O interesse pela própria mente
Obra: Fucking Brain
Artista: Ilya Filatov
Filatov é um pintor russo relativamente jovem. Sua própria descrição da obra em questão, numa tradução livre, diz o seguinte:
“Nós somos nosso cérebro. Nós somos o que consumimos. O consumo incessável de informação, fitas de rolagem (obs: aqui, imagino que se refira às rolagens automáticas das redes que frequentamos de forma virtual), causam “dopamina barata” (um neurotransmissor que causa o sentimento de satisfação, amor e afeto). Devido à abundância de informação em nosso ambiente, o cérebro (nós) atende às suas necessidades utilizando cada vez menos conexões neurais no córtex. Orgasmos e prazer infinitos. Nós perdemos a habilidade de pensar.”
Se a obra me interessou, a descrição dela me fez nutrir um sentimento ainda maior pela imagem.
Acredito que suprir superficialmente as necessidades que achamos que temos, sem necessidade de maiores questionamentos e sem nos aprofundar em nossa consciência deixa uma série de sequelas que aparecem mais tarde, e que por vezes nos deixa perdidos e numa sensação de total desconhecimento da própria mente.
Passamos então, a ter medo das nossas consciências, sem nos dar conta disso.
Esse medo pode vir disfarçado em medo de sensações, em alguns casos. Aqueles que já tiveram uma crise de pânico, por exemplo, costumam entender muito bem o que é ter medo de uma sensação, que pode vir “do nada”, sem avisos prévios. É quando começamos a nos questionar de onde isso veio... E, o fato é, sempre veio de algum lugar, ao contrário do pensamento comum de “nunca senti isso, aconteceu do nada”.
É comum nesses casos que as pessoas passem também a identificar gatilhos desses sentimentos (que podem ser muito variados, apesar de ter dado como exemplo as crises de pânico). Passamos, então, num primeiro momento, a evitar esses gatilhos.
Mas será que essa é a saída?
Pra mim, ter medo de uma sensação que a sua mente pode te trazer é, de certa forma, ter medo da sua própria mente.
Hoje me questionei sobre os motivos que me levaram às práticas meditativas e me ocorreu que, embora tenha iniciado a prática do zazen por volta de junho deste ano, tentei outras formas de meditação um tempo atrás, apesar de ter dado menos importância pra isso na época.
No ano passado tive várias experiências um tanto traumáticas, que desencadearam vários sentimentos que me abalavam muito, e dos quais tinha medo.
Em dado momento, morando em outro estado, longe de tudo o que eu conhecia e tendo que lidar com diversas situações estressantes no âmbito profissional, eu decidi que eu não iria mais ter medo da minha própria mente.
Eu percebi que tinha medo da minha própria consciência não por identificar o medo de certas sensações, mas porque percebi que quando me deparava com algo que dizia “trazer mais conhecimento sobre a mente” ou qualquer tipo de aprofundamento nesse sentido - aqui, incluídas as meditações - eu evitava de imediato tal prática. Porque, pra mim, se eu me aprofundasse mais na minha mente ia encontrar várias coisas que desencadeariam em mim todas aquelas sensações desagradáveis das quais tentava me afastar incansavelmente.
Estando em situações extremamente atípicas das que eu conhecia, numa cidade grande e tendo passado tudo o que passei meses antes, me dei conta de que ter medo da minha mente era ter medo de tudo. Afinal, ela fazia parte de mim, e se eu tivesse medo de mim mesma, eu teria medo de tudo.
Nesse momento adquiri o hábito de fazer meditações guiadas todas as noites.
Normalmente eram práticas pra dormir, e eu não me cobrava em termos de regularidade ou resultados.
Até pouco tempo eu não tinha pensado sobre isso, mas a verdade é que essas meditações guiadas foram práticas que realizei durante um ano antes de conhecer o zazen.
Antes das meditações guiadas - e até um tempo depois de realizá-las - as meditações silenciosas me pareciam muito distantes, quase impossíveis de se realizar.
Hoje vejo essa visão em quase todas as pessoas pra quem comentei estar praticando zazen. “Eu nunca conseguiria”, “eu sou muito ansioso pra isso” e “não consigo ficar sem pensar” são frases que ouvi com muita frequência. E as compreendo bem, afinal sempre fui uma pessoa ansiosa também.
Mas, quando paramos pra refletir, não é totalmente bizarro nós, seres humanos conscientes que somos, acharmos uma coisa quase impossível se sentar em silêncio e presentes no momento em que vivemos? Percebe como isso deveria ser natural mas o meio em que vivemos e a rotina que construímos pra nós faz com que a calma seja algo tão fora da nossa realidade?
Nossos maiores medos estão associados ao desconhecido.
Se conhecermos nossas mentes, é tão mais fácil discipliná-las e, portanto, parar de temer situações e emoções.
Eu não quero ter medo de mim, eu não quero ter medo de nada, porque tudo aqui faz parte da nossa experiência como ser humano, numa vida finita e mutável que se estende diante de nós por menos tempo do que nós achamos.
E não ter medo e ter conhecimento de si mesmo e de tudo o que se estende diante de nós ao longo da vida não é fácil.
Não é como se, à partir do momento em que você incluir meditação ou qualquer outro meio de autoconhecimento, o seu cérebro entenda que você está no comando e passe à obedecê-lo. É necessário treino e monitoramento constante e váaaaarios dias em que você quer largar tudo e só cair na ignorância, porque parece mais natural.
E aí é meu dever me lembrar: eu quero controlar minha vida, meu corpo e minhas emoções ou ser controlada por eles?
Nada que vale a pena é fácil.
Lute um pouco.
“Greater in battle
than the man who would conquer
a thousand-thousand men,
is he who would conquer
just one —
himself.
Better to conquer yourself
than others.
When you've trained yourself,
living in constant self-control,
neither a deva nor gandhabba,
nor a Mara banded with Brahmas,
could turn that triumph
back into defeat.”
Tradução:
“Maior em batalha
que o homem que seria capaz de conquista
mil e mais mil homens,
é aquele que seria capaz de controlar
apenas um —
a si mesmo.
É melhor conquistar a si mesmo
que outros.
Quando você se treinou
vivendo em constante autocontrole,
nem um deva* nem um gandhabba*,
nem um Mara* unido à Brahmas*,
poderiam tornar esse triunfo
em uma derrota.”
Notas:
*Deva: ser não humano, que vive mais e de forma mais satisfatória que os seres humanos;
*Gandhabbas: seres celestiais, devas de escalões mais baixos;
*Mara: é o oposto de Buda, pode se assemelhar à figura de um demônio, representa a ilusão. É um mara que tenta dissuadir Buda do caminho da iluminação;
*Brahmas: deuses.