Os anos passando sem Ela (Minha Mãe)
Minha sagitariana querida, aquela que me ensinou que alegria tinha que ser lei dentro da gente, mas que sentiu tristeza calada, sem ninguém saber ou perceber, sempre dizia que os momentos melancólicos espantava com a música, dançava e sorria, mesmo que nós duas soubéssemos o que se passava naquele instante.
O tempo correu seu percurso, rápido e lento, depende da perspectiva que eu sentia a dor fluir dentro de mim, era um vai e vem de lágrimas e sensações, as lembranças - sua voz, seu jeito, seu sorriso, o cheiro da sua pele, tudo era motivo para que o desenrolar do tempo fosse gradual, era como se ele esperasse ou eu comandasse de alguma forma, mas nada era previsível, muito menos a maneira que eu sentia/sinto.
Ainda me vem a saudade, a sua partida mudou meu caminho, minha história e me fez alguém totalmente diferente do que eu um dia já fui, não nego que parte disso não é agradável, pelo menos para mim, mas algo aqui dentro ficou diferente para melhor também. Existem coisas que não tenho saída, e entendi muito do que a senhora vivia, não é uma questão de optar pelo o que queremos, mas o que é necessário fazer. E eu agora compreendo.
Quantas vezes eu julguei seus passos, sem entender que existiam coisas que nem eu consigo enxergar uma forma de driblar, mas a senhora conseguia, era firme, sempre achava um jeito de transmitir segurança, de me fazer perceber que em casa não se faltava comida e um teto sob minha cabeça, e isso, era muito, hoje eu sei o quanto era demais, como fui tola e egoísta, mas se existe uma parte de mim que melhorou com a sua partida, foi o discernimento das coisas em minha volta.
Eu aprendi que amar com limite também é amor, mas com segurança, entendi que nem todo mundo que me falava palavras doces eram confiáveis, que amizade é algo muito raro e que ser feliz é uma escolha diária. Ah, minha mãe, como eu queria ter conversado mais, sido mais tolerante, se eu soubesse o quanto a vida passa como um suspiro, eu jamais iria te questionar além da conta, mas é isso, tudo é um aprendizado, tudo é válido - até mesmo a ausência.
Através da sua falta eu entendi a importância da presença, muito de mim que era alimentado por ela não existe mais, parte de mim se foi e eu tenho consciência disso. São sete anos sem Ela, todo dia eu conto internamente, respiro e busco perseverança, não é fácil para quem fica, quando a pessoa que era nosso combustível vai... Não era uma questão de sermos extremamente próximas, e sim, de sermos diferentes a ponto de ficar visível entre nós, mas talvez fosse o motivo de lhe amar mais ainda, e procurar esse amor nas entrelinhas de qualquer ação que Ela tinha para com o meu coração.
Minha mãe dizia que "ninguém é uma ilha", deixava isso claro quando explicava a importância de ter pessoas por perto, de cativar o outro, não era uma questão de necessidade apenas, mas de esperança, de acolhimento e fraternidade, sinto falta dessa filosofia na prática, e isso, não tem como julgar, era uma atitude feita por Ela com maestria.
Quem sabe eu não fui o foco do amor dela, e tudo bem, agora eu entendo, até respeito, porque a gente não escolhe tudo, mas não significa que não existia sinceridade no amor que Ela me expunha em nosso cotidiano. Amar é também tentar compreender e perceber que a resposta nem sempre será como desejamos, mas não significa que será negativa, às vezes, é uma forma diferente de visualizar o horizonte.
Que falta me faz tê-la, se eu escrevesse à todo instante a lacuna imensurável que atravessa o meu ser, teria que aprender outras línguas para saber descrever com variações o quanto a sua ausência ainda me parte a alma todos os dias.