Aquele quartinho mequetrefe do bordel não era o ambiente ideal para um reencontro, mas no momento tinha tudo o que Vincent esteve desesperado atrás nos últimos dois dias, e essa era a única coisa que importava de verdade. Ainda estava indignado, é claro, por ele ter escolhido justo aquele lugar, mas isso não mudava o alívio que era poder vê-lo de novo. Tadhg estava vivo — aos pedaços, mas vivo, e no momento sua prioridade era remendá-lo. Vê-lo sorrir pela primeira vez o amoleceu mais um pouco, a ternura no toque traçando seu rosto o pegando desprevenido. O olhar desceu até o colar que ele tocou, só então entendendo o que ele queria. Vincent segurou o pingente do colar entre os dedos, alisando de leve a pedra fria que há muito tempo havia transformado num amuleto, a incerteza pairando no ar por um momento. Imaginava que sua identidade estaria segura ali, mas era a primeira vez que via Tadhg depois de tanto tempo longe, e ele sabia que não estava no melhor da sua aparência. Tinha olheiras por não estar dormindo direito ultimamente, estava pálido pela quantidade de sangue que andou usando nos rituais e com diversas manchas do demônio que estava cada vez mais difícil manter sob controle. Pela primeira vez, se sentia mais seguro na versão plebeia. Com Tadhg mais quebrado do que ele, queria parecer inteiro e capaz; ser o homem que de alguma forma foi julgado como digno de montar Eldritch, mas que na verdade sequer se sentia digno dos anéis que usava ultimamente.
Apesar da hesitação, optou pela honestidade: tirou o colar devagar, evitando os olhos dele enquanto os dedos se ocupavam com o fecho. A imagem de plebeu qualquer foi substituída pela de príncipe imperfeito, deixando-o com a sensação que estava um tanto quanto exposto, mas não com vontade de recuar. ── Quase enlouqueci atrás de você. ── confessou, deixando as testas se tocarem, o curto espaço entre os dois criando uma atmosfera única; um universo próprio onde finalmente estavam a salvo, porque tinham um ao outro. O rosto dele se encaixou perfeitamente entre as mãos de Vincent, a ponta dos dedos manchados deslizando suavemente pela barba áspera. Tinha medo de perdê-lo novamente — pior ainda: de perdê-lo sem nunca ter dito que Tadhg agora significava tudo para ele. Fechou os olhos quando os lábios se tocaram, permitindo que sentisse o gosto do álcool que vinha dele. O perdoaria mesmo que ele tivesse levado alguém pra cama, mas não o deixaria saber disso. Ainda segurava o rosto dele com uma das mãos quando se afastaram, o toque terno se tornando mais firme, a doçura rapidamente substituída pela seriedade com que o encarou. ── Da próxima vez, venha até mim primeiro. ── Esperava que não houvesse outra, mas a ordem tinha que ser dada.
Quando o pincel foi arrancado e levado para longe de suas mãos, Vincent franziu o cenho, achando a negativa um tanto quanto extremista. Era nítido que Tadhg não estava nada bem, e o príncipe não esperava que ainda assim ele fosse capaz de negar algo que, caso funcionasse, certamente o traria alívio. Como ele demonstrou sentir dor quando desenhou as letras em sua mão, sabia que o álcool não podia tê-lo anestesiado a esse ponto. Temeu que o motivo da resistência fosse porque tinham usado magia contra ele, mas ver a tentativa de varrer o quão ruim estava levou sua desconfiança para outro lugar. Então, estreitou os olhos para ele. ── Você acha que eu não consigo? ── perguntou, ofendido. E daí que sua magia não estava no seu melhor estado ultimamente? Quebrado ou não, ele ainda era um khajol! O incidente no casamento não deveria defini-lo desse jeito.
Não sabia se Tadhg o julgava como burro, incapaz ou como os dois, mas aquela pose não o enganava nem um pouco. O encarou com desconfiança, se perguntando o que exatamente passava por aquela cabecinha, até que o viu contornar a tatuagem que tinha adquirido durante sua ausência, a curiosidade evidente. Aquela era uma novidade no mínimo interessante, ele sabia. ── Eu não sou parte feérico. ── Achou importante esclarecer, como se aquela fosse a questão fundamental que obviamente passaria pela cabeça dele ao se perguntar como diabos o príncipe havia se tornado o único khajol a montar um dragão. Só então se deu conta que poderia acabar o ofendendo sem querer — ainda dava muitos deslizes no jeito que falava sobre os changelings, mas tentava ter mais cuidado com Tadhg. ── Bom… Parece que vocês não tem mais algo de tão especial assim, huh? ── Ergueu uma das sobrancelhas para ele, o provocando com o ar irritante de superioridade que ainda faria muitos changelings ponderarem sobre se acabar indo preso por socá-lo seria mesmo tão ruim assim. ── Aconteceu muita coisa enquanto você esteve fora. Muita mesmo ── começou, vendo-o se acomodar na cama. Tinha muito para contar, porque Eldritch não era a única novidade que ele perdeu, embora certamente fosse a mais empolgante. O príncipe enfiou o colar com o amuleto na bolsa e a largou no chão logo ao lado da cama, deixando o pobre seon sair de dentro dela para flutuar livremente ao seu redor. Em seguida, tirou as botas, usando os pés para empurrá-las pelos calcanhares até que se soltassem, as abandonando no chão para poder se juntar a Tadhg.
── Eu o vi num sonho antes do ataque acontecer. Eldritch. E quando ele me chamou de verdade, foi tão estranho, mas pareceu tão certo ── Era parecido com o que tinha acontecido com Tadhg, cujo destino claramente traçou o caminho até ele, e por isso o fascinava. Se arrastou até ele, se sentado logo ao lado, mas escolheu continuar de frente para poder vê-lo melhor, as palmas da mão espalmadas no colchão, cada uma para um lado do corpo dele, de forma que o prendia no seu alcance. Com o corpo inclinado em sua direção, Vincent o encarou, seus olhos se iluminaram com um fascínio evidente. ── Alguma vez você já imaginou que isso seria possível? Um khajol montar um dragão? Porque eu não, e olha que minha ambição é das grandes ── Aquilo abria tantos caminhos diferentes na vida de Vincent que ele ainda se sentia meio atordoado com o quão repentino foi a mudança que mudou o eixo de tudo. Tudo ainda parecia muito estranho, mas só o fazia ter mais certeza que seu destino era mesmo ao lado de Tadhg, porque agora isso seria possível inclusive voando entre as nuvens. O loiro subiu com uma das mãos para tocar o rosto dele, um tanto reflexivo, distraído com o movimento dos dedos traçando sua mandíbula. ── Eu teria morrido se minha magia falhasse quando ele me atirou na serpente gigante. Acho que não era a hora ainda. ── Tinha um palpite do porquê, mas talvez fosse meloso demais dizê-lo em voz alta. O disse com os olhos primeiro. ── Eu precisava ver você de novo. Sei que acabou assim pra me proteger.