Crôniqueira: Larissa Souza
Ao longo do nosso crescimento e desenvolvimento, recebemos uma educação social vinda de nossos familiares, da escola e das pessoas ao nosso redor. Aprendemos, desde cedo, quais comportamentos são considerados adequados para conviver em sociedade: como nos comunicar, nos vestir e agir em diferentes contextos. Afinal, nascemos inseridos em uma sociedade e precisamos dessa orientação para viver em coletivo.
Seguindo essa mesma lógica, hoje de faz necessário recebermos uma educação digital. Diferente da educação social, nós talvez não fomos realmente ensinado a viver no mundo digital. E quando falamos em educação digital, não estamos nos referindo apenas ao aprendizado técnico sobre como usar dispositivos, mas sim sobre como nos comunicar, nos comportar e utilizar a tecnologia de forma saudável e consciente.
Se existe uma preparação para o convívio social no mundo físico, não seria igualmente necessário existir uma orientação para o convívio no ambiente digital?
Quando pensamos nas gerações Z e Alfa, falamos de crianças, adolescentes e adultos que já nasceram imersos nessa realidade tecnológica. Muitos cresceram praticamente segurando smartphones desde muito cedo. Entretanto, esse não é o único grupo afetado pelo uso excessivo das telas. O que muitas pessoas ainda não percebem é que o problema também atinge a população senil. Cada vez mais, pessoas acima dos 60 anos têm sido impactadas pelo uso compulsivo de celulares e redes sociais, o que pode gerar prejuízos à saúde mental e aos vínculos sociais. Fatores como isolamento, solidão e falta de estímulos tornam os idosos mais vulneráveis ao uso excessivo das telas.
Esse cenário foi intensificado durante a pandemia da Covid-19, período em que muitas pessoas passaram a utilizar o celular como uma forma de preencher o tempo e buscar conexão social. Segundo Francine Mendonça, neurologista da Beneficência Portuguesa (BP) de São Paulo, o celular acaba funcionando como uma tentativa de reduzir a sensação de solidão.
Além disso, o envelhecimento natural do cérebro, especialmente do Córtex Pré-Frontal, área relacionada ao autocontrole e à tomada de decisões, pode dificultar a percepção dos excessos e a capacidade de impor limites ao uso da tecnologia. Muitas vezes, esses comportamentos são percebidos primeiro por familiares e amigos.
Estudos nacionais e internacionais já identificam casos de nomofobia em pessoas com mais de 60 anos. O termo deriva da expressão em inglês “no mobile phone phobia” e se refere ao medo irracional de ficar sem o celular ou sem acesso à internet. Embora ainda não seja classificada oficialmente como um transtorno, a nomofobia pode indicar um uso exagerado e uma possível dependência tecnológica. Entre os sintomas mais comuns estão ansiedade, taquicardia, angústia e medo intenso ao ficar longe do aparelho.
Como ocorre em qualquer processo de dependência, o uso excessivo começa a ocupar espaços importantes da vida do indivíduo. Aos poucos, as atividades, relações e interesses perdem espaço para o celular. Diferente da dependência química, porém, o tratamento da dependência tecnológica possui uma complexidade maior, já que não é possível eliminar totalmente o uso dos dispositivos digitais, por motivo de que grande parte das atividades cotidianas funciona de maneira online: bancos, INSS, serviços, comunicação e interações sociais.
Em entrevistas sobre tecnologias, pessoas idosas relatam satisfação ao perceberem que desenvolveram habilidades digitais e conquistaram mais autonomia. A praticidade de resolver problemas sem sair de casa representa um grande avanço para uma geração que passou décadas precisando enfrentar filas em bancos e lotéricas.
No entanto, precisamos olhar com cuidado e atenção para os riscos desse uso excessivo nessa população. A solução não está em retirar a autonomia dessas pessoas ou proibir o uso da tecnologia, mas sim em promover conscientização e equilíbrio.
Assim, surge uma questão importante: se estamos falando de um vício, como esperar que o próprio usuário perceba sozinho os prejuízos causados por esse excesso? E como familiares e profissionais podem manejar essa situação de forma cuidadosa e acolhedora?
Diante dessa realidade, iniciativas como o Instituto DELETE surgem com o objetivo de promover essa educação digital para a população que falamos no início. O projeto é vinculado ao Instituto de Psiquiatria da UFRJ, oferecendo avaliação, orientação e tratamento para usuários com uso excessivo ou dependência tecnológica, além de apoio às famílias. O trabalho inclui intervenções psicológicas e psiquiátricas, buscando não apenas ensinar as pessoas a utilizar a tecnologia, mas principalmente orientá-las sobre como utilizá-la de forma saudável.
Por fim, é fundamental olharmos com atenção para a população senil, que, muitas vezes, enfrenta esse processo sem orientação adequada. Dessa forma, a educação digital não se resume apenas ao aprendizado técnico, mas também ao desenvolvimento de consciência, equilíbrio e responsabilidade diante das tecnologias que fazem parte da nossa vida cotidiana.













