eu fui feito para o caos, e dele sĂł saio para roubar as flores que entrego junto ao cinismo. e me perco nessa desesperada busca de um dia a mais, de um gole a mais, de um sopro que me leve adiante
Eu sei, sou um pouco desleixado. Deixo a desejar nos compromissos. Esqueço, deixo pra depois, não me forço, nem me esforço muito. Faço o que ta na minha frente. Acho que fui aprimorando esse defeito com o treinamento extensivo a que meus pais me submeteram, com todos aqueles gritos. Aprendi a abstrair a sobrecarga quando não consigo lidar com ela.
Peguei o celular e mandei trĂȘs mensagens:
âOi Amanda, desculpa, acordei agora. O almoço fica pra outro dia, ta?â
âEi Debs, hoje foi um dia estranho pra mim. Acabei acordando agora. Me perdoa?â
Aproveitei para ver as mensagens recebidas. Vi algumas desagradĂĄveis, outras desnecessĂĄrias, vĂĄrias ligaçÔes de Ingrid, um texto enorme de Caio, milhĂ”es de e-mails do professor NicĂĄcio, etc. Revirei os olhos. Ainda nu, na cama, quando a campainha tocou. A julgar o numero de ligaçÔes de Ingrid, nĂŁo me surpreenderia se ela estivesse com a polĂcia ao lado para arrombar minha porta caso eu nĂŁo respondesse no terceiro toque. Enrolei-me na toalha, e abri a porta ao mesmo tempo em que o celular vibrou na minha mĂŁo. Chamada de Ingrid. Olhei pra frente: era o Caio.  Atendi a ligação como um pedido de salvação.
- Oi Ingri â olhei para Caio e mexi a cabeça como se pedisse para que ele entrasse.
- Dormindo... Quer saber? Tudo bem, nĂŁo vou ficar te enchendo nĂŁo. Ia te chamar pra assistir alguma coisa legal.
- Pode vir, Caio ta aqui.
- QuĂȘ? NĂŁo vou nĂŁo.
- Ingrid, pode vir! â rezei pra que ela entendesse que era mais um pedido do que uma permissĂŁo. â Inclusive se puder trazer cigarro, eu juro que vou te amar um pouquinho mais, hoje.
- Ainda nos cigarros? â me repreendeu disfarçadamente. Evitei olhĂĄ-lo.
- O pulmĂŁo nĂŁo me preocupa tanto. â e ri â Tudo bem? Eu nĂŁo sabia que cĂȘ vinha, acabei de sair do banho. Vou me trocar e venho aqui.
Ele assentiu com a cabeça e eu entrei no quarto. Coloquei um short e voltei para a sala. Era dezembro e, mesmo sendo noite, a temperatura não me deixava confortåvel de blusa.
- Agora oi â e sorri gentilmente. Ele retribuiu.
- Sim, por favor. O texto nĂŁo era nada demais, realmente. Eu jĂĄ te contei sobre vĂĄrios ex namorados meus. VocĂȘ me conhece um bocado. Eu me sinto muito confortĂĄvel contigo. Quis te contar sobre esse cara que eu tenho vergonha de ter tido um relacionamento. Acabou.
Eu tava de costas, de olho na panela de brigadeiro. Na minha cabeça, simultaneamente, pensei estar petrificado, pensei que ele saberia se eu não agisse normalmente, e supliquei que Ingrid tocasse a campainha e me salvasse. Depois me subiu uma raiva, por estar constrangido, desconfortåvel, por me sentir acuado na minha própria casa por um garoto. Virei para ele e olhei nos seus olhos.
- O que isso significa? â ele me olhou com tanta determinação que cheguei a ficar com medo de um pedido formal de casamento. A cabeça de um ansioso...
- VocĂȘ quer namorar comigo? â perguntei com a voz tĂŁo afinada que eu mesmo assustei-me. Ele riu desconcertado.
- Bem, eu quero te conhecer mais de perto. Eu acho que a gente pode ter um romance, se isso acontecer. â falou com um tom tĂŁo sexy que quase tirei minha roupa.
- NĂŁo sei o que dizer. Vou embora, e converso com vocĂȘ depois. Desculpe-me por qualquer coisa, cara. NĂŁo tive intenção de ser um babaca. â ele falou jĂĄ correndo para a porta.
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        âCaaaaara!!! A Ana ta puta com o negĂłcio do estacionamento. NĂŁo me deixou em paz ontem! Olha, meu microondas quebrou e eu nĂŁo to conseguindo lidar com essa vontade de comer pipoca. JĂĄ acordou? Posso ir aĂ? Chego nesse instante.â Gabriella
        âBoa noite, gato. TĂĄ fazendo o que? A galera ta aqui tomando aquela catuaba que tu gosta. TĂĄ afim de vir nĂŁo?â Gustavo
Revirei os olhos com tanta força que cheguei a sentir uma leve dor de cabeça. Gabriella poderia me deixar aproveitar pelo menos minha manhĂŁ. Mas eu gosto muito daquela garota. A presença dela nunca seria algo ruim, pra mim. Quando pensei em respondĂȘ-la, ela jĂĄ tocara a campainha.
Eu fiquei calado por alguns segundos. Fixei no semåforo, e imaginei um monte de gente diferente. Eu estava incomodado com a situação, com a pergunta, e com a convicção de que eu saberia quem era apenas pela voz. Não poderia ser outra pessoa. Esse leão eu conhecia.
- Eu to sim, to dirigindo, inclusive. Se nĂŁo puder se identificar, tudo bem, sĂł desligue a chamada, por favor.
- Oi. TĂĄ com saudade nĂŁo? â pensei em gritar, dizer que sim, ou chorar e dizer que nĂŁo precisava daquilo. Foram os primeiros sentimentos que vieram Ă tona. Mas eu comecei a ficar irritado com aquilo. Eu nĂŁo entendia. NĂŁo o entendia. O que ele queria? Mijar em mim para demarcar territĂłrio?
- Devo estar.
- TĂĄ. Dirige aĂ. Tchau. â eu pensei em dizer tchau, mas...
Eu estava sentado numa daquelas cadeiras altas do bar, jĂĄ na quarta rodada de qualquer vodca, quando pensava que bebidas jĂĄ nĂŁo adiantavam. Caralho, elas perderam o efeito. QuĂȘ mais? Pensei. Liguei para Ingrid.
- Oi, cara.
- Oi, Ingri. Tava dormindo? â perguntei com um pedido de desculpas implĂcito.
- Na verdade, nĂŁo. TĂŽ na cozinha. Deu vontade de cozinhar, e tĂŽ sem sono, daĂ tĂŽ de fantasma hoje... â a julgar minha amiga, eu poderia jurar que ela estava sendo irĂŽnica, mas ela falou com uma seriedade que cheguei a surpreender.
- NĂŁo faço ideia. Juro. Acho que foi porque Maria falou de uns bombons que aprendeu a fazer no YouTube. Enfim, e vocĂȘ?
- Eu tĂŽ num bar, agora. Tava pensando aqui numas coisas... Por que a gente nĂŁo gostava daquele menino do cursinho? Aquele modelo das aulas de biologia?
- Firme e forte. VocĂȘ sabe, eu nĂŁo consigo admitir que os romances clichĂȘs se tornem os filmes mais bem pagos do cinema, e que exista fast fashion. â ela riu.
- Ă por isso que eu gosto de odonto. â e eu revirei os olhos.
- Eu simplesmente nĂŁo preciso mais do tempo que gastei. E nĂŁo gosto da expectativa de repetir coisas boas. Sei que vou me frustrar, sei que nĂŁo vai acontecer. NĂŁo preciso reviver nada. Ă um tempo que serve apenas de base para o presente. â ela parou, olhou para mim como se estivesse confusa, pegou a garrafa de vodca, jogou no lixo e disse:
- VocĂȘ tava cuspindo a vodca fora ou isso foi um lapso de sobriedade? â eu ri.
Eu fui embora, e ela me deu o recipiente de brigadeiro. Ingrid insistiu para que eu dormisse lĂĄ, e ainda tentou me enrolar com mais conversas aleatĂłrias. Eu simplesmente estava bĂȘbado demais para mudar de ideia. Eu desejava minha cama, e que quando eu acordasse, me deparasse com o teto do meu quarto. Nada mais. Despedi-me com um abraço melancĂłlico e fui.
Acordei Ă s sete da noite com o aterrorizante som da campainha. Era como se explodisse uma vontade de chorar alto, e de quebrar tudo o que tivesse ao redor. Nem percebi que estava sĂł de cueca quando abri a porta. Eu havia esquecido totalmente que tinha uma reuniĂŁo com Carlos para o projeto dele. Meu semblante passou de irritado para assustado bruscamente.
- Ă, vi algumas histĂłrias no Instagram da Gabi reclamando da sua seminudez crĂŽnica... Posso entrar? â Quis fechar a porta e me jogar pela varanda do outro lado da sala.
Uma gargantilha preta, uma blusa cinza com estampa de flores rosas, shorts curto e sandĂĄlia de couro. Coloquei uma jaqueta de veludo caramelo no carro. Eles me odiavam, Gabriella, Ana, Jeison... Me viram de longe, e começaram a berrar âbrega!â, âjeguenaldo!â, âerro grĂĄfico!â.
- Qual foi? â perguntei, mas jĂĄ nĂŁo ligava mais para os deboches.
- Vamos passar num mercado e comprar uma cachaça. â sorri e o acompanhei.
No caminho, encontramos um amigo dele: âVinicius, do cursoâ. Cumprimentei Vinicius, que nos chamou para a festa que aconteceria a noite. O suĂço confirmou a presença, e nos despedimos. Compramos a bebida e fomos para uma praça.
EstĂĄvamos sentados, conversando sobre as ultimas festas que fomos, rindo das histĂłrias enquanto anoitecia. O sol tava no finzinho quando um grupo de maracatu apareceu e começou a ensaiar bem ali. Eu fiquei tĂŁo feliz, pulei pra perto, e comecei a dançar sozinho. Eu acho que as pessoas ficaram olhando para mim, mas eu nĂŁo ligava realmente. SĂł queria sentir aquilo. Ele se juntara a mim, depois. AĂ tudo começou a parecer um monte de flores. Tudo ficara mais intenso, e bonito, e forte, e brilhoso quando o batuque rugia. Meu coração acompanhava cada âTumâ. Eu fechei os olhos, e entendi que estava bĂȘbado.
- NĂŁo achei que vocĂȘ gostasse tanto. â ele falou perto do meu ouvido.
- Eu amo. â olhei para ele rindo. â Eu sentia falta disso, no sertĂŁo.
Eu nĂŁo lembro como aconteceu, mas o suĂço me beijara. Aos poucos fui sentindo sua mĂŁo nas minhas costas, e o movimento da sua lĂngua. Uma progressĂŁo de sentimentos foi emergindo a cada segundo que passava enquanto estĂĄvamos ali. Quando paramos, ficamos apenas abraçados. A gola da blusa dele tinha o mesmo cheiro do moletom cinza, e daquele travesseiro do quarto dele. Quis chorar, mas sĂł disse que gostava dele.
Todo o caminho de volta foi estranho. Gabriella dormia no banco ao meu lado, eu parei duas vezes para fumar cigarro. Depois de chegarmos Ă cidade, eu estava olhando fixamente para um semĂĄforo fechado, quando Gabi acordou e me olhou:
- Em que estĂĄ pensando?
- Que tipo de cara ama desse jeito? â ela fechou os olhos, suspirou e pegou no meu ombro.
- Acho que a Ingrid vem pra cĂĄ, curtir com a gente...
- SĂł? â Joana parecia indiferente demais. Eu jĂĄ imaginei o pior.
- Ă. NĂŁo sei, migo. Ela disse que vai aparecer. Ă possĂvel que o Beto apareça, mas nĂŁo disseram nada. â finalmente externou a preocupação.
- Tudo bem. Se ele aparecer eu fico no quarto, nĂŁo fica nervosa.
- NĂŁo precisa. Eu levo todo mundo pra um barzinho.
- Tanto faz.
Segui para o meu banho, e ajudei a Joana com a comida. Eu gosto do cheiro do coentro, da forma como as folhas grudam no dedo, quando estĂŁo molhadas. Eu gostava da cebola, mas ela me irritou com essa coisa de arder os olhos. Beto era legal, mas eu nĂŁo queria mais estar perto dele, porque dĂłi e nĂŁo vale a pena. Cansei de cortar vegetais. Lavei as mĂŁos e fui para a cama com um nĂł na garganta. Meus pulmĂ”es se contraĂam involuntariamente, e uma vontade de chorar inundava meus olhos, jĂĄ fechados, rezando pra aquele sentimento passar logo. Eu sempre entendi que as coisas acontecem por um tempo, apenas, e que a estimativa desse tempo explica muito sobre a necessidade daquilo acontecer. Eu tava na merda hĂĄ duas semanas e deixei de ver necessidade naquilo desde o terceiro dia. De bruços, passaram-se 10 minutos e a dor jĂĄ se tornava parte da minha realidade. Eu estava dormente, parado, pensando...
Passamos horas conversando, bebendo, comendo... Augusto estava cada vez mais corpulento, e Joana parecia atraĂda. Marcelo, sempre gentil, simpĂĄtico, conversava como um diplomata. EntĂŁo a campainha tocou. Ingrid, pensei, pedindo secretamente que Beto nĂŁo viesse junto. Pedido negado.
Cumprimentei a todos e segui para o meu quarto. Todos entenderam, apesar do Augusto ter expressado desentendimento. Ouvi cochichos de Ingrid e Joana, e me muni de headphones. Enquanto escolhia a mĂșsica, recebi algumas mensagens de Beto:
NĂŁo sei por que vocĂȘ estĂĄ me tratando dessa forma. NĂŁo tenho nada a ver com a vida dos dois. Inclusive, vocĂȘs eram amigos! Por favor, nĂŁo me trata dessa forma.
Voltei para o mercado e comprei algumas cervejas. Eu ficaria bem. Eu precisava ficar bem de novo. Quando cheguei Ă casa, pedi desculpas a Beto, e a todos. Disse que podiam ficar lĂĄ em casa, e que nĂŁo incomodariam, mas preferiram ir. Tomei todas as cervejas sozinho, ouvindo Seafret e respondendo mensagens sobre meu texto semanal. Envolto em meu moletom, agarrado ao meu colar de pedra, aquele colar de pedra... A visĂŁo jĂĄ turva, quando enviei uma mensagem de texto:
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Te amo. Te amo de um jeito que eu tento explicar e não sei. Palavra fica presa. Engasgo, afogo e uso palavras pela metade. Na hora H sempre falta uma vogal. Mas quer, de novo, saber? Meu coração nunca foi pela metade: sempre foi-inteirinho-seu.
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algumas pessoas quebram nosso coração e os cacos nos ferem por tempo indeterminado
vocĂȘ mexeu com a parte mais sensĂvel em mim. quando vocĂȘ chegou, sabia da minha sensibilidade, sabia que eu tinha aversĂŁo a perdas. eu nunca soube lidar com elas. mas vocĂȘ insistiu. fez promessas. vocĂȘ realmente me fez acreditar que alguns momentos podem ser eternos. e alguns se tornaram. sĂł que vocĂȘ nĂŁo disse que sĂł seria eternos nas minhas lembranças e que machucaria tanto relembra-los
agora vivo com essa carga emocional de ser sozinho e nĂŁo conseguir me reabrir para me reabitar
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â NĂŁo. Tava na cozinha vendo algo pra jantar. Aconteceu algo? Que legal ouvir tua voz! â eu nĂŁo disfarçava o entusiasmo. Ele nunca me ligara antes. Era estranho, mas eu gostei daquilo.
â Ă que cĂȘ tĂĄ de cueca, com uma carinha de pĂłs foda tĂŁo linda. â e a voz dele ficou diferente. Me lembrou o dia em que eu fiquei agitado e ele pegou no meu braço e começou a dizer que eu deveria sentar e olhar pra ele, pra a gente conversar com calma.
Mas aĂ me bateu um aperto no coração. Um pĂąnico, por nĂŁo entender bem o que aquilo significava. Cueca? Ele tĂĄ me vendo! Passei os 5 segundos mais longos da minha vida procurando e procurando... AĂ eu vi, do outro lado da rua, um rapaz e uma mala, sorrindo pra mim. Todo sem jeito, como se tivesse sido pego na cena do crime. Eu sĂł conseguia falar ânĂŁo acreditoâ tĂŁo baixo que sĂł podia ser entendido por leitura labial. Queria descer e abrir a porta sem tirar os olhos dele. NĂŁo deu, entĂŁo corri pela casa, pela escada, abri a porta numa tremedeira de se rir. Ele jĂĄ chegou falando que a Laura tinha dado o endereço, e eu, nem falei nada. Primeiro o abraço. Eu sei, ele nem gosta de muito contato. Ă todo autossuficiente, e no quinto segundo jĂĄ quis se soltar. Mas eu estava precisando acreditar que ele apareceu de novo, e que aquilo, que era bom pra caralho, era real. âTĂĄ bomâ, ele disse. âBora entrarâ.
Ele jogou as malas no quarto e fomos Ă cozinha ver o que jantar. Eu nĂŁo parava de tagarelar sobre o quanto isso era estranho, e sobre o quanto ele precisaria me ajudar a recepcionĂĄ-lo porque eu nĂŁo sabia se cozinhava espaguete ou pedia pizza.
Eu confesso. Tenho um jeito meio torto de ver as coisas. De levar a vida. De me interessar por ela, principalmente. Gosto dos retalhos. Do que me tira do eixo. SĂł que eu nunca estou no eixo. E dou risada disso. Ă triste e engraçado. Eram mais de nove, e eu estava deitado na cama, imaginando alguma programação para aquela sexta, enquanto o suĂço tomava banho no meu banheiro. Posso usar tua toalha? perguntou. Eu deixei.
â Nada. â e virei, desesperado. Agarrei o travesseiro, de costas pra ele. Apertei com muita força. Que sentimento ruim do caralho.
â O que foi, menino?! â a voz preocupada, ele tentava ver meu rosto, acho que ele pensava que eu estava chorando. O meu coração parecia pesar mais que o meu corpo todo. Eu afundaria aquela cama. Quis gritar. Sou louco, mas nĂŁo quero ser. NĂŁo gritei. Ele ficou tĂŁo desesperado quanto o dia em que provei aquela droga da Ana e comecei a gritar no meio de rua. O tempo ficou rĂĄpido, e as coisas dentro de mim, que jĂĄ voam, pareciam estar num ambiente sem gravidade. Eu sentia que ia morrer. Nem ouvia mais nada. Depois, tudo o que eu senti foi o corpo dele, ainda molhado, em cima de mim, me sufocando mais do que eu jĂĄ entendia estar. E eu parei de respirar. Era um abraço, ou algo do tipo, eu acho. NĂŁo tentei sair. Algo em mim dizia ânĂŁo hĂĄ saĂdaâ. EntĂŁo eu comecei a deixar pra lĂĄ. Meus mĂșsculos foram cansando de forçar, e a minha respiração, ainda parada, nĂŁo incomodava. Ele passou mais alguns segundos ali. Pareciam horas, mas era bom. AĂ eu abri o olho, e vi tudo normal. E as paredes estavam bonitas, que nem quando eu pintei, no ano retrasado. Soltei o travesseiro. Ele saiu de cima de mim, e ficou tudo bem. Fechei o olho de novo. Me deu sono.
Eu acho que cochilei por uns segundos. Poderia ser um minuto, se eu tivesse cronometrado. Ele levantou minha cabeça pela nuca, e me deu um copo de ågua. Eu quis rir, mas bebi. Não era só ågua. Quase cuspi.
â Olha, nesse momento eu tĂŽ procurando um vinho. BordĂŽ, especificamente.
â TĂŽ te vendo daqui. Deixa esse menino de lado e vem cĂĄ, que eu te dou vĂĄrios bordĂŽs e uma sexta maravilhosa. â aĂ eu ri. Primeiro eu ri, depois comecei a procurĂĄ-lo. NĂŁo achei agradĂĄvel a ideia de ser visto por pessoas e nĂŁo vĂȘ-las antes. Era a segunda situação da noite. E a primeira desagradĂĄvel. O vi sentado na mesa de um dos bares lĂĄ na frente, onde eu nĂŁo tinha passado ainda. Estava com uns amigos. Parecia bĂȘbado, mas eu nĂŁo o perdoaria. Aquilo foi escroto o suficiente. Sorri descaradamente pra ele, de longe. Olhei pra o SuĂço, que nĂŁo entendia nada.
â VocĂȘ nĂŁo vale isso tudo. Fique sĂłbrio e conversaremos. Tchau.
Beijei o rosto do suĂço e peguei o braço dele, pra que atravessĂĄssemos a rua.
â Vamos pegar um tĂĄxi. NĂŁo vai ter bordĂŽ aqui.
â A gente pode comprar um normal mesmo, poxa. TĂŽ afim de rodar a cidade nĂŁo. â ele falava e eu jĂĄ estava dando a mĂŁo para um tĂĄxi.
â Me sinto um pedĂłfilo vendo vocĂȘ segurar essas jujubas. â eu ri alto, e percebi que um pessoal olhou pra mim.
â Olha quem tĂĄ ali! â ouvi um comentĂĄrio, de longe. AĂ olhei, e vi a Amanda e o namorado dela, encostados no carro. Ela abriu um sorriso enorme, e percebi que ela olhava a rua, tentando atravessar para falar comigo. Fui Ă direção dela. AĂ eu vi o Bruno saindo da outra porta. Parei no meio do caminho, entre as duas vias. Eu nĂŁo iria lĂĄ. Estava todo mundo bĂȘbado naquela noite? Ele mal conseguia sair do carro. Abracei Amanda fechando os olhos. Me deu uma tristeza... E ela me confortou.
â Eu tĂŽ bĂȘbada, a gente tĂĄ bebendo a um tempĂŁo e eu nĂŁo vomitei. Hoje tem Mad. Vamos? â ela falava com dificuldade.
â Hoje nĂŁo, meu bem. Eu sĂł vim comprar uns mantimentos pra voltar Ă casa.
Quando saà do abraço, o namorado dela apertou minha mão, antes mesmo de ela se distanciar. Aà eu senti outra mão na minha cintura.
â E aĂ, Jorge. Massa? â e ele respondeu. Bruno me agarrou como uma cobra, se enrolando, tentando me abraçar. Fiquei irritado. Quase empurro ele, e o jogo no meio da rua, para algum carro passar por cima, mas deixei. O toque dele ainda me desarmava.
â Que saudade â ele falou, ressonando no meu pescoço. Olhei pra o SuĂço, do outro lado da rua. Quase que o chamando. Ele entendeu, mas fingiu que nĂŁo.
â CĂȘ tĂĄ bĂȘbado, Bruno. Licença. Gente, adorei ver vocĂȘs, mas tĂŽ com visita em casa.
â VocĂȘ tĂĄ bĂȘbado. VĂĄ melhorar. Ou morra longe de mim. â nĂŁo gritei, mas a minha voz ficou obscura. Quase rouca. Nada intencional, foi automĂĄtico. Amanda fingiu nĂŁo estar ali, e Jorge servia de apoio para Bruno se segurar. Cruzei a rua em direção ao SuĂço. Vamos embora, falei.
â Onde eu tĂŽ vocĂȘ jĂĄ esteve, cara! â ele seguia gritando, de longe.
â Vamo embora. Essa galera tĂĄ bĂȘbada. Vai se trocar? NĂŁo vou ficar aqui nessa situação ridĂcula. â olhei pra ele. Meu olho começou a alagar. Senti uma vontade de sentar naquela calçada e chorar, mas ele estava segurando meu braço. NĂŁo era bem segurando, era dando energia. NĂŁo falei nada. Peguei as sacolas no meio da rua. Sorte que o sinal estava vermelho. Tudo ficou mudo. LĂĄ no fundo, eu ouvia Bruno gritar. NĂŁo sei se era miragem ou era real. Filho da puta.
â Me parece ruim. â me calei e peguei o pote de açĂșcar. Deixei perto dele. Ficamos calados por uns segundos. SĂł se ouvia o som da colher mexendo na xĂcara de porcelana que ele usava. â Devo ser um pouco amargo.
Odeio. Odeio. Odeio a imagem do Bruno na minha cabeça, me levando para um escuro que dói, que rasga, que fica mexendo no meu coração que nem espeto virando numa fogueira enorme, mas não daqueles fogos que dão energia. à daqueles que só queimam. Eu estava virando uma brasa porque não conseguia deixar de sentir uma coisa tão forte por um filho da puta. Peguei um vinho na geladeira, taças, cigarros, desliguei a cafeteira, e apaguei a luz da cozinha.
â Eu tava com saudade de vocĂȘ. â e me olhou. Como um olhar que poderia ser triste, mas nĂŁo era. NĂŁo soube decifrar.
â Mesmo isso aqui sendo um pedaço do que eu fui?
â CĂȘ tĂĄ inteiro. SĂł nĂŁo tĂĄ em ordem.
â Nunca estive. â e ri.
Fizemos sexo ali mesmo. NĂŁo me lembro como. Ele tem esse poder de me tirar do juĂzo em alguns momentos. Parece um flash. Tudo apaga, e quando lembro, estava ali. Depois apaga, e quando acende eu estava ali. E ali. E ali. Nus, eu deitado sobre os estofados das cadeiras, ele sentado, encostado num pequeno muro da varanda, com mais um cigarro. Eu tentando reestabelecer a respiração. Peguei a segunda taça de vinho, ele nĂŁo secara metade da primeira.
â Porque o elemento ĂĄgua tem conexĂŁo com a sensibilidade? â perguntou, totalmente perdido. Olhei, confuso, depois intrigado...
â Antes do almoço? â foi sarcĂĄstico. Eu sabia que era uma brincadeira, mas precisava de algo para descontar o mau humor que desceu no meu semblante.
â NĂŁo sou boa de matemĂĄtica, mas antes de entrar aqui me preservo com camisinha feminina. â o suĂço olhou rindo, como se pedisse para que eu levasse na brincadeira. Ela percebeu o clima e olhou para mim confusa.
â Bruno? â o suĂço perguntou, confuso e irritado.
â Ă â Laura respondeu.
Tomei o vinho da mão dela, Dei um gole enorme. Outra ligação. Eu estendi a mão para desligar o celular, mas ela atendeu.
â O que caralho vocĂȘ quer? â ela gritava.
â SĂł quero falar com ele, rapidinho. Pedir desculpas. â Bruno parecia estar chorando, do outro lado.
â Desculpas? Sabe como vocĂȘ pode se desculpar pelas coisas que fez?
â Sei
â EntĂŁo nĂŁo volte a ligar pra ele. O namorado dele estĂĄ aqui, e ele estĂĄ bem. EstĂĄ feliz. SerĂĄ que vocĂȘ poderia deixĂĄ-lo feliz, nĂŁo existindo para ele?
â NĂŁo consigo ficar longe dele, Lau. CĂȘ sabe. Eu sĂł... â levantei do sofĂĄ e fui para o quarto. O suĂço se preparava para me seguir, mas fechei a porta. AĂ tudo ficou mudo.
Abri com o olho quase fechando. A claridade me incomodava, àquela altura. Ele me abraçou em desespero. Parecia ter resgatado um cão de um bueiro. Eu só sabia chorar.
â Na boca. â e eu ri. Depois me deu um beijo no olho. E me empurrou para fora do quarto. â agora deixa de frescura. Laura escolheu O cisne negro.
â O meu Savinho. Pedi pra ele passar no mercado e comprar mais vinho. Quer mais alguma coisa? â nĂŁo.
Sempre que assisto a Cisne Negro, ficou mal. EntĂŁo fiquei entre a cozinha e a sala, assistindo a partes, beijando o suĂço, irritando a Laura com empurrĂ”es, e cozinhando o almoço. Savinho chegou rĂĄpido, e se juntou a mim na mesa da cozinha. SĂł comigo, ele jĂĄ assistiu aquele filme seis vezes. Conversamos bastante. Rimos. O SuĂço, inebriado pelo filme, irritado pelos comentĂĄrios da Laura. O almoço ficou pronto, e, numa tentativa de me mover rapidamente, percebi que estava bĂȘbado. Olhei a garrafa de vinho na mesa. Seca. A de mais cedo jĂĄ estava no lixo. Savinho estava abrindo a rolha do prĂłximo. O filme acabou, e sentamos todos na mesa. Depois de alguns comentĂĄrios sobre o filme, vindos, majoritariamente, de Laura, nos calamos enquanto nos servĂamos. Coloquei o prato do SuĂço. Minha tia me ensinou a cozinhar Canelone de frango aos treze. Acompanhou-se com arroz. Queria saber combinar vinhos com comida, mas sempre gosto do tinto suave. O silĂȘncio se rompeu com a voz de SĂĄvio.
â Cara, que legal que vocĂȘ tĂĄ bem. E eu gostei bastante do casal formado.
â Tua pupila tĂĄ muito dilatada. VocĂȘ tĂĄ chapado! â ele falou quase sussurrando, como um susto. Eu nem lembrava que tinha tomado doce. Fiquei rindo. Depois fiquei com medo. Depois encostei mais nele, como se fosse possĂvel. â Por aqui tĂĄ tudo bem, mas eu tĂŽ um pouco, sim.
â VocĂȘ parece estar aqui, mas com a mente em milhĂ”es de coisas, como se nĂŁo estivesse aqui. â falou bem calmo.
â Pareço nĂŁo estar presente pra vocĂȘ?
â Ăs vezes, sim. Na maior parte das vezes, aliĂĄs.
â Por que vocĂȘ pensa assim?
â NĂŁo sei. SĂł sinto.
Continuei de olhos fechados, imaginando o ambiente. Acho que nĂŁo tenho mais calor. NĂŁo falo de temperatura, mas de alma. Meu espĂrito nĂŁo consegue existir para estar. Eu queria estar, queria. Queria de verdade estar ali.
â Eu nĂŁo estou no mundo real, aqui. Ă sĂł um outro lugar. Uma outra realidade. Gosto da minha vida, lĂĄ. Tenho minha faculdade, meus amigos, minha famĂlia... â aĂ se calou.
â Eu vou amanhĂŁ no fim da tarde. Hoje, no caso. Quero chegar lĂĄ e dormir bem, segunda vai ser pesada.
â A gente almoça na ilha, antes de ir. Que tal?
â Tudo bem.
Peguei a xĂcara e senti pelos eriçados na asa, olhei e vi uma escuridĂŁo embaixo da caneca. Fiquei sem ar. Levantei da pia mas nĂŁo senti minhas pernas. Gritei alto e ele segurou meus braços como se domasse um animal.
â Posso fazer uma pergunta? â ele falou, olhando para a cafeteira.
â Diga.
â Os garotos com quem vocĂȘ fica, compulsivamente, sĂŁo uma tentativa de domar os morcegos? â aquilo pesou. Passei alguns segundos calados, antes de admitir.
â SĂŁo.
â Eles conseguem?
â NĂŁo.
â EntĂŁo por quĂȘ, tantos?
â Esperança.
â NĂŁo percebe que o caminho tĂĄ errado?
â Eu encontrei vocĂȘ.
â Que moro Ă mil quilĂŽmetros de distĂąncia.
â Eu sobrevivo a quedas maiores, em metros, por altura.
â Falta alguma coisa? â ele falou, me olhando de lado. NĂŁo entendi muito bem.
â Como assim? Pra se dizer? â ele me olhou... Continuou olhando...
â Eu sou um açude. Quando vocĂȘ aparecer, vou estar ali, com o mesmo amor de sempre. NĂŁo prometo aparecer de novo, porque tĂŽ vendo que vai machucar. Mas eu sou um açude que gosta muito de vocĂȘ. â eu ri.