Ontem no caminho
Inspirado por essa onda de calor no inverno, lembrei da minha adolescência. Eu era ainda mais magro, meu rosto mais liso, mas as linhas de expressão sempre foram presentes na testa que se dobram, potencializam meu espanto e uma cara de cachorro sofrido.Não sei como introduzir o que eu quero dizer, então vou ser direto.
Com uns 14 anos, estava em uma praia de Ilha Grande com os meus pais e vi uma imagem que vez ou outra volta a minha mente, e com certeza dorme no meu inconsciente. Um casal jovem, que devia ter uns 25 anos, talvez pouco mais que isso, provavelmente sob uma penumbra. Eles não trocavam nenhuma palavra entre si; ela dormia e ele lia um livro. Não lembro muito dela, a não ser que era um tipo meio Zona Sul, de cabelo loiro escuro, hippie chic, garota propaganda da Farm, mochilão pela América do Sul, antepassados argentinos. Ele não era muito alto, como eu, mas era forte, não muito magro, não muito fibrado, com os músculos naturalmente definidos, besuntado de suor que reluzia sobre um bronzeado leve, sob o Sol. Usava shorts e um RayBan Clubmaster, quando meu sonho era ter um. Usava algo roxo escuro que eu não consigo me lembrar; talvez a lente dos óculos, talvez os shorts, talvez o livro. O cabelo cortado bem rente, quase raspado, tipo um buzzcut. Acho que me chamou atenção como ele conseguia ter um cabelo tão simples e com tanta personalidade.
Observando os dois, sentia uma conexão muito forte entre eles, mesmo sem conversarem. Como uma paixão que não precisa ser dita, que se confia. Mas penso também que existia um desapego ideal, um respeito mútuo pela individualidade do outro, que se amava por isso, também. Também imaginei uma independência que me espantava e inspirava. Era possível ser jovem e livre, de um jeito que eu nunca havia sido. E não era querer muito — eu sou feliz com o simples. Uma liberdade sincera no amor, onde se faz tudo o que quer, e só se quer amar. Também imaginei sexo e drinks moderados, e isso foi tão importante quanto o resto; configurava uma elegância ainda maior. Por isso, eles eram como semideuses. Especificamente ele, a quem tentei me espelhar por tanto tempo, era como Perseu.
Eu consegui ser assim, um dia ou outro, uma foto ou outra, mas nunca uma semana inteira, um mês inteiro, uma vida inteira. Porque eu sorrio demais e sou bobo demais.











