Os de comportamento reservado eram, de regra, os mais assustadores. Amarantha não sabia o que podia vir de Dimitri quando provocado, embora fosse interessante conferir o esboçar de alguma reação da parte do outro. Sempre tão tranquilo e focado em sua forja, o Naos possivelmente não conhecia as vantagens do calor do embate, o que a filha de Belona ficaria feliz em proporcionar a ele — na verdade, a qualquer um, desde que estivesse envolvida. Além disso, prepotente como era, Amara sabia que ele não desistiria de fazer suas armas apenas por sua impertinência; devia, na visão dela, se sentir privilegiado por fazer parte da trajetória de uma semideusa tão destacável, afinal, quando vencesse suas batalhas, seriam as armas dele que utilizaria, certo? E isso era uma honraria. “ —— Por que não, Dimi?”, insistiu, ignorando o aviso. Ninguém dizia o que ela tinha ou não que fazer, e tentar obrigar seria ainda pior. “ —— Devo chamá-lo de quê, então? Mestre ferreiro?” — um risinho escapou de seus lábios, conferindo a reação exagerada do outro. Sempre tão sério… “ —— Está me chamando de burra” — não era uma pergunta. Dessa vez, o tom empregado ficou mais sério, saindo da zona de flerte que havia estabelecido. Sugerir que ela não pensava estrategicamente era o mesmo que dizer que ele não sabia fazer espadas. Era óbvio que não era tão inteligente quanto um filho de Athena em campo, porém, os anos voltados para aquilo a tornaram minimamente esperta, para dizer o mínimo. “ —— No dia em que eu depender dos seus esclarecimentos, Naos, estarei perdida”, desdenhou, imaginando o que, de fato, sua mãe pensava a respeito do rapaz. “ —— Não preciso da ajuda deles”, retrucou, de cara fechada, pensando no quão ridículo aquilo soava. “ —— Nós não precisamos deles. São desorganizados e fracos, e sequer se importam com nosso acampamento. Ou você acha que eles estão preocupados com a porcaria do templo que caiu? É claro que não. Não é do interesse deles”. Sentiu a irritação começar a preencher-lhe, porém, não ao ponto de se mostrar agressiva, tirando o fato de dizer as palavras pontuando-as com batidas na mesa de trabalho do moreno. Era esse um discurso que fazia com bastante frequência, sempre que algum romano ousava defender um grego. Tinha arrecadado alguns poucos amigos oriundos do Meio-Sangue, mas isso não significava que aceitava a todos os gregos e admitia que precisava deles. Bastava uma espada e algumas facas, e ela iria para a guerra sem se preocupar com apoio, se preciso. “ —— Está empenhado demais em me manter longe, Naos. Até parece que eu mordo” — ser afastada era quase uma afronta, porque não achava que sua presença fosse assim tão insuportável. “ —— Você é assim com todos ou sou só eu que recebo tratamento especial?”, perguntou, com sarcasmo, sorrindo falsamente. Se havia um motivo para o semideus ser tão antissocial, ela não conhecia; lembrava-se vagamente, por outro lado, que ele ocupava posição de destaque no Júpiter em outros tempos. “ —— Uh. Nós poderíamos apostar. Seria divertido”, disse, rindo genuinamente em seguida, apenas pela demonstração de coragem. “ —— Mas o que leva um pretor a se esconder nas forjas?”, pressionou, um tanto curiosa. “ —— Parece um lugarzinho solitário e desagradável” — semicerrou os olhos, encarando o espaço. Filhos de Vulcano, por outro lado, deviam achar que aquilo era um pedaço dos Campos Elísios. “ —— Está sendo dramático nesse exato momento, Dimi, só por dizer que não é drama. E alguns ficariam muito felizes em fazer isso por mim. Sou muito generosa e adoro recompensar”, lembrou, de modo irritante, enquanto observava que ele dedicava atenção a uma arma qualquer que não a dela. O que poderia ser mais importante? “ —— Hoje à noite, então. No meu chalé, sem falta”, avisou. “ —— E pela demora, suponho que ela corte todas as cabeças da hidra de uma vez. Estou com altas expectativas, hein?”
“ —— Simplesmente porque não lhe dou intimidade para me chamar de Dimi, você é amiga de Rowena e não minha. ” Rebateu logo após a morena terminar de falar, como sempre escolhendo a sinceridade e sem se preocupar nenhum pouco com o quanto ríspido suava ao dizer aquilo; Não era próximo da filha de Belona como a irmã mais nova, longe disto até, mas a conhecia o suficiente para poder dizer que ela não se deixaria abalar pelo o seu tom ou pararia de o chamar daquela forma, por mais que ele deseja-se aquilo. “ —— Chame apenas de Dimitri ou até mesmo Naos, mas não me chame de Dimi. ” Terminou por fim, esperava que a outra tivesse algum tipo de consideração as suas palavras mesmo que achasse difícil aquilo acontecer, era um sonho quase que impossível mas não custava nada sonhar, não é mesmo? Apesar da atenção ainda estar em sua tarefa, não fora complicado notar a diferença no tom da outra e, por conta disto, o mais velho suspirou antes de se virar para a morena fazendo questão de olhar nos olhos da mesma antes que respondesse a afirmação dela que não passava de uma má interpretação de suas palavras. “ —— Eu nunca te chamaria de burra, Amarantha, talvez egocêntrica ou coisa do tipo porém nunca burra! Acredite se quiser, eu acho que você é inteligente até demais. ” Respondeu com a mais pura sinceridade, não tinha necessidade de mentir mesmo que aquilo pudesse acabar inflando um pouco mais o ego da Waisglass. “ —— O que estou tentando te dizer é que, por seu orgulho ou amor por sua mãe, seja o que for, você está perdendo o foco na estrategia por trás disto! Ou pior, o foco em quem fez isto porque não acabou ainda, você sabe disto, provavelmente sente a guerra se aproximando tanto quanto eu e sou apenas um legado de Marte que nem mesmo tem poderes ligado a ele. ” A seriedade era clara em suas palavras até porque era um assunto que merecia a atenção dele, assim como também a de todos os outros por ali até porque uma guerra sempre significava perdas, significava a possibilidade de um fim daquele mundo como eles conheciam e por mais que Dimitri não tivesse medo da morte detinha um medo descomunal de perder aqueles que eram importantes para si e, se juntar-se aos gregos e lutar ao lado deles era o seu meio faria sem pensar nem por um segundo. Não se abalou pelas batidas da outra na sua mesa de trabalho, nem mesmo demonstrou qualquer sinal de que aquilo estava acontecendo apenas permaneceu-se focado nas feições da outra e esperou que ela terminasse para voltar a falar, mantendo sua voz o mais calma possível. “ —— Realmente eles não se importam, por que deveriam? Era um templo romano, Amarantha! Mas isso não é o ponto, nem o quanto eles são desorganizados porque não são fracos e você deveria notar isto, o que falta de disciplina neles sobra em comprometimento, em vontade de manter a única casa que restou para eles em pé e eles vão lutar por esse acampamento quando o momento chegar, te garanto. Você pode não aceitar agora, dizer que não vai rolar ou o que quiser mas vai chegar a hora que estará lutando lado a lado com eles por Nova Roma, pelo sua casa. ” Sabia que estava certo, que aquilo iria acontecer e temia até mesmo que fosse ser mais cedo do que gostaria considerando o último ataque; aquilo havia sido um aviso direto, deixava claro que quem estava por trás daqui não demoraria muito para atacar novamente e todos deveriam se manter ativos ou acabariam sofrendo as consequências de suas desatenções e ele não iria ser um deles, nem as pessoas que ele pudesse avisar. “ —— Estou sempre empenhado em manter você longe, Waisglass, você tem o péssimo hábito de adorar me irritar e tirar a minha concentração mas é quase que impossível te manter distante. ” Mesmo que não aparentasse sinceridade aquilo não passava de uma certa brincadeira, a outra o irritava mas não era sempre que o Naos ficava infeliz de ter ela por perto — afinal, uma pequena discussão construtiva poderia ser bom em certos momentos — mas jamais admitiria aquele fato com facilidade, ainda mais para a outra. “ —— E acredite, não te trato de forma especial, sou assim com todos que ficam me irritando mesmo. ” Não era uma mentira, até mesmo alguns de seus irmãos sofria com seu comportamento antissociais e muitas vezes eram expulsos de perto de si pelo mesmo diversas vezes. “ —— Não sou de apostar mas até que não seria tão ruim um treino, que tal? Não hoje mas algum dia. ” Deu de ombros até porque a ideia não era ruim, até seria divertido treinar com alguém que estava mais próximo ao seu nível afinal a morena era dedicada o suficiente para ele ter certeza de que ele poderia perder para ela, mesmo que tivesse também chances grandes de a ganhar porém o clima leve que estava voltando a se instaurar no local foi embora ao passo que a outra começou com sua pergunta; não precisava ser um gênio para saber onde ela queria chegar com aquilo e tudo que o moreno fez foi suspirar e novamente se voltar para a mesa. “ —— Eu gosto daqui, do barulho dos trabalhos que eu e os outros ferreiros fazem aqui mas não é isso que você quer perguntar, tenho certeza, Amarantha. Estou surpreso que está se segurando ao invés de perguntar o que vou fazer, não tenho motivos para esconder o que você pode descobrir facilmente se perguntar para algumas pessoas pelo acampamento. ” Pegou por fim uma das adagas de cima da mesa e começou a joga-la para cima como se estivesse apenas se divertindo, a pegando com facilidade quando a mesma começava a cair. “ —— Escolhi abandonar meu posto depois do ataque no acampamento grego, era pra eu estar lá mas minha mãe foi em meu lugar afinal ela tinha até mais prestigio entre os romanos, havia sido pretora em sua juventude e uma das melhores, depois se tornou enfermeira e dava também algumas aulas na universidade de Nova Roma, e eu bem .. Eu estava doente, não tinha como ir então ela foi, assim como minha namorada e dois dos meus melhores amigos mas nenhum deles voltou com vida para cá. Não tinha mais motivos para continuar no cargo, era algo que eu gostava mas sabia que não o manteria bem na época devido a tudo que acontecer então entreguei as chaves do reino e segui com a minha vida. ” Ao findar de suas palavras jogou a adaga uma última vez antes de novamente voltar a olhar para a mais nova. “ —— Satisfeita? Se sim, agora pode se retirar e tendo certeza que a espada vai cortar a cabeça de até cinco hidras antes que precisa a trazer novamente para mim, Amarantha, então pode ter altas expectativas até porque você ainda vem até mim por saber que sou muito bom no que faço. ” Estendeu então a adaga para a menor e esperou que ela pegasse antes de levantar-se e ir até a espada em questão, a pegando com facilidade e voltando até sua mesa onde colocou a mesma para então sentar-se no banco que ficava a frente da tal. “ —— Mas eu te garanto que vai sair melhor ainda se eu estiver fazendo isso em silêncio. ”