E, infelizmente, eu não fui tão forte ao ponto de conseguir deixar isso não entrar na minha cabeça. Eu ainda sinto muita vergonha de ser fangirl e sinto vergonha de ser nerd na mesma intensidade.
E no final, nós garotas somos todas iguais, porque todas passamos por isso. Nada nunca é suficiente... Então, nós temos que ser suficientes para nós mesmas.
"Você nunca deveria deixar alguém te diminuir por algo que te faz bem", é algo que ele disse, mas que a Bel Rodrigues também fala com frequência. É como se a Bel fosse a representante fangirl e o Cellbit o representante nerd para mim, porque esse discurso consegue alimentar o respeito que tenho em mim mesma, mas principalmente à Sophia do passado, que já teve que ouvir muita merda homofóbica e machista.
Quando comecei a perceber esse padrão de suposições disfarçadas de críticas, foi quando me afastei por um tempo do Cellbit.
Lembro claramente de um vídeo infeliz onde ele estava julgando as bios dos seguidores e ele deu uma zoada no perfil de uma seguidora que tinha vários fandoms mencionados na biografia. Eu não lembro as palavras, nem quero lembrar, mas lembro do sentimento de inferioridade que eu tive naquele dia.
Eu não o culpo, adolescentes são soberbos, ele cresceu na frente das câmeras praticamente. E eu sei que ele não é mais assim.
A maioria das minhas melhores memórias são relacionadas às músicas que escutei, os shows que fui, os amigos que fiz nas fanbases. Ninguém pode tirar isso de mim, e ninguém vai. Isso não é motivo de vergonha, assim como jogar dadinhos com os amigos também não é.
De certa forma, a fala dele também consola a Sophia do passado, que se magoou ao ver aquele vídeo.
Voltando ao Enigma do Medo, brincadeiras a parte, eu nunca vou me esquecer daquela experiência. O que é uma pena, porque adoraria passar por ela novamente como se não soubesse de nada.
Eu poderia ficar listando tudo que eu gostei no jogo, como se fosse uma review de restaurante: narrativa deliciosa, arte linda, mistérios interessantes, cinco estrelas! Só que isso retrataria minha experiência superficialmente.
Tudo o que eu falei, é verdade, mas esse jogo significa mais para mim que só isso.
Esse jogo representa, para mim, esperança.
Sempre digo que amaria trabalhar com jogos se eu não morasse no Brasil. É tão impossível trabalhar nessa área aqui, o investimento é minúsculo, o público muitas vezes é ingrato, e a mídia não da bola. Enigma do Medo é algo fora da curva porque já havia uma comunidade de base, e mesmo assim, foi um desafio. E da pra ver que valeu a pena.
Eu consigo sentir cada gota de paixão pelo projeto em cada pixel do jogo. É tão inacreditavelmente foda ver um jogo feito de brasileiros, para brasileiros, completamente dublado, com uma narrativa sensível e complexa, e com uma jogabilidade tão diferenciada... E toda vez que eu percebo que acompanhei isso desde o começo, não consigo não me emocionar.
De verdade, cada segundo da minha vida que eu investi em Ordem, eu sei que valeu a pena. É uma equipe enorme, tão dedicada e tão apaixonada pelo que faz. Eu estou escrevendo isso no dia que vai lançar mais um episódio de Hexatombe e eu não consigo parar de pensar nas artes dessa temporada. É tão incrível ver artistas sendo tão respeitados e tão valorizados. Artistas brasileiros! Arte brasileira!
Mais do que isso, quando Enigma do Medo foi lançado em um momento extremamente difícil pra mim. Eu estava em uma fase muito depressiva, com muitos pensamentos contra a minha própria existência. O diálogo final do Jaser... Ele não me curou, mas me marcou. Eu passo tanto tempo pensando que era melhor eu não existir, tanto tempo me martirizando por sempre tomar as escolhas erradas... Tempo que eu poderia passar ajudando os que vieram depois de mim a não sentirem o mesmo.
A fala da Mia para o Veríssimo: "Você não precisa escolher ficar sozinho só porque acha que isso vai ser melhor para os outros", me desarma completamente. Eu desabo de chorar todas as vezes.
"A verdadeira arte é só um reflexo dos sentimentos de quem a contempla." - Rafael Lange (Cellbit)
É incrível como arte é plural. Eu sei que nem tudo que eu senti era o que eles esperavam passar, e é exatamente essa a graça da arte.
No momento que você mostra sua arte para o mundo, ela deixa de ser sua. Então, sua arte ganha muitos outros significados que você nunca poderia imaginar.
Talvez, eu não devesse carregar o mundo nas minhas costas sozinha, tal qual o Veríssimo - ele é engual eu. Talvez o que vem de mim, não devia ser visto como um erro. Talvez eu deva aceitar a ajuda das pessoas que me amam. Talvez eu deva me orgulhar do que eu gosto.
Talvez eu deva me orgulhar de mim mesma.
Talvez eu deva voltar a jogar RPG.
Pensamentos sobre Percy Jackson e O Último Olimpiano
Estou tentando coisas novas, acho que já passou da hora de eu criar um espaço para meus textos corriqueiros.
Então aí vai...
"Porque a esperança sobrevive melhor no seio de nosso lar. Guarde-a para mim e eu não tornarei a me sentir tentado a desistir."
- Percy Jackson
Eu adoro a escrita do Rick Riordan, acho que junto da Suzanne Collins, ele é um dos autores que eu mais me inspiro para me escrever.
Normalmente não sou muito fã de finais de saga, porque tudo termina em uma guerra e você não vê muito dos personagens nesses livros. Eles resolvem seus conflitos, mas você não os vê verdadeiramente amadurecer. Não é o caso dessa saga. Eu realmente acho que é um final perfeito para tudo que eles viveram até então.
É um pouco difícil rever os trechos que me marcaram do livro sem me emocionar. Acho que me interesso tanto por sagas de jovem-adulto porque acho o processo de amadurecimento tão bonito... Mesmo que deixemos de ser os adolescentes que algum dia já fomos, sempre tem algo novo para descobrir, e sempre tem como uma dessas obras tocar em pontos delicados que te fazem ver sua vida de um jeito diferente e se sentir menos sozinho.
Da sua maneira, é um livro sobre identidade, sobre entender o seu lugar no mundo e começar a entender um pouco sobre quem você é.
"- Percy, durante muito tempo da minha vida eu sentia como se tudo estivesse mudando o tempo todo. Eu não tinha ninguém em quem confiar. [...] Fugi de casa quando tinha sete anos. Então, com Luke e Thalia, pensei que tivesse encontrado uma família, mas ela se desmantelou quase imediatamente. O que estou dizendo... é que odeio quando as pessoas me decepcionam, quando as coisas são temporárias. Acho que é por isso que quero ser arquiteta.
- Para construir algo permanente. Um monumento que dure mil anos.
Ela sustentou meu olhar.
- Acho que isso, mais uma vez, se enquadra em meu defeito fatal.
Há alguns anos, no Mar de Monstros, Annabeth havia me contado que seu maior defeito era o orgulho - acreditar que podia consertar qualquer coisa."
- Annabeth Chase e Percy Jackson
Eu não simpatizei muito com a Annabeth durante a leitura como me simpatizei com o Percy, foi só nesse livro que eu consegui entender um pouco mais ela.
Esse orgulho é como uma moeda. De um lado, ele pode se mostrar como uma prepotência, mas do outro, pode ser uma consequência de carregar o mundo em suas costas.
Quando você cresce com tantas inconstâncias ao seu redor, você acaba se agarrando ao pouco de controle que você consegue ter, que é de si mesmo e suas ações. Só que a necessidade de controle contamina, o desejo de controlar tudo ao seu redor - como os outros se sentem, como eles vão agir, como vão se relacionar com você - cria uma carga muito maior do que realmente pode-se controlar.
Eu não poderia entender mais esse sentimento. Eu também quero algo permanente, por isso eu escrevo.
Também é uma história sobre esperança, porém não uma esperança cega, onde apenas se espera pelo o melhor. É sobre acreditar que você pode tornar o futuro melhor.
Às vezes, lutamos por algo que não vale a pena. Nós endeusamos conceitos que sempre foram cheios de falhas, nos cegando porque era o que nos cabia no momento, criando uma falsa sensação de segurança. Por isso é tão difícil admitir que o que você defendia estava errado, exige coragem para abrir mão da segurança, mas algumas coisas precisam mudar, porque estavam erradas desde o princípio. O desejo final de Percy me fez ver isso.
Foi uma saga que me marcou muito, como leitora e como escritora. Ver esse mundo, construído de maneira tão estrita, passar por mudanças para todos se sintam mais incluídos, me tocou.
Acredito que nunca mais vou escrever com a mesma mentalidade, agora sei o que é fazer uma mudança de verdade.

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