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Era uma vez, o primeiro alvo
Já fazia alguns dias que Lytha observava os humanos, sempre de longe, sempre em silêncio. Tinham rotinas tão iguais, tão sem graça, que quase lhe faziam perder o encanto. Não era como nas histórias que ouvira. Faltava algo. Faltava riso.
Foi então que, entre o vai e vem de sua exploração curiosa, um aroma doce a encontrou. Ela o seguiu sem pressa, deixando-se guiar pelo perfume que dançava no ar, até encontrar uma casa e, pela janela, espiou uma humana diante de uma pequena chama. Uma vela! Não demormou a se lembrar. E assim, algo dentro dela se acendeu também.
Sem ruído ela entrou, disfarçada de mariposa, cautelosa ela se escondia. Observou ao redor até notar um par de botas largadas, enquanto a humana permanecia descalça. E, como todo início de uma boa travessura, uma ideia lhe veio a mente.
Rapidinha ela voou até a cozinha, porque aquela brincadeira precisava de um toque a mais. Algo pegajoso, para deixar a vida da humana "docinha", e a dela com mais risadas.
"hi hi"
@eldalievilienanvalinor
Era uma vez, uma flor indecisa
Lytha tinha entendido um pouco sobre a separação dos humanos, algo bobo, pois a seus olhos todos eram igualmente chatos. Por tal motivo — que tentava se converser ser esse e não sua natureza caótica — a fada estava a procura de um novo alvo para suas brincadeiras em meio a todas aquelas paredes brilhantes e sorrisos forçados.
Ela voou por um bom tempo, pois a maioria dos nobres que encontrava lhe cheiravam a tédio, até que finalmente encontrou uma jovem minimamente interessante. Johanna era o nome da mulher, delicada e dedicada a seu jardim, tão empenhada que era uma escolha perfeita.
Ela observou por alguns minutos a loira cumprir suas tarefas inúteis, aguardando o momento certo para adentrar o cômodo. Assim que obteve a oportunidade ela silenciosamente voou para a nova flor adicionada a coleção da mulher.
"Ei! Vamos brincar! Seu vermelho é radiante, mas um azul a faria pirar!"
Sussurrou a fadinha para a planta, que se alegrou e riu da proposta da pequenina, aceitando de bom grado o feitiço de ilusão jogado em si.
@eldalievilienanvalinor
A arrogância que Melkor deixava escapar em outros momentos jamais encontraria espaço diante de Borya. A amizade do príncipe era um privilégio que ele guardava com zelo — como se fosse o irmão que nunca tivera e, ainda assim, colocara em seu caminho.
Ao fitá-lo, Melkor percebeu o quanto Borya havia crescido. Não apenas no porte, mas na forma como sustentava o próprio olhar, na tentativa honesta de compreender o mundo ao redor. Mas havia nele uma ingenuidade persistente, uma falta de consciência sobre o peso do próprio nome, sobre o poder silencioso que carregava. Melkor sempre fora o responsável por lembrar os outros dos limites que deveriam respeitar. Sempre estivera ali. Mas agora… agora não estaria. "Borya, me escute." A voz saiu firme, mas não intacta. Havia algo nela que ameaçava ceder, uma tensão contida com esforço visível. Não queria assustá-lo. Não queria que ele percebesse o quanto aquela partida o dilacerava.
"Você é um príncipe da coroa" disse, mesmo já tendo repetido aquilo inúmeras vezes. "E precisa fazer com que as pessoas se lembrem disso." Inspirou fundo, como se o ar não fosse suficiente. "Entendeu?"
Aproximou-se mais, quebrando a distância que normalmente mantinha. Apesar da postura rígida de soldado, Melkor jamais seria uma ameaça para Borya. Pelo contrário — ali, era apenas alguém tentando se segurar. "Eu não estarei aqui…" a frase vacilou por um instante imperceptível, mas real. Ele apertou o maxilar antes de continuar. "Não estarei aqui para te proteger. Nem para colocar as pessoas no lugar delas."
O silêncio que se seguiu pesou mais do que qualquer palavra. "Eu confio em você." acrescentou, baixo demais para soar como ordem. "Mas preciso que confie em si mesmo." Ergueu a mão, como se fosse tocá-lo, como se quisesse garantir que ele ainda estava ali — e então a deixou cair. "Me prometa que vai tentar." Porque, se Borya falhasse, Melkor sabia que jamais se perdoaria por não estar ali.
O ar descontraído de Borya desapareceu quase de imediato ao perceber o tom sério do amigo. Ele não gostava quando falavam com ele daquele jeito e, vindo de Melkor, a sensação era ainda pior. A entonação firme despertava memórias indesejadas dos guardas da mansão, mas a última coisa que desejava era associar o amigo a qualquer fragmento daquele passado. Era pressão demais. Ele não entendia por que precisava ser assim. Não podia simplesmente viver em paz?
— Príncipe da Coroa… — Sussurrou as palavras como se fossem uma maldição esquecida sobre seus ombros. — Lembrar…
O olhar do nobre baixou, fixo em algum ponto indefinido do chão, como se estivesse mergulhado em um transe silencioso.
— Eu… eu não quero ser cruel — Afinal, era assim que se "colocava as pessoas em seus lugares", certo? Com dureza, com frieza? — Eu… — As mãos começaram a tremer ainda mais, agora não apenas pelo nervosismo, mas pelo peso da realidade que o atingia com força. Ele estaria sozinho novamente. Enfrentar monstros e guerreiros? Isso ele sabia fazer. Lutar com palavras era algo que nunca aprendera.
— Eu vou tentar — A voz saiu falha, quebrada, desprovida de qualquer confiança. Ali, diante de Melkor, não estava o príncipe da Coroa esperado pelos nobres, mas o menino que fora renegado pelo pai.
A rivalidade entre Zara Byaerne e Niamh Essaex era fato notável dentre a Corte de Aldanrae e a Sala de Aula em Hexwood. A Futura Imperatriz desprezava a amizade da Byaerne com a irmã mais nova, Josephine, e todas as outras jovens donzelas Khajol. Ultimamente, o casamento de Joahnna ocupava parcela considerável de seus pensamentos, motivo pelo qual a incursão ao Solar acontecia. Como a Futura Duquesa de Sommerset e participante do Conselho Imperial, Zara tinha direito de opinar e buscar informações acerca da união. Ela também havia descoberto que os gêmeos, Príncipe e Princesa de Uthdon estavam em Aldanrae, e não descartava a possibilidade de encontrá-los pelo Solar.
Desde que havia adotado calças escondidas debaixo de vestes leves, as passadas poderiam se comparar com as de seus guardas, que seguiam logo atrás de si. Com paciência, Zara perambulava pelos enormes corredores, agarrada ao amuleto de sorte para encontrar qualquer um dos três, ocasionalmente se abanando com o leque. Niamh vivia com um entourage que podia ser visto a quilômetros, e isso deixava a Byaerne tranquila.
O que ela não poderia prever, no entanto, era encontrar... "Florian?" Zara piscou algumas vezes, curiosa com a presença do poeta na Sala de Chá. Era agradável revê-lo, e curioso. Florian aparecia nas mais duvidosas circunstâncias. "O que está fazendo no Solar?" A voz de Zara ganhava uma curvatura animada, o brilho característico nas íris verdes surpresas. Não havia desistido do plano em encontrar Niamh ou os regentes do país vizinho, apenas tomado um pequeno desvio. "Desde que você apareceu sem ser convidado naquele jantar e fez um poema para a minha mãe, ela não para de falar em você." Sem que fosse necessária maior introdução, uma das serventes do palácio organizou um lugar para que Zara se sentasse. Em instantes, havia uma xícara de chá de hortelã em sua frente. "Céus, é ótimo lhe ver! Como tem passado, meu querido amigo? Parece perdido em pensamentos."
Borya quase derrubou a xícara de chá ao ver alguém se acomodar na cadeira à sua frente. Seus dedos, já trêmulos, apertaram a porcelana com força demais, e o movimento brusco fez o líquido quente oscilar. Algumas gotas escaparam da borda e atingiram sua mão. Ele soltou um grunhido baixo e involuntário de dor, comprimindo os lábios logo em seguida, como se pudesse engolir o som antes que alguém notasse. Em um reflexo apressado, levou a mão livre até o guardanapo, tentando limpar-se com movimentos discretos e desajeitados.
O aroma do chá misturava-se ao burburinho do ambiente, mas tudo parecia distante demais para ele naquele instante. Ao erguer o olhar, percebeu que era uma jovem mulher sentada à sua frente. Ele checou seu entorno com rapidez, inquieto. Havia guardas. Uma escolta? Como não os notara antes? O coração acelerou, e a sensação de estar sendo observado apertou-lhe o peito.
— Ah! — exclamou de forma excessivamente aguda. — Oi! Oi! Oi! — As palavras saíram atropeladas enquanto continuava tentando, com discrição questionável, limpar a mão que ainda ardia sob a mesa. — É... Oi! — Decidiu, por fim, escondê-la de vez, mantendo-a fora de vista. Endireitou a postura por um segundo, como se isso pudesse restaurar sua compostura.
— Sim! Costumo me perder em pensamentos com frequência, né? Vivem me dizendo isso — Soltou uma risada curta e sem graça, lançando um olhar rápido e quase desconfiado aos guardas ao redor, como se esperasse que qualquer movimento errado pudesse desencadear uma reação.
— Sim... O jantar… sua mãe? — Repetiu, piscando, tentando reorganizar a conversa em sua mente. — Ah… é… com licença? Não quero ser deselegante, ou mal-educado. — A risada que seguiu foi ainda mais fraca que a anterior. — Mas… eu te conheço?

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A segunda parte, Niamh sabia, depois que as cortinas se fechassem e os assuntos mais agradáveis esmaecessem, sobraria apenas a derradeira intenção. O rosto finalmente demonstrou uma sombra de estranheza ao observar a outra Princesa, sobrancelha tão suavemente erguida para aquele assunto caricato. Joahnna deveria sequer decidir? A pergunta agitava partes de Niamh entrelaçadas aos moldes antigos, à própria criação. Era ela a soberana de seu Império, e não só poderia como jamais hesitaria em decidir por Joahnna⸺se fosse o certo a ser feito, como era naquele caso. Joahnna havia ganhado muito mais do que seu título ou família poderiam lhe render. Haveria de entrar para uma família real! Era interessante, porém, aquele ponto enfático que parecia incomodar Scylla. Mas antes que Niamh se entregasse às próprias raízes e demonstrasse destempero, bebeu outro gole do vinho. Não havia comido nada. "Imagino que um evento desta magnitude deva ser preparado com o máximo de rigor e padrão." É claro que Joahnna teria direito de optar... em escolhas pré-aprovadas. No vestido, nas cores, em coisas simples e que não lhe desgastassem. Para isso tinham os comitês, os servos, toda a sua entourage. "Não concorda, Princesa Scylla? É um marco de imensas proporções para ambos os reinos. Pergunto-me, porém, o que pensa ser de escolha imperativa para Lady Florent?"
O comentário da rainha foi recebido com um breve silêncio contemplativo. Scylla manteve o olhar sobre a taça por um instante, girando lentamente a água em seu interior. Quando finalmente voltou a atenção para a soberana, havia em seu semblante uma calma teatral.
— Concordo plenamente majestade — Disse com suavidade. — Uma união entre dois reinos não pode, evidentemente, ser conduzida pelos caprichos daqueles que a protagonizam. Há muitas expectativas em tal evento para que decisões essenciais escapem das cortes — Os dedos de Scylla deslizaram pela borda da taça antes de continuar. — Ainda assim, pergunto-me se não é prudente permitir a jovem ao menos a impressão de alguma participação. Pequenas escolhas talvez, apenas o suficiente para que o casamento não lhe pareça apenas um destino já escrito por mãos alheias.
Scylla não pensava verdadeiramente aquilo, ela queria apenas plantar a dúvida no coração da rainha, mas se Niamh pensava naquela jovem como uma peça descartável, então que assim seja. Seria mais fácil para Scylla desse jeito.
— Às vezes as pessoas aceitam seus deveres com muito mais graça quando acreditam ter caminhado até eles por conta própria. — Um leve sorriso surgiu em seus lábios, polido, mas carregado de uma ironia quase imperceptível. — De toda forma, estou certa de que encontraremos um equilíbrio apropriado. Meu irmão, obviamente, terá plena liberdade em suas escolhas dentro dessa união, afinal, ele é o príncipe de nosso reino.
Ele manteve o rosto erguido com coragem. Não sentia medo da magia. Havia recebido a própria bênção do pai de Scylla, o rei deposto e morto, e, com ela, aprendido a lidar com a sensação estranha à espécie dos meio-humanos. Scylla, porém, não parecia nem um pouco humana. Cassius sentia o perigo irradiar pelo corpo, eriçando os pelos, mas não ousou sequer piscar. Antes mesmo que pudesse soltar a respiração, o momento havia se acabado e o brilho fraco chegava ao fim. Ela se afastava. Havia agora entendido o comando. Não era sua obrigação questionar ou sequer pensar nas implicações que aquele movimento teria politicamente⸺como um bom cão prometido jantar, cumpriria a tarefa cegamente. Era verdade que Taskan sentia-se levemente insultado pela pergunta acerca da própria capacidade de matar um nobre sedentário, sendo de tamanha importância militar… mas nenhuma irritação conseguia ser tão transparente quanto a que o nome de Melkor lhe causava. A mandíbula se pronunciou num aperto seco. "Não será preciso, Alteza. Melkor não é daqui. Não conhece as casas nobres ou tem tanto prestígio quanto eu."
Tal reação era exatamente o que Scylla esperava. O guerreiro diante dela era orgulhoso e esse pecado era facilmente manipulável. Em circunstâncias comuns, ouvir qualquer um se atrever a insultar Melkor teria acendido nela uma fúria imediata. Não importaria se o ofensor fosse um lorde ou um moribundo. Contudo, ali, naquele galpão abafado a situação beirava o cômico.
Havia uma ironia deliciosa naquelas acusações dirigidas a Melkor. Cada palavra dita com desprezo parecia inverter a verdade. Se dependesse de Celtigar, o meio-humano já teria sido erguido ao mais alto dos postos, seja militar ou social, mas fora o próprio Melkor quem recusara tal honra.
— Perfeito! — exclamou, e o entusiasmo em sua voz era calculado. — Não vou lhe dizer como deve fazê-lo — Os dedos de Scylla moveram-se no ar lentamente, girando o indicador com leveza, como a maestrina de uma orquestra invisível. — Prefiro deixar essa escolha com você. Considere isto um teste. — Seus passos ecoaram de leve enquanto ela recuava um pouco, passando os olhos pelas armas penduradas nas paredes.
— Mate-o e tente não ser pego no processo, sim? Esfaqueamento? Envenenamento? Manipulação? — Cada opção foi dita com uma leve pausa, como se estivesse degustando as palavras. — Algo lento, ou rápido? — Scylla parou sua avaliação do local e virou-se para o homem. O sorriso que surgiu em seus lábios dessa vez não foi contido. Era afiado e profundamente diabólico. — Ou talvez… um acidente. Faça como achar melhor — Concluiu, a voz baixa, quase satisfeita. — Eu estarei assistindo.
Uthdon havia aberto sua mente para a organização social à qual estava acostumado, mas nem mesmo um reino moldado pela adaptação conseguia apagar por completo costumes antigos. Em Uthdon, o que importava era a resiliência do soldado — e ser um soldado era tudo o que Melkor sabia ser. Sua ascensão rápida a um posto elevado, mesmo sendo estrangeiro, não causara estranhamento. Pelo contrário: o respeito que conquistara nascera justamente de sua capacidade de se dobrar sem se quebrar, de aprender sem perder eficiência.
Ainda assim, havia linhas que ele não cruzaria. Por isso soltou a mão da mulher. Aquilo já fora ousado demais. Já havia exigido demais da amizade de Scylla — e de sua própria lealdade. O gesto simples ecoou mais alto dentro de si do que deveria. "Eu apenas não quero que nosso trabalho duro seja arruinado por um principiante." Não houve humildade em seu tom. A segurança soava quase ríspida, não como desafio, mas como defesa. A convicção de quem precisava acreditar que tudo aquilo ainda fazia sentido. "Se ele sequer cogitar não terá a chance de tentar traí-la." As palavras saíram firmes, mas não sem custo.
Havia uma parte de Melkor que permanecia em Aldanrae, presa a objetivos antigos, a promessas feitas quando ainda acreditava que lealdade era algo simples, indivisível. Ao mesmo tempo, outra parte se recusava a abandonar Uthdon — não por dever, mas por algo mais difícil de nomear. Pertencimento, talvez. Ou culpa.
Borya surgia em seus pensamentos com insistência incômoda. Vê-lo indefeso, confiando demais, despertava um desconforto que Melkor não conseguia justificar apenas como estratégia. Ele próprio garantira que o príncipe saberia se defender; treinara seu corpo, afiara seus reflexos. Ainda assim, sabia que força não bastava quando o mundo exigia escolhas rápidas e cruéis.
Scylla, por outro lado, não precisava dele. Nunca precisara. Era capaz, calculista, soberana mesmo antes da coroa. Ainda assim, era a ela que devia a própria vida — não por submissão, mas por uma dívida que nenhuma vitória apagaria. Estar longe significava cumprir seus objetivos. Ficar significava protegê-los. Em ambos os caminhos, havia traição. E Melkor começava a suspeitar que, qualquer que fosse sua escolha, deixaria para trás algo que jamais conseguiria recuperar.
Melkor se forçou a sair dos próprios pensamentos, não podia se permitir a devagar demais. "Eu acredito que seja melhor que eu vá procurar Borya." Disse por fim. Se afastando alguns passos ainda com os olhos fixos na outra. "Sabe que se precisar ainda pode me chamar."
Os olhos da monarca tornaram-se opacos após a interação. Ela sabia ser a causa de toda aquela situação e, ainda assim, o peso desse reconhecimento lhe era incômodo. Sentir era um luxo perigoso, um vício reservado aos fracos. Melkor costumava lhe dizer que no fundo havia nela uma mulher amável, contudo a realidade que escolheu para si era outra. Preferia ser contemplada pelo temor. O medo, afinal, era um idioma universal, ele erguia muralhas invisíveis, assegurava a ordem, preservava o trono. Mais do que isso, garantiria a sobrevivência de Melkor e de Borya.
— Sim, espero que seja capaz de apaziguá-lo quando o ataque de pânico inevitavelmente se manifestar — declarou, em tom desprovido de emoção, enquanto desviava o olhar do homem e retornava a encarar a porta de saída. — Se assim julgar melhor, poderá dizer-lhe que foi uma decisão minha. Não alterará a imagem que ele já construiu a meu respeito.
Ela dirigiu-se a saída com passos firmes, ainda que impregnados de graça. — Sim, eu sei — ela virou a cabeça apenas o suficiente para conseguir ver o cavaleiro de relance e lhe sorriu de forma um pouco mais doce, enquanto em sua cabeça vozes a repreendiam por se deixar cair nessa armadilha mais uma vez. — Nos encontraremos amanhã.
As sombras do aposento pareceram hesitar por um instante, como se reconhecessem um chamado antigo. Pouco a pouco, começaram a se desprender dos cantos do quarto, alongando-se além do que a luz permitiria, deformadas e silenciosas. Elas ergueram-se ao redor da princesa como um círculo profano, subindo por suas vestes e membros. Sua silhueta tornava-se imprecisa, instável, como se a própria realidade estivesse esquecendo a forma que deveria manter, assim a forma da mulher foi sendo dissolvida em escuridão para que algo diferente surgisse. Do centro emergiu um corvo de olhos rubros que por fim alçou voo rumo ao céu do entardecer, deixando o aposento em um frio antinatural, uma lembrança de um pacto a eras feito.
Imediatamente, Cassius obedeceu. Ergueu-se sentindo dor nos músculos cansados pelo treinamento intenso, mas não deixou transparecer qualquer exaustão pelo rosto sério e cheio de ambição. A pose de soldado, estoica e valente, fazia manter a mão no peito e pés juntos numa saudação que parecia não se findar. Era respeitoso, subserviente. Quando se tratava de Scylla, Taskan poderia imaginar todo tipo de favor e prova de coragem, e a obediência sempre bem-vinda o colocava mais perto de alcançar a glória.
Ele se manteve em silêncio pelo instante em que ela conduzia a fala, não ousando dizer qualquer coisa até que a palavra lhe fosse dirigida. Grimholt. Sabia. Claro que sabia. Conhecia cada um dos membros que faziam parte do entourage do antigo rei, enquanto servia durante jantares e festas de portas fechadas. Ele assentiu para o questionamento, aguardando mais informações, ligeiramente impressionado pelo nojo escancarado na voz da Princesa.
— Ótimo — exclamou ao notar o aceno afirmativo da cabeça do cavaleiro.
A princesa se aproximou do homem com uma expressão severa, imperativa, como se lhe dissesse silenciosamente para não se mover. Ergueu o dedo indicador e com um gesto gracioso traçou um símbolo invisível diante do rosto de Taskan. Uma luz vermelho-sangue irrompeu no ar, densa e pulsante, magia pura moldada sem a necessidade de um pincel, afinal, Scylla nunca precisara de um.
— Não se preocupe — disse ela, com um sorriso malicioso. — É apenas um feitiço para garantir que você não revele seu mandante, nem mesmo sob influência mágica. — a luz aos poucos se dissipou, como uma ferida se fechando, selando assim o encantamento. — Afinal, quero que mate o patriarca da Casa Grimholt. Acha que consegue? Esta é sua última chance de recusar.
Ela se virou antes que ele respondesse e afastou-se alguns passos, fingindo analisar as espadas dispostas na sala, passando os dedos com desinteresse pelas lâminas.
— Se não for capaz, pedirei a Melkor — acrescentou por fim, lançando as palavras como uma isca. A rivalidade, ainda que unilateral, era evidente e ela sabia exatamente onde pressionar.
Por trás do rosto impecável e da expressão imaculada, meticulosamente curatelada com gestos altivos e sorrisos corteses, havia finas rachaduras de autodesconfiança e flagelo que assombravam os momentos de silêncio da Primeira Princesa. Porém, em cenários como aquele, Niamh brilhava. O ensaio era excruciante, mas o exercício da adrenalina era essencial para que absolutamente nada do que acontecesse ao lado de dentro vazasse. A argamassa formada por anos de observação das negociações de Meritaten havia a ensinado a usar sempre cores escuras, tanto nas roupas quanto nas emoções. Assim, ninguém a veria sangrar.
Scylla era ardilosa, mas Niamh era provida de estabilidade mental, diferente de Seamus durante seu Império. Ela via por detrás das palavras, notava suas conotações e escolhia não reagir. Ao menos, não reativamente. Sem demonstrar qualquer oscilação no rosto solene, esperou que a outra Princesa finalizasse suas implicações para responder. "Agradeço a gentileza." A única necessidade de validação de Niamh vinha de pessoas agora mortas ou desaparecidas. O desdém velado de Scylla era quase caricato para alguém que vinha de uma potência de território menor, hospedando-se no Solar de Ardan, completamente à mercê dos milhares de guardas e guerreiros que perambulavam pelas dependências. "O amor esvanece com o tempo." Niamh não esperava flores e congratulações após a intensa Guerra, mas também a falta de maturidade a surpreendia. Resolveu tratar a resposta como um exercício de retórica. "Creio que vá compartilhar de minha perspectiva... Um governante que governa unicamente por amor não serve a ninguém senão ao próprio ego. O que difere daquele que governa para o povo. E daquele que governa para o Império." Ela suspirou, ligeiramente entretida pela escolha das próprias palavras. Sabia que dissociar os três pontos era impossível, mas jamais transpareceria a necessidade em ser adorada. "Pretendo fazer bom uso desse direito, não me entregando à imoralidade de emoções vãs. Deve haver equilíbrio, senão haverá colapso." Finalmente, Niamh deixou-se bebericar um mísero gole de vinho, dos ducados do Norte. Encarou-a com o olhar pleno. "E você, Princesa Scylla?"
Scylla inclinou a cabeça levemente em um movimento angular, semelhante ao de um pássaro avaliando a presa antes do voo. Seus olhos se semicerraram e por um breve instante um brilho rubro inquietante pulsou em suas pupilas, discreto, mais ainda lá. Havia sido surpreendida pela escolha de palavras da outra governante. A primeira vista aquela mulher lhe parecera uma dessas criaturas frágeis que vivem de aparências e sorrisos ensaiados, convencidas de que beleza e etiqueta bastam para sustentar um trono. Talvez, no entanto, estivesse enganada. A constatação arrancou-lhe um interesse frio. Quem sabe aquele lugar não fosse tão tedioso quanto imaginara.
— Muito bem — falou, em um tom baixo e condescendente, como quem se dirige a um animal que acabou de obedecer. — Receio que concorde com seu posicionamento em partes.
Na verdade, Scylla sempre preferira o respeito que nasce do medo. O temor era mais honesto, mais duradouro. Aqueles que a temiam jamais ousavam agir contra suas decisões ou interesses. Se ousassem ela saberia. Sempre sabia.
— Ainda assim — continuou — Creio que um pouco de emoção auxilie nas tomadas de decisão. Está intrínseco à natureza humana. — a palavra humana soou estranha até mesmo para ela, dita como se descrevesse algo externo, quase conceitual.
— Mas vamos parar de divagar sobre trivialidades — disse em seguida, enquanto fingia mexer na comida à sua frente, empurrando os alimentos de um lado para o outro sem real intenção de comer. — O casamento. É isso que nos trouxe até aqui. — ela largou o garfo novamente. — Pretende deixar as escolhas do evento a cargo das coroas de ambos os reinos ou permitirá que a noiva tenha alguma opinião?

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Melkor limitou-se a inclinar levemente a cabeça em concordância, ciente de que Scylla jamais duvidara de que sua vontade seria cumprida. Ainda assim, algo na forma como ela se aproximava tornava o gesto menos automático do que deveria ser. Pensou, por um instante, no impacto que aquilo teria sobre alguém como Borya — o pobre homem carregava traumas demais para que qualquer primeira interação não fosse marcada por tensão. Sua insegurança era apenas o reflexo de um crescimento deformado por uma profecia maldita.
A aproximação da futura imperatriz não passou despercebida. Tampouco Melkor recuou. Permaneceu firme em sua postura estoica, como o soldado que fora moldado a ser, embora soubesse que aquela imobilidade era, por si só, um convite silencioso. O toque de Scylla não o fez se mover — mas o fez sentir. Ele a observou de perto, atento demais, escondendo com cuidado a confusão provocada por um gesto tão pouco usual… e perigosamente íntimo.
Seu coração já não era o mesmo de doze anos atrás; os batimentos eram fracos, irregulares, como se não fosse aquilo que o mantinha vivo — e, de fato, não era. A magia de Scylla era o fio que o sustentava. Embora ela não controlasse sua vida, era a ela que ele a devia. Essa consciência tornava cada aproximação mais carregada, mais densa, como se o ar entre ambos se tornasse difícil de respirar.
O elogio arrancou-lhe apenas um sorriso contido, calculado demais para ser inocente. "Seria meu prazer conceder este último favor." Permitiu que a própria mão envolvesse a da monarca, e não se apressou em soltar. Por alguns segundos, manteve o contato, consciente. Um ato que, aos olhos de terceiros, seria imperdoável. Scylla, de sangue nobre, não deveria permitir tamanha intimidade com alguém como ele. E ainda assim, não o afastava."Mas, se assim prefere…" Afastou-se lentamente, não sem antes deslizar os dedos com cuidado, mantendo a mão dela contra a sua enquanto se curvava. O gesto era formal em aparência. "Ficarei de olho nele enquanto puder…" Disse em tom baixo. "E, se for necessário, intervirei." O silêncio que se seguiu dizia muito mais do que qualquer juramento.
O coração de Scylla batia em um ritmo estranho, muito diferente daquele ao qual estava acostumada e, sobretudo, diferente do que sentia pulsar no peito do homem a sua frente. Saber a origem de tal fato lhe despertava um rancor silencioso, denso como névoa. Em sua mente imagens de vingança surgiam, uma vontade de reviver e matar repetidamente aqueles que haviam ferido Melkor. Contudo, sabia que nada disso lhe traria alívio. O passado não podia ser reescrito e, por ora, tudo o que lhes restavam era continuar vivendo.
A respiração da princesa perdeu um singelo compasso quando sentiu os dedos dele encontrarem os seus. O toque foi gentil e ainda assim o suficiente para arrancá-la de seus pensamentos. Não esperava por aquilo. O homem raramente correspondia a seus gestos de proximidade, sempre mantendo uma distância respeitosa, como se temesse ultrapassar um limite invisível. Surpresa e levemente abalada, Scylla deixou escapar um sorriso cúmplice e travesso.
— Ora, não precisa ter ciúme, você sempre será o melhor, mas preciso de mais peças a meu favor nesse tabuleiro, não se pode ganhar um jogo com apenas o rei e a rainha. — com emoções conturbas refletidas em seu olhar, Scylla observou em silêncio enquanto o loiro mudava o modo como segurava sua mão para um gesto respeitoso. Algo se fechou na ruiva, como se as muralhas do castelo refletissem nela. O que estava fazendo? Não poderia se dar ao luxo de ser sentimental. Essa tarefa era de seu irmão. Isso não lhe cabia.
— Se é isso que deseja fazer durante o restante de sua folga, não serei eu a impedi-lo, ainda assim enviarei um de meus corvos para observá-lo — disse, retornando ao tom formal de antes. — Talvez aplicar algum feitiço que o impeça de dizer quem foi seu mandante, caso seja incompetente o bastante para ser pego... ou ousado o suficiente para tentar me trair.
Mais uma vez, levou a xícara aos lábios e tomou um gole demorado do chá. Poderia se acostumar àquilo. Aos soldados, em geral, estavam reservados apenas o vinho áspero e a cerveja duvidosa — nunca algo tão fino. Como amigo pessoal da rainha, tinha privilégios; e embora raramente os buscasse, aceitava-os quando vinham dela. Recusar, naquele caso, seria quase uma afronta. "Sim, eu sei" Respondeu, com calma.
Scylla fora quem o salvara da morte — de forma literal. Não devia fazê-lo. Não precisava. Ainda assim, escolhera intervir. "Você é melhor do que se permite dar crédito" disse, com firmeza contida. Não era consolo, era constatação.
Seu olhar acompanhou a monarca enquanto ela se afastava. Os cabelos ruivos presos refletiam a luz suave da manhã, e por um breve instante a imperatriz deu lugar à mulher pensativa por trás do título. Mesmo envolta em ouro, poder e expectativa, ele nunca a enxergara como os outros. Nunca se curvara à imagem — apenas à pessoa. "Devo contar a ele sobre o casamento?" perguntou Scylla, ainda de costas.
Melkor se levantou e caminhou alguns passos, detendo-se atrás dela no ponto exato onde sabia não ser visto. Não era acaso, era hábito. As paredes e as cortinas pesadas o escondiam como sempre haviam feito. Quando seus olhos encontraram os dela no reflexo do vidro, não houve necessidade de explicações. "Eu posso lidar com isso" Respondeu, sem hesitação. A voz não carregava bravata, apenas certeza. "Não se preocupe" Acrescentou, com um leve inclinar de cabeça. "Antes de nossa partida, não restará nada que possa ameaçá-la." Não era uma promessa feita por dever. Era uma decisão.
Scylla tenta disfarçar o sorriso constrangido que toma conta de seus lábios ao abaixar o olhar para o chão do quarto. Seus dedos encontraram o mindinho da outra mão, mexendo distraidamente na unha, num gesto nervoso que denunciava o turbilhão de sentimentos mistos ao ouvir aquelas simples palavras.
— Seria mais fácil se um rosto familiar lhe contasse seu infortúnio — a ruiva deixou escapar um longo suspiro enquanto fechava os olhos de preocupação. — Você sabe que ele ainda tem receio de ficar perto dos guardas do castelo, mesmo que agora seja mais forte do que qualquer um deles.
A nobre lentamente deu alguns passos em direção ao cavaleiro, oferecendo a ele a chance de recuar se assim desejasse. Ao alcançar Melkor posicionou-se ao seu lado direito. Sua mão ergueu-se com hesitação até repousar sobre o peito dele, em um toque singelo, quase tímido, na altura do coração. Celtigar fitou o perfil do homem com um olhar profundo e difícil de decifrar.
— Agradeço profundamente por oferecer ajuda, Melkor — o nome dele deslizou por sua língua com suavidade. — Mas você está voltando para sua terra natal e tem seus objetivos, não quero que haja contratempos nesse quesito, apesar de saber que você seria perfeito como sempre — ela então desviou o olhar, encarando fixamente a porta de saída. — Há um certo cavaleiro — continuou com um leve endurecer na voz. — Que há tempos busca minhas graças. Pretendo me aproveitar disso. Quem sabe ele não se mostre mais útil do que aparenta ser.
Um lampejo no ocre do olhar se distinguiu na escuridão do cômodo, ao ouvir através da voz de Scylla Celtigar, que ocuparia em breve um alto posto no exército. Era tudo o que sonhava, desde a infância miserável naquela cidadezinha costeira ao sul do país. Cassius sentiu os punhos se fechando, como se quase pudesse agarrar aquela realidade. Desejando que ela se tornasse verdade, materializando-se sob os dígitos. Cassius soltou o ar pelo nariz e abaixou a cabeça. Poderia muito bem estar sorrindo, mas a face se manteve complacente e reflexiva, controlada. Não queria parecer afoito, se debatendo como uma presa encurralada. O guerreiro também não ousaria levantar a voz até que percebesse ser o momento certo, e se resignou a tomar o frasco com uma das mãos, ainda ajoelhado em sinal de respeito. Taskan sabia qual era o seu lugar, e recusar qualquer coisa vinda de Scylla, boa ou ruim, não o constituía. O frasco em mãos, analisou-o com ponderação silenciosa, logo colocando-o no bolso da calça de uniforme para que pudesse minuciosamente decidir como usar (muito provavelmente não iria). O final da proposta, porém, cortava como uma lâmina nas mãos de um bêbado. Era uma aposta arriscada, mas para alcançar o topo como tanto almejava, também era a única saída. Após a morte do Rei, houve um tempo em que o meio-humano se questionava sobre qual caminho tomar, e lá estava ele em sua frente, numa forma quimérica e assustadora de corvo. Aterrorizante e gloriosa. "Eu não ousaria." Era verdade. Sua lealdade à terra-mãe valeria o peso em ouro, jamais conhecendo a insolência. Cassius apertou a mão fechada contra o peito, finalmente olhando-a nos olhos de maneira assertiva. "Considere feito, Alteza."
A postura do homem ajoelhado aos pés da princesa lembrava menos um juramento honrado e mais como um condenado ao olhos dela. Ele estava diante do abismo e estendia a mão as trevas, aceitando qualquer promessa que lhe seja feita. Era como ver alguém vender a própria alma ao diabo, não por devoção, mas por anseo de algo maior. A lealdade que oferecia não nascia do coração, mas do desejo de ser mais forte. Tal fato alegrava a nobre.
— Ótimo! Sua lealdade será lembrada, pode ter isso como garantido.— os dedos de Celtigar moveram-se em um leve gesto, ordenando que ele se levantasse, um comando simples, mas absoluto.
— Vamos direto ao ponto. — continuou ela — Imagino que conheça a Casa Grimholt. — o nojo que tingiu a voz da ruiva não era disfarçado, assim como o olhar de desprezo, não direcionado ao homem a sua frente, mas como se ela estivesse vendo através dele, mirando em algo no futuro. — Casa antiga, mas pouco influente comparada ao passado. — prosseguiu, com um leve arquear dos lábios, quase um sorriso, mas vazio de humor. — Antiga bajuladora de meu pai. Lhe é de conhecimento?
Era uma novidade para a maioria dos Aldearanos encontrar conforto em ver uma mulher no poder. Niamh por vezes também sentia-se calçando sapatos de tamanho errado, enquanto ditava o rumo das coisas e decidia, sem mesmo consultar outra fonte. Ainda que fosse Senhora da própria mente, era difícil livrar-se das amarras e preencher um espaço tão grande deixado por Seamus. Não era Imperatriz por enquanto, mas poderia sentir o frio e a solidão do trono lhe esperando. Porém, Niamh continuava utilizando-se da máscara de resolução e confiança que sempre vestia em ocasiões sociais. Não era muito diferente de Scylla, ainda que mais política e inclinada a soar cortês, quase que naturalmente. Para a Essaex, era óbvia a disparidade entre os reinos ali. Um abismo colocava a família Celtigar distante da própria. Aldanrae era um Império composto de vários núcleos nobres, influentes e poderosos, e Uthdon nada mais que um país militarizado, que em duzentos anos não conseguiu expandir a guerra para além do Fronte. Portanto, não ofereceriam princesas ou filhas dos ocupantes do conselho; primeiro, porque ninguém aceitaria embarcar em tal loucura. Não com casamentos arranjados e um futuro confortável dentro dos próprios limites. Depois, porque Joahnna era perfeita⸺havia sido moldada pelas próprias mãos para desempenhar o nível suficiente de complacência e lealdade; para atendê-la quando fosse necessário, para ser grata a quem lhe oferecia um destino diferente de uma vida entediante. Também, havia outras coisas que continuavam para as entrelinhas: os Florent receberiam títulos e terras. Joahnna levaria sua própria criadagem e poderia ir e vir quando bem entendesse. Os países cessariam a matança desnecessária e Niamh se preocuparia somente em melhorar a própria reputação e moral⸺não com uma guerra em si. Devaneios à parte, a mais velha Essaex tomou um gole de sua bebida, gentilmente colocando-a outra vez sobre a mesa. "É claro." Não sabia o apelido que o antigo Rei havia recebido, mas também não admitiria não saber. "Espero que tenha um longo, próspero e criterioso reinado, Princesa Scylla." Um instante de silêncio. "Ainda não ocupei o trono de Imperatriz, de fato. Auberön se mantém regente por um curto período, porém participo das tomadas de decisões." O queixo de Niamh se ergueu numa velada prepotência, que poderia ser facilmente confundida com uma visão esperançosa. "Eventos conturbados fazem parte da história do nosso Império. Desde o Grande Rei Ardan, experimentamos desafios e passamos por eles." Niamh a encarava nos olhos. "E ressurgimos mais fortes. Não será diferente desta vez."
Não era surpresa alguma que as atividades, os cargos ocultos e o próprio regime de Uthon permanecessem envoltos em névoa para Aldanrea. Impérios não se constroem apenas com exércitos, mas com silêncio, medo e histórias contadas pela metade e Scylla sabia disso melhor do que a maioria, seu pai lhe garantiu isso. Ainda assim, havia nela uma expectativa quase irônica de que, ao menos, o apelido “carinhoso” de seu pai tivesse atravessado a fronteira. Decepicionante.
A nobre inclinou-se levemente para trás. Apostava consigo mesma que Aldanrea se via como o único adversário do império. Como se Uthdon não tivesse esmagado outras resistências, engolido reinos e ampliado suas fronteiras ao longo dos anos. Era cômico imaginar que, após tantas guerras e conquistas, uma união frágil e apressada pudesse conduzir o império as águas rasas e tranquilas da paz. Porém não compartilharia tal conhecimento, não facilitaria isso a futura rainha.
— Para ressurgir de forma eficaz, é preciso alguém capaz na liderança. — disse em um tom neutro, como se estivesse apenas enunciando um conhecimento geral de mundo. — Acredito que você será explendita na função. — concluiu após um instante, deixando no ar se aquilo fora um insulto ou não. — Mas... diga-me. — continuou com a voz calma, porém carregada de intenção — Você pretende ser uma governante amada pelo seu povo?
A pergunta pairou no ar como um desafio velado, filosófico e cruel.
Sempre fora um homem observador, ao menos fora a habilidade que mais lhe foi elogiado em seu tempo de treinamento. Talvez por isso, podia notar os detalhes nas ações de Scylla. A forma que o ombro dela caia levemente para frente quando relaxada, a forma que o sorriso se tornava algo mais constante e até algumas manias manuais - como torcer os cabelos entre os dedos. Aquelas ações singelas sempre contidas nada mais eram do que o reflexo dos anos de perseguição e luta por sobrevivência. Melkor entendia o sentimento muito bem. Ainda que fossem de classes diferentes havia esse ponto em comum. A ligação que tinha com Scylla era maior que apenas a magia, se entendiam de uma forma que mais ninguém era capaz.
O sorriso nos lábios do changeling foi quase natural. "Ah, não seria a primeira vez. Não é mesmo?" Embora fosse uma brincadeira tinha a completa noção de que a ruiva não mentia e era bem capaz de realizar o ato. "Bom, devo dizer que não estou exatamente tentando me livrar de você. Não costumo me livrar de meus amigos."
Melkor olhou novamente para os papeis, sua mente ainda sabia que algo naquilo não se conectava. Havia uma ponta solta. Bebericou um pouco o chá a sua frente. "Scylla... Já fazem 12 anos eu não piso naquele lugar... Talvez as coisas tenham mudado mais do que eu gostaria." O pesar na voz do changeling era palpável. Embora não quisesse admitir havia certo medo de voltar.
A princesa sentiu um aperto no peito ao ouvir o termo dirigido a si, mas tentou disfarçar suas feições. Afinal, como se sentia no momento não era o foco, havia coisas mais importantes para se preocupar.
— E eu não costumo deixar desprotegidos aqueles que são importantes para mim, seja você ou meu tolo irmãozinho — murmurou Scylla, enquanto girava o líquido dentro da xícara, apenas observando quando algumas gotas inevitavelmente caíram na mesa.
— As coisas mudaram de fato, afinal, uma autossabotagem esplendorosa como aquela não deixaria o reino como antes — sua voz escorria zombaria, em um veneno ardente, mas paradoxalmente doce, como um néctar envenenado, irresistível aos ouvidos alheios.
A ruiva levantou-se, abandonando por completo a comida na mesa, e dirigiu-se a grande sacada de seu quarto. Com um olhar pesado e solene observou o reino abaixo de si por um instante, mas seu olhar logo foi atraído ao campo de treino, o que fez uma ideia surgir em sua mente.
— Dito isso, estaremos indo para Aldanrae amanhã junto a você. Imagino que queira visitar o Borya antes e contar as... novidades — proferiu, em meio a um suspiro, enquanto se virava para encarar o homem novamente, agora com um semblante vingativo. — Preciso cuidar de outros assuntos até lá. Não posso deixar que passem por cima da minha autoridade aqui, seja essa pessoa nobre ou não.

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Já acostumado com a forma que Scylla lidava com todo, sequer se assustou. O assunto dizia respeito diretamente a Borya e isso era algo sensível, o pobre monarca havia sido ameaçado mais vezes do que se lembrava inclusive por famílias de pretendentes. O changeling havia cuidado da situação pessoalmente. "Bom, caso decida, lembre-se de me avisar antes." Um sorriso quase impertinente tomou conta dos lábios de Melkor, não porque duvidava da capacidade da ruiva de fazer, mas porque sabia que ela era bem capaz. "Afinal, não quero ser obrigado a estar na linha de batalha de Aldanrae novamente."
Sentou-se assim como o pedido. Mesmo para um lugar que seu status como changeling não significava desprezo esse era um tratamento que poucos recebiam. Scylla era uma mulher complicada ao olhar da sociedade, era temida e poderosa. O que muitos falhavam em ver nela era um coração que era caloroso para aqueles que ela se importava. "Influente é uma palavra forte, estão jogando a menina na boca de leões." Disse quase que com pena. Provavelmente era ninguém mais que a última filha, nada de importante para a família. "Não me parece que a garota tenha influência o suficiente sequer para ser mantida em segurança."
Antes de realmente olhar para a carta bebericou o chá, um dos poucos que não pareciam água suja para seu paladar. Leu mais de uma vez a carta quase se surpreendendo com a petulância de tamanha proposição. Se perguntava quanto poder político a nova monarca tinha para ser capaz de lidar com tamanhos arranjos. A expressão de Melkor parecia mais sombria, como se entendesse a dimensão daquela carta. Havia uma preocupação também pelo amigo, será que aquilo seria um truque. Havia descoberto tantos. "Ao que parece logo você e Borya se juntarão a mim em Aldanrae."
Scylla recostou-se na cadeira, cruzando uma perna sobre a outra, seu corpo abandonou a rigidez habitual, os ombros relaxando. Uma mecha de cabelo caiu em frente ao rosto da mulher que a enrolou distraidamente entre os dedos, um gesto raro, quase inocente. Assim a ruiva permitia-se respirar por fim.
— Ah, não se preocupe!— disse com um sorriso travesso e um olhar brilhando em leveza. — Se isso acontecesse você seria o primeiro a ser misteriosamente sequestrado da linha de frente!
A voz saiu em tom brincalhão, o estresse que a acompanhava a poucos minutos se desfezendo a cada instante. Era impressionante como apenas a presença dele bastava para acalmá-la. Em outros tempos ela teria que se retirar e buscar destruição para aliviar a fúria.
Entretando, logo a expressão de Scylla voltou a tornar-se mais contida, embora o peso mortal que costumava cercá-la houvesse se dissipado.
— Pois é, parece que você não irá se livrar de mim tão cedo. — murmurou, entre um suspiro e um sorriso cúmplice. — E olha que, desta vez, nem fui eu quem arquitetou o motivo. — uma risadinha breve escapou-lhe, calorosa, quase íntima, mas logo cessou. As mãos da nobre subiram às têmporas, massageando-as com o leve cansaço causado pela preocupação.
— Sinceramente, não sei se essa nova rainha — pronunciou o título com desdém calculado. — É tola ou extremamente soberba. Nem sequer ofereceu a mão de uma princesa ou príncipe. Isso seria o mínimo em uniões políticas! — falou em um tom indignado. —Ela tem sorte que eu não tenha visto a carta primeiro, caso contrário a guerra já teria recomeçado.
Aquela mulher despertava em Niamh algo gutural. Estranho. Desconfortável. Que se remexia nas entranhas e revelava do fundo da memória a tiragem de Cronomancia... Aquele monstro... Niamh devia lembrar-se de respirar, mesmo que o ar houvesse se tornado denso, de repente. O fantasma de Meritaten lhe obrigava a sorrir exaustivamente para alguém que há poucas semanas seria seu inimigo mortal. A história se refazia diante dos olhos, deveria estar feliz, não deveria? A paz entre as duas nações estava em curso e Niamh construía, reforçava a ponte entre elas com aquele casamento. Mas o medo... Ah, o medo. Que vivia por entre a fina espessura das unhas e pele, que se entremeava ao peso da coroa e a rasgava de dentro para fora... Era imperativo que fosse asfixiado a qualquer custo. Esvazie a mente, lembrou-se, fazendo entoar a voz de Seamus em qualquer um dos raros momentos passados ao seu lado. Noor brilhou num escarlate vívido antes de se assentar no plácido magenta, e Niamh sorriu de novo. Deveria fingir não a detestar, como fazia com qualquer um de Uthdon. A paz e seu povo deveriam vir primeiro. Era uma oportunidade, e Niamh Essaex a agarraria com unhas e dentes. Ainda não estava acostumada a ter seu nome atrelado a qualquer título que não fosse Princesa, e certamente ser chamada de Imperatriz soava bem aos ouvidos⸺portanto, Niamh se agarraria àquilo. "O fato dificilmente me é incômodo. Mas deve saber que não cabe à Lady Florent participar de tais negócios... Prepararemos jantar e, posteriormente, um baile, para que o novo casal seja apresentado à população." Foi o que disse, sucinta e igualmente cordial à Scylla, demonstrando que Joahnna não tinha poder decisivo, ainda que lhe dissesse respeito. "Confesso, devo admitir, que vossa proposta não me soa desprovida de sensatez." Agora havia um quê apaziguador e diplomático na língua. O fato duplamente histórico, de que ambos Aldanrae e Uthdon seriam em breve governados por mulheres, tornava as coisas mais interessantes. Talvez a Princesa julgasse mal Scylla Celtigar. "Permita-se experimentar o menu cuidadosamente confeccionado pela cozinha imperial do Solar." Era a deixa para que um homem bem-apessoado surgisse de uma das paredes do cômodo e explicasse detalhadamente os pratos: tudo finamente escolhido por Niamh. Ao final da explicação, após um gole refrescante de água, ela tornou a ocupar o espaço com a voz. "Diga-me, Princesa Scylla. Estou verdadeiramente intrigada a respeito de suas ambições de governança no país de Uthdon. Antes, porém, ofereço as minhas sinceras condolências pela morte do Rei⸺Perder..." Sua voz falhou, retornando num pigarro nada menor que elegante. "Um pai é desafiador. Mas o povo não espera. Como pretende avançar no desenvolvimento do país?"
Um sorriso satisfeito, ainda que contido, nasceu nos lábios da princesa ao ouvir as palavras da governanta sobre a pretendente de seu irmão. A inexperiência da mulher diante de Scylla era quase palpavel. Por mais eloquente que tentasse soar deixava escapar detalhes preciosos a cada frase.
“Não cabe à Lady Florent participar de tais negócios”? Que curioso. Até os prisioneiros, por vezes, são ouvidos antes da sentença. No entanto, aquela cujo pescoço fora oferecida em troca da paz não possuía sequer o direito de opinar sobre o próprio destino. Será que a via como um animal de estimação? Tudo lhe parecia muito ingênuo. Tolo.
Se dependesse de Scylla, a resposta àquela proposta viria em fogo e sangue. Afinal, oferecer uma mulher de casta inferior a um príncipe estrangeiro era, em essência, uma afronta velada, uma forma de declarar-se superior. A jovem à sua frente, porém, parecia ignorar tal insolência. Havia um orgulho cego em sua postura.
A ruiva ignorou completamente a comida na mesa. Em vez disso, dedicou-se a observar. Cada respiração, cada gesto, cada hesitação na voz e no olhar da governanta era meticulosamente analisado. Ah! Ao menos aquele olhar estava certo. Era satisfatório.
— Sim, uma perda de fato — respondeu, permitindo que o sorriso desaparecesse lentamente. — Mas não diria que nosso povo a sinta. Suponho que já tenha ouvido o título que lhe foi dado pelos habitantes — concluiu, desviando o olhar para o prato à sua frente. — Sendo sucinta, pretendo governar com pulso firme e a mente mais sã do que meu pai um dia teve. Honrar o legado do império.
Ela por fim tomou em mãos o cálice e bebeu um gole longo e demorado. Ao pousá-lo novamente sobre a mesa, ergueu os olhos, serena, mas atenta.
— E você? — indagou com aparente gentileza. — Como se sente sendo rainha após eventos tão conturbados? Imagino que haja muitos... desgostosos.