Envolta em uma neblina densa, sinto fraquejar a determinação e toda a certeza que depositei em minha jornada. Coração sangra, calejado e dolorido das reveses da vida. A dor fere como lâmina fria, a espada como vontade afiada, brilha sob o luar nesta noite. Acima das nuvens, sinto a coragem se dissipar e o meu sorriso contido apenas retrata uma programação articulada. Por que insisto em ser quem eu nĂŁo sou? Por que insisto em violar os meus princĂpios? Por que insisto em agradar olhares dissimulados? Por que essa insistĂŞncia em uma busca desregrada por reconhecimento e validação? O vento cortante e gĂ©lido rompe as divagações impertinentes e perturbadoras. As estações mudam, as estrelas giram, a terra permanece em silĂŞncio. Neste instante, estou liberando esse passado de ausĂŞncias. O vazio preenchido pela chama de um destino luminoso invade meu espĂrito atribulado e exausto. Fiz uma escolha e encontrarei o caminho de volta. De alguma forma, essa espada afiada foi a força necessária para cortar elos que aprisionam. Esqueça as dores cravadas em rochas desgastadas. Esqueça os sentimentos de injustiça pelos aplausos silenciosos, pelas conquistas desmerecidas, pelas palavras benditas jamais ditas, esquecidas nos arquivos do tempo. Elas ecoam pela eternidade, posso ouvi-las ao elevar meu pensamento Ă imensidĂŁo desse cĂ©u. NĂŁo tenho nada a declarar, nenhum legado a deixar, apenas a minha luz que aos poucos fui resgatando diante das batalhas travadas em terras interiores. Conquistei o direito por meu prĂłprio trono sagrado. As muralhas erguidas, hoje, sĂŁo para proteção de um coração dimensional que emana chama rosa aos que necessitam de seu amor. Toque e verá expandir sua luminosidade. Sinto cansaço, todavia. As ondas quebram na orla nesse lusco-fusco e eu me abstenho das reclamações costumeiras. Permito que lavem e levem toda essa inferioridade complexada em minha carne como um espinho de uma bela rosa que deveria agraciar com sua beleza e fragrância, mas fere inocentemente minha breve existĂŞncia. É determinante, feroz, corrĂłi sem dĂł. Gritos de angĂşstia sĂŁo ouvidos, revolto com tamanha injustiça, a escrita Ă© prejudicada pela incoerĂŞncia da mente cega. Como renovar as esperanças no porvir? Sem as amarras dessa raiva engasgada, alço voos maiores, pisando na prĂłxima constelação. Seria fuga ou ilusĂŁo? A alma sussurra o caminho já trilhado, o espectro assombra nas curvas e desatinos, um olhar doce converge para o mesmo amanhĂŁ prometido. Uma submissĂŁo como autopreservação, uma anulação como proteção, uma inexistĂŞncia como sobrevivĂŞncia. As cartas lançadas nesse espaço-tempo prevĂŞm que aquele sentimento de autodestruição na escuridĂŁo se dobra, enquanto o sol se alinha com os astros essa noite melodiosa. Está ao alcance das mĂŁos, nas notas compartilhadas do coração. Já nĂŁo sĂŁo mais bem-vindas palavras superficiais para amansar o velho ego. Já nĂŁo aceito, a despeito dos murmĂşrios e lamentos, as companhias descartáveis pela baixa sintonia. Já nĂŁo necessito de falsas congratulações para que o meu propĂłsito se firme, mantendo a convicção em meu horizonte dourado. Que voe para longe as incertezas, as inseguranças enraizadas, a autossabotagem tĂŁo caracterĂstica do medo de ser feliz, de uma lealdade familiar que devastou como praga o jardim florido do amor prĂłprio. Desponta de meu peito, assim como nesse raiar da aurora, uma luz cálida, porĂ©m quente o suficiente para acalentar uma existĂŞncia invisĂvel e queimar as velhas energias obscuras que rondavam essa noite escura da alma interminável.