Querido e gentil leitor,
Existe um tipo de silêncio que não é paz.
É exaustão.
Conheço a história de uma mulher que começou a medir as próprias palavras como quem pisa em cacos de vidro.
Não porque gritava.
Mas porque qualquer entonação era interpretada como ataque.
Ela tentava conversar como sempre conversou.
Com naturalidade.
Com verdade.
Com emoção.
Mas, de alguma forma, a voz dela sempre saía errada.
Se falava firme, era grossa.
Se questionava, reclamava.
Se suspirava, era ironia.
Se tentava explicar, estava exagerando.
Então ela aprendeu a fazer o que tantas aprendem:
ficar quieta.
Não porque não tinha o que dizer.
Mas porque tudo que dizia parecia se transformar em prova contra ela.
E o mais doloroso não era a discussão.
Era a sensação de estar sempre equivocada.
Sempre devendo compreensão.
Sempre precisando se ajustar.
Ela começou a duvidar do próprio tom.
Do próprio julgamento.
Da própria sanidade.
“Será que sou eu?” — perguntava em silêncio.
“Será que estou me tornando alguém difícil?”
“Ou estou apenas cansada de ser interpretada como vilã?”
Há dias em que ela acredita que é apenas uma fase.
Que o amor sobrevive a desencontros.
Que o tempo organiza o que hoje parece desajustado.
Mas há noites em que a dúvida é mais cruel.
Porque existe uma linha muito tênue
entre ser sensível
e ser silenciada.
Entre errar na comunicação
e começar a se anular.
Ela teme estar exagerando.
Teme estar doente.
Teme estar triste demais.
Teme estar sendo injusta.
Mas teme, também, algo ainda mais difícil de admitir:
E se não for exagero?
E se não for loucura?
E se, aos poucos, ela estiver sendo convencida
de que a própria percepção não é confiável?
O que dói não é apenas a fase difícil.
É a solidão dentro do diálogo.
É tentar falar e sair culpada.
É querer ser ouvida e sair corrigida.
Ela ainda acredita no amor.
Ainda espera que seja apenas um momento.
Ainda deseja que, se estiver errada, consiga enxergar.
Mas também deseja — com uma urgência silenciosa —
não precisar diminuir sua própria voz
para caber na paz de alguém.
Porque amor não deveria ser um tribunal.
E ninguém deveria precisar se tornar silêncio
para continuar sendo amado.
—
Com afeto contido,
Lady Valmont
















