thisisnotwonderland--alice:
           ââ Cansaço era o que definia Alice naquele instante. Tudo era um caos. NinguĂ©m sabia exatamente o que estava acontecendo no mundo, mas intitulavam de âepidemiaâ. Nova York estava caindo, era o que diziam, a comunicação era escassa, as informaçÔes mais ainda, tudo que sabiam era que sair era perigoso e ficar era seguro. Alice duvidava, mas obedecia como todo mundo. Obedecia e tentava⊠Como policial, era a sua maior função manter a ordem, mas quando nĂŁo se sabia exatamente o que devia fazer, se tornava algo complicado manter a ordem. As pessoas perguntavam, exigiam saber o que estava acontecendo, alguns colegas de serviço chegavam na delegacia em choque dizendo ter topado com âaquelas coisasâ. Seja lĂĄ o que fosse aquilo, ela nĂŁo queria descobrir como e o que era. As paredes a sua volta nunca foram tĂŁo convidativas e embora ela fosse o tipo de policial que adorava atender ocorrĂȘncias, agora, ela sĂł queria nĂŁo ser chamada. Cada dia que voltava para casa era uma vitĂłria pois tinha a impressĂŁo de que qualquer abraço nos avĂłs poderia ser o Ășltimo.
           Agora deitada no quarto, nunca se sentia tĂŁo inĂștil quanto naquele momento. Queria poder saber mais, entender as coisas que estavam acontecendo, ajudar e poder assegurar a famĂlia de que tudo ficaria bem. Mas sĂł por aquele momento, precisava descansar. NĂŁo demorou muito atĂ© que seus olhos se fechassem, pesados do serviço do dia. Caiu na inconsciĂȘncia sem sonhos, na realidade, Ally quase nunca se lembrava dos sonhos que tinha quando acordava e em sua maioria sempre eram os pesadelos que ficavam em suas memĂłrias, mas quando a vida real jĂĄ era o prĂłprio pesadelo, nĂŁo havia porque se lembrar dos que tambĂ©m tinha durante a madrugada. No fim das contas, Alice deduziu que havia sim sonhado, os gritos que ouviu, distantes ainda, parecia vim de alguma lembrança, algum sonho. Demorou alguns segundos atĂ© abrir os olhos, acordando de vez e mais alguns segundos para notar que nĂŁo era um grito de uma lembrança ou um sonho e sim vindo da sala. Num pulo, Alice pegou a arma sobre a mesinha de cabeceira, saindo da cama e em seguida do quarto, passos rĂĄpidos e cautelosos levaram ela atĂ© a fonte dos gritos e a cena de horror que encontrou foi algo que ficou marcado para sua vida inteira.
          Haviam um total de trĂȘs pessoas na sala, uma delas imĂłvel no chĂŁo, coberta de sangue, um corpo masculino de olhos arregalados e com a barriga rasgada. O segundo corpo era um feminino que gemia, ainda consciente, mas a julgar, estava a beira da morte. De onde Alice estava nĂŁo dava para saber se o sangue no pescoço vinha do pescoço ou se era do corpo masculino, de todo o modo, nĂŁo importava, pois o terceiro corpo, vivo, estava debruçado sobre a mulher, se alimentando da outra. ââ M⊠Millicent? â Alice nunca chamava a mulher de mĂŁe, simplesmente porque nenhum laço fora estabilizado para tal ato. Sua voz fez com que a mulher deitada no chĂŁo, servindo de alimento a olhasse. Ela tentou falar, gesticular, mas nĂŁo conseguia. Alice notou que seu pescoço sangrava e a mordida ali era a causa principal de sua morte. Sua cabeça trabalhava como a de um policial, porĂ©m, estar envolvida sentimentalmente com a cena atrapalhava tudo. A coisa era que os corpos ali eram a sua famĂlia e Alice pela primeira vez nĂŁo sabia o que fazer. ââ Millicent, o que estĂĄ fazendo? M⊠MĂŁe! â exclamou, com um tom mais alto de sua voz que finalmente fez com que a mulher lhe olhasse, mas em nada parecia com Millicent.
          Estava pĂĄlida, o que realçava o sangue em suas vestes e boca. As entranhas da avĂł de Alice ainda em seus dedos. Millicent levantou do chĂŁo, cambaleando e rosnando, andando lentamente. Alice em mesma velocidade dava passos para trĂĄs. ââ Fique onde estĂĄ! Millicent, fique onde estĂĄ! â as lĂĄgrimas impediam que Alice visse direito o que estava acontecendo, o que obrigava-a a piscar forte algumas vezes, tentando limpar sua visĂŁo. ââ Eu mandei parar! Fique onde estĂĄ ou vou ter que atirar! â alertou, mas ela nĂŁo lhe ouvia, continuava andando, rosnando, com os braços estirados em sua direção. O primeiro tiro veio, acertando o corpo da mulher, mas aquilo nĂŁo a parou, apenas desequilibrou e logo ela voltou a andar em sua direção. Outro tiro e mais um. ââ PARE ONDE ESTĂ! â gritou, apertando o gatilho outras vezes, mas nada parava a mulher que estava praticamente em cima de si. NĂŁo soube da onde a informação veio, talvez uma lembrança de algum comentĂĄrio que algum colega fez, ela nĂŁo se lembrava, sĂł sabia, sabia que a cabeça devia ser o alvo. O tiro certeiro fez com que Millicent finalmente caĂsse no chĂŁo, parando o seu progresso, Alice observou a mulher totalmente mudada e que em nada se parecia com a mulher que havia lhe dado a luz.
          O quarto corpo que atingiu o chĂŁo foi o de Alice, sentada com as costas encostada na parte de trĂĄs do sofĂĄ. Sentia como se nĂŁo conseguisse respirar, o peito estava apertada e o coração acelerado, os olhos embaçados das lĂĄgrimas do desespero que tomava conta de Alice. NĂŁo soube quanto tempo ficou ali, encolhida no chĂŁo, sentindo o cheiro do sangue que era a sua sala. Tinha que fazer alguma coisa, mas nem ao menos conseguia pensar no prĂłximo passo e sĂł um nome veio a sua cabeça, alguĂ©m que, de um jeito ou de outro, lhe ajudava sempre que ela precisava. Esticou a mĂŁo, tentando alcançar o telefone na mesinha do lado do sofĂĄ, digitou os nĂșmeros e esperou chamar atĂ© que atendesse ââ Harry⊠preciso de ajuda. Pode⊠pode vir atĂ© a minha casa? â pediu, com a voz trĂȘmula e descontrolada, tanto do choro quanto do ataque de pĂąnico que começava a tomar conta de si e sĂł esperava que ele chegasse a tempo porque nĂŁo sabia se teria coragem de acertar o prĂłximo tiro. â â
            Ao findar de mais um turno, que tanto mudaria toda perspectiva do departamento de polĂcia de Savannah, Harry nĂŁo fora um dos que ficou para trĂĄs. Houve pedidos dos colegas, todos estavam sendo sobrecarregados devido aos cada vez mais frequentes incidentes ao redor da cidade e em seu centro, mas quando Harry invocou o final do seu plantĂŁo, houve poucas reclamaçÔes; ele sempre havia horas a mais que os outros mesmo em dias normais. Era imprescindĂvel para ele sair do departamento por algumas horas, mesmo que sua incapacidade de manter-se impassĂvel a uma situação como esta o levaria a ação de volta ao raiar do sol. O simples e pitoresco, porĂ©m confortĂĄvel apartamento que lhe pertencia, nĂŁo transmitia a mesma sensação de segurança de outrora, Ănfima era a vontade de ceder aos desejos corporais de um longo e resoluto sono, nĂŁo quando havia tanto a se pensar, refletir e desesperar. Caminhou a passos pesados, o som dos coturnos que utilizava como uniforme ressoando contra o assoalho em um quase unĂssono com a dor entre as tĂȘmporas, mas ao invĂ©s de desabar contra a confortĂĄvel espĂ©cime de cama que insistira em possuir, caiu sobre o sofĂĄ
           Em todos os anos que, envolto no metĂłdico e excruciante treinamento militar, repetindo movimentos e desenvolvendo o pensamento estratĂ©gico, com a rara oportunidade de ir Ă campo em uma atividade real e desafiadora, ansiava por uma ação, jamais podia imaginar que obteria o seu desejo de uma forma tĂŁo irĂŽnica, anos depois. O Buchanan nunca teve um momento duradouro de paz desde que atingira a idade adulta, disto poderia ter certeza, entre ingressar no exĂ©rcito para depois desistir do posto e ainda continuar sendo o filho de ouro aos olhos dos pais, a sua caça insistente ao Foakes, que sempre encontrava uma maquiavĂ©lica maneira de escapar por entre suas mĂŁos, frustrando-o ao ponto da insanidade. Havia pouco espaço para mais complicaçÔes, havia um limite humano para o quanto um homem era capaz de suportar sem explodir. A cabeça girava na tentativa de compreender exatamente o que estava acrescentando à lista de preocupaçÔes, os fatos ainda tĂŁo escassos e nenhuma confirmação do governo ou da sua equipe de especialistas lhe parecia acurada. Os policiais, que tinham que lidar com as criaturas diariamente e sempre que alguĂ©m estava em risco tinham em mĂŁos apenas a certeza da violĂȘncia e da capacidade de multiplicar dessas criaturas, ademais, estavam Ă s cegas.Â
           Em meio a pensamentos, os olhos desviaram ligeiramente ao aparelho celular, trazendo-o a mĂŁos, percorrendo um contato que jamais fora bloqueado mesmo com o desejo. Apesar das desavenças muitas vezes beirarem o limite da lei, Harry nĂŁo queria ver o irmĂŁo com o mesmo destino que as vĂtimas que falhara em resgatar; ainda era sangue do seu sangue, por mais desgovernado que o mais jovem Buchanan se mostrasse. O ritmado toque do aparelho cortou o silĂȘncio absoluto do apartamento foi a Ășnica coisa que o retirou de seus pensamentos e Harry moveu-se mais rapidamente do que vinha fazendo a jornada inteira ao apartamento, sobressaltado ao que algo poderia estar acontecendo justamente com o fraterno que ocupava seus pensamentos. NĂŁo era seu irmĂŁo, porĂ©m o nome identificado nĂŁo lhe acalmava em nada os nervos, pela situação que compartilhavam, imaginava que Alice estava tendo uma pĂ©ssima noite assim como ele. Atendeu-a antes que o segundo toque pudesse soar. â ââ âAlice? ââ â Levou uma das mĂŁos Ă tĂȘmpora esquerda, arregalando os olhos cerĂșleos ao identificar o profundo desespero na voz da colega de trabalho e amiga, o tremor na voz tambĂ©m denunciando um estado atĂpico e alarmante. â ââ Sim, claro, jĂĄ estou a caminho. NĂŁo ouse sair de onde estĂĄ. Eu jĂĄ estou chegando. ââ â â Respondia ao mesmo tempo que levantava-se e recolhia as chaves do carro e da casa.Â
           A jornada foi encurtada o mĂĄximo que pĂŽde, ultrapassar sinais vermelhos e entrar por atalhos impossĂveis nĂŁo era costumeiro de Harry, mas uma situação como esta permitia certo desespero. Encontrou o lugar em uma perfeita personificação do apocalipse, mais do que qualquer outra cena de crime que jĂĄ chegaram aos seus olhos. Por mais sangrentas e grotescas que fossem, nĂŁo possuĂam elementos familiares e identificĂĄveis por entre o liquido escarlate e destroços como a casa de uma conhecida. Em uma simples e visual vistoria, ao adentrar silenciosamente o local, podia reconhecer boa parte da mobĂlia que fora revirada ou manchada, seus lugares originais, assim como, imaginar tamanho desastre que havia sido. Os dedos circundaram um furo de bala na parede, recente pelo que podia ver, mas deixou as suas anĂĄlises para depois ao ouvir as ĂĄsperas inspiraçÔes de alguĂ©m no interior do recinto. â ââ âAlice? Alice, o que aconteceu, foi uma daquelas criaturas? ââ â Ajoelhou-se perante a outra, evitando tocĂĄ-la. Seu estado era catatĂŽnico demais e Harry sabia o que um toque indevido poderia acarretar a alguĂ©m que havia sofrido algum trauma e ainda estava sensĂvel. Pela visĂŁo perifĂ©rica, podia observar os corpos dos familiares de Alice, mas as perguntas eram apenas para despertĂĄ-la de seu desespero. â ââ Ei, vamos, vocĂȘ precisa sair daqui. NĂŁo sabemos se estĂĄ verdadeiramente morta ou se outros irĂŁo acompanhĂĄ-la, vamos para minha casa. ââ â Â