São as águas de março fechando o verão
É a luz da manhã, é o tijolo chegando. Tom Jobim criou o hino do mês um tanto deprimido, no meio da construção de uma casa
Tão difícil quanto passar este mês com os pés secos, sem pegar um resfriado e deprimida pelo fim do calor é não se lembrar dessa música a cada temporal. Mesmo com aquecimento global e el niño, o melancólico e úmido desfecho da estação continua igual ao de 1972, quando Tom Jobim compôs Águas de Março no seu sítio em Poço Fundo, subdistrito perto de Petrópolis onde a família dele sempre passou férias.
É Pau, é pedra Enquanto a sua casa principal ainda estava em construção, Tom ficava numa menor ao lado, de pau a pique. Por isso a música fala em tantos objetos de obra: pau, pedra, prego, viga, o projeto da casa, o tijolo chegando. A música que expressa um dia chuvoso, empacado, mistura muitos elementos da temporada do músico ali (lenha, lama, carro enguiçado) com elementos da natureza local (peroba, sapo, ribanceira, nó da madeira) e, ainda, coisas da memória afetiva do Tom no lugar, onde desde pequeno caçava passarinho e conversava com a gente do campo. Tem também os itens do folclore brasileiro, como a festa da cumeeira e o tal Matita Pereira, que só agora descubro o que é: uma assombração nacional. Além dos contrastes metafísicos e naturais: vida, morte, sol, noite, fim do caminho, promessa de vida.
É o fim do caminho Na época, o autor andava deprimido. Tinha cortado o álcool e o cigarro, depois de uma prensa do médico, que teria dito que ele podia morrer se mantivesse os hábitos. Também temia acabar a carreira sem outros sucessos além de Garota de Ipanema, segundo relatos da irmã, entrevista do filho e ele próprio, em depoimento à Playboy. Os anos 70 não eram tempo de bossa nova. É o fim da canseira Tom teve sem querer a ideia da melodia e das primeiras palavras ao observar um riacho, já de madrugada, depois de um dia exaustivo de trabalho na canção Matita Perê. Anotou tudo num papel de desenho das crianças ou, talvez, num embrulho de pão (cada um conta de um jeito), acordou a irmã, o cunhado e a mulher para mostrar a feita e, de volta ao Rio, deu os toques finais, com o piano. Sabia que nascia um clássico e tocava pra todos que encontrava, conta Sérgio Cabral em Antônio Carlos Jobim - Uma Biografia.
As análises sobre “o samba mais bonito do mundo”, como uma vez classificou Chico Buarque, falam da água como metáfora de renascimento, além da toada simples e crescente como uma tempestade. Na capa do Disco de Bolso, brinde do Pasquim onde a música foi lançada ainda sem a voz de Elis Regina, Tom citou como inspiração um trecho do poema O Caçador de Esmeralda, de Olavo Bilac: "Foi em março, ao findar da chuva, quase à entrada / do outono, quando a terra em sede requeimada / bebera longamente as águas da estação (...)"
É a chuva chovendo A propósito, o sítio que estava em construção na época da composição não existe mais. Ironicamente, foi levado por enxurradas, nas chuvas de janeiro de 2011. Tem chuva que não está pra brincadeira.
Natália Pesciotta, março de 2016















