DEZEMBRITE:
Um Fenômeno Coletivo de Burnout Existencial?
Crôniqueira: Kenya Nascimento
O final do mês de dezembro chega sempre como um espelho cruel. Não reflete apenas o fim do calendário, mas tudo aquilo que acreditávamos que deveríamos ter sido, ter vivido, ter conquistado. É o mês dos balanços, das metas não cumpridas e do pensamento silencioso (porém persistente) que pesa em nossa consciência:
_ Fiz o máximo que pude, mas ainda assim não foi o suficiente.
Essa frase não nasce do vazio, mas sim, se constrói em um contexto sociocultural que associa valor humano à produtividade e à performance. Christina Maslach, psicóloga social americana pioneira nos estudos sobre Burnout, já apontava que a síndrome emerge quando há um descompasso crônico entre o indivíduo e as demandas do trabalho, especialmente em ambientes que exigem alta performance sem oferecer recursos emocionais e organizacionais suficientes.
É também nesse terreno que a dezembrite se instala: não como diagnóstico, mas como um marcador temporal de sofrimento psíquico, intensificado pelo encerramento simbólico do ano.
Mas afinal, o que é "Dezembrite"?
Dezembrite é um termo popular usado para descrever um conjunto de alterações emocionais e psicológicas que muitas pessoas relatam sentir no mês de dezembro, especialmente nos últimas dias do ano. Não é um diagnóstico oficial em manuais médicos ou psiquiátricos como o DSM-5 ou a CID, mas sim uma forma de nomear um padrão sazonal de tristeza, ansiedade, estresse, melancolia e sensação de sobrecarga emocional que se intensifica nesse período. Portanto, NÃO é uma psicopatologia oficialmente reconhecida, mas refere-se a um fenômeno empírico associado a aumentos relatados de reflexões emocionais intensas que podem gerar sofrimento subjetivo para muitas pessoas. Esse padrão tem apoio indireto de dados científicos e pesquisas sobre estresse e humor sazonais, mesmo que o termo em si ainda não seja formalizado na literatura acadêmica.
🧠🔥 Burnout: O corpo grita o que a mente ignorou
Já o Burnout é uma síndrome reconhecida cientificamente e se desenvolve de forma progressiva e debilitante. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), na CID-11, trata-se de um fenômeno ocupacional resultante de estresse crônico no trabalho que não foi adequadamente gerenciado, caracterizado por três dimensões centrais: exaustão emocional, distanciamento mental ou cinismo em relação ao trabalho e redução da eficácia profissional.
Os sinais corporais podem se manifestar por meio de dores de cabeça, tensões musculares, distúrbios do sono e gastrointestinais, e muitas vezes, antecedem o colapso psíquico. O corpo avisa. A cultura da produtividade ignora. Então a mente explode!
Essa “explosão” não é fraqueza individual, mas resultado de uma violência simbólica cotidiana, como descreve Christophe Dejours, médico e psiquiatra francês, considerado o pai da Psicodinâmica do Trabalho, ao analisar as novas formas de sofrimento laborais. Para o autor, o modelo contemporâneo de organização do trabalho transforma o sofrimento em algo invisível, naturalizado e, muitas vezes, glamourizado pelo próprio trabalhador. _Quem aqui nunca elogiou ou foi elogiado por ser o primeiro a chegar ou o último a sair do turno da empresa, ou ainda, por fazer horas extras ininterruptamente?
💔🔥 Do desgaste físico à exaustão psíquica
A história do trabalho revela uma transição clara: do esforço físico para a sobrecarga psíquica. A hiperconectividade, a ausência de limites entre vida pessoal e profissional e a exigência de disponibilidade permanente instauram uma mente que nunca descansa.
Christophe Dejours também aponta que o sofrimento contemporâneo no trabalho não está apenas na sobrecarga de atividades, mas na impossibilidade de expressar, simbolizar e elaborar esse sofrimento, levando ao adoecimento psicológico. Por outro lado, Viktor Franklneuropsiquiatra austríaco, fundador da logoterapia, e autor do famoso livro "Em Busca de Sentido", nos oferece uma chave fundamental para compreender o adoecimento que vai além dos manuais diagnósticos. Para Frankl, o ser humano não adoece apenas pelo excesso de exigências, mas pela ausência de sentido nelas. Quando o trabalho se torna apenas obrigação e forma de sobrevivência, o sofrimento perde sustentação psíquica. Dessa forma, se o que fazemos tem um sentido para nossa própria existência, somos capazes de suportar qualquer experiência difícil.
🎄🎆 Quando até o descanso vira obrigação social
E se o ano já termina em exaustão, dezembro ainda impõe um último esforço: estar bem, presente e disponível nos vários eventos sociais.
Confraternizações familiares, festas corporativas, encontros entre amigos, encerramentos acadêmicos. Logo, a agenda enche justamente quando o corpo já não aguenta mais. O fato é que existe uma expectativa social velada de que dezembro seja alegre, afetivo e celebrativo. No entanto, o que acontece quando o sujeito só consegue sentir-se cansado de tudo?
Para quem já atravessou um ano de sobrecarga emocional e laboral, essas exigências sociais não funcionam como momentos de alegria, mas como extensão da performance.
"É preciso sorrir, interagir, justificar ausências, sustentar conversas e afetos quando o repertório psíquico já está esgotado."
A exaustão emocional não se restringe ao contexto profissional, ela também contamina as relações interpessoais, reduz a capacidade de envolvimento afetivo e favorece o distanciamento. Nesse sentido, enquanto o convívio social deveria ser fonte de apoio, acaba se tornando mais um fator de desgaste.
Há ainda um componente de culpa socializada: recusar convites é interpretado como frieza, ingratidão ou desinteresse. Descansar vira algo que precisa ser explicado, negociado, quase autorizado. O sujeito não apenas está cansado, ele se sente inadequado por estar cansado.
"Nesse cenário, a dezembrite se intensifica. O fechamento do ano não oferece recolhimento, mas exposição. Não há tempo para elaborar perdas, frustrações ou lutos simbólicos. Tudo precisa ser vivido sob a máscara da celebração."
No fim, o que muitos desejam não é mais uma festa, mais um brinde ou mais um discurso motivacional. É silêncio. É pausa. É o direito de não estar disponível. Portanto, reconhecer esse cansaço não é sinal de fracasso emocional, mas de escuta ao próprio corpo quiçá à própria alma. E talvez este seja o gesto mais saudável de dezembro: não celebrar e permitir-se descansar sem culpa.











