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“Fragmentos de mim”
Sinto-me inseguro — talvez por medo, talvez por desconhecer a paz de me sentir inteiro.
Há algo em mim que nunca acreditou ser suficiente, um eco antigo que me convence de que nasci para ser coadjuvante nas histórias dos outros.
Cada deslize, por menor que seja, parece detonar gatilhos que me despem até a alma.
É como se cada erro ecoasse o mesmo veredito: você nunca será o bastante.
E, ainda assim, continuo caminhando, tropeçando dentro de mim.
Carrego um temor quase doentio de perder as pessoas que me cercam —
como se a solidão fosse uma fera à espreita, esperando apenas o instante em que eu fraquejar para me devorar outra vez.
Mas o paradoxo cruel é que quanto mais tento evitar o vazio, mais ele me consome.
Dizem que eu deveria buscar ajuda, conversar, expor o que me dilacera.
Mas o que poderiam entender?
Como explicar a dor de existir quando até o simples ato de respirar pesa como chumbo?
As palavras se tornam inúteis diante do caos silencioso que me habita.
E assim sigo — entre o cansaço e a vertigem, entre o desejo de ser e o medo de continuar sendo.
Há dias em que o espelho me encara com indiferença,
e percebo que talvez o que me resta seja apenas a sombra do que um dia tentei ser.
Há algo em você que me desarma.
Não é só a beleza — embora ela seja arrebatadora —
é o mistério no teu olhar, essa calma que provoca,
essa presença que faz o mundo perder o foco.
Teus olhos são como um convite perigoso e doce,
onde a razão se cala e o desejo desperta.
Eu me perco neles e, sinceramente, não quero ser encontrado.
Você me inspira a viver, me desperta quando o dia parece sem cor.
Me faz acreditar que há poesia até nos silêncios,
e que o simples fato de te ter por perto já é motivo suficiente pra sorrir.
Em tão pouco tempo, você se tornou imensa —
um universo que eu quero explorar sem pressa,
um vício do qual eu nunca quero me curar.
Você merece ser amada com intensidade,
ser cuidada com ternura e desejo,
como quem segura o que há de mais raro e precioso.
E eu quero estar contigo — de todos os jeitos possíveis.
Porque o tempo ao teu lado é sempre curto,
e ainda que o mundo parasse agora,
eu ainda sentiria que te viver não seria o bastante.
Eu gostaria de ter viajado todas as constelações contigo,
perdidos em mapas de luz onde o medo desiste.
Moro num corpo que sussurra sua fragilidade:
sou insignificante, debilitado, insuficiente — vazio,
um verbo que perdeu tempo e esqueceu a conjugação.
A cada segundo sinto o tempo por debaixo da pele,
como água fina que vaza entre dedos que não seguram.
Percebo o quão finito é este meu corpo;
cada respiração é um pedaço do que fui,
e as horas, como areia, desaparecem sem pedir licença.
Quando era mais novo sonhava com finais felizes;
hoje, cansado de promessas rabiscadas em papel,
almejo apenas um final — um ponto calmo, claro.
Se te encontrei em alguma órbita, talvez não me salves,
mas prova que houve alguém disposto a contar estrelas comigo.
Se o universo insiste em sua vastidão exata e fria,
que ao menos sobre de ti um instante:
um sopro que preencha o buraco do silêncio,
uma mão que segure meu desvanecer inevitável —
e que eu saiba, no último minuto, que alguém contou as minhas estrelas.

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Última rendição
Não hesites em falar comigo,
embora nada em mim queira escutar.
Palavras agora são só ruídos,
ecos vazios num corpo que já se calou.
Tentei.
Tentei ser forte, ser luz, ser presença.
Mas a verdade é que cansei de fingir.
Já não luto. Já não espero.
O amanhã perdeu o gosto.
Acordar virou hábito — não escolha.
A solidão?
Ela não me assusta mais.
Ela me entende. Me acolhe.
É tudo que restou quando todos se foram,
quando até eu me abandonei.
Não peço ajuda.
Não deixei bilhetes.
Só deixei de existir aos poucos,
como vela esquecida num quarto escuro,
como alma que se dissolve no próprio silêncio.
E se me virem sorrindo,
lembrem: foi só o reflexo de um rosto vazio.
Porque por dentro,
tudo já acabou faz tempo.