Se eu disser pra vocĂȘ que hoje acordei triste, que foi difĂcil sair da cama, mesmo sabendo que lĂĄ fora o dia estava azul e que tinha mais um dia a ser vivido e o cĂ©u sorria, mesmo sabendo que deveria viver, acordei triste e tive preguiça de cumprir com as obrigaçÔes que faço sem nem prestar atenção no que estou sentindo, como tomar banho, me vestir, ir pro trabalho, â se eu disser que foi assim, o que vocĂȘ me diz? Se eu lhe disser que hoje nĂŁo foi um dia como os outros, que nĂŁo encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha falta de vontade de viver, que hoje levantei devagar e tarde e que nĂŁo tive vontade de nada.
A verdade Ă© que eu nĂŁo acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, estĂĄ tudo normal, mas ao mesmo tempo nĂŁo estĂĄ.
Aqui dentro tudo se remexe e se embrulha, as borboletas no estĂŽmago foram massacradas pela poeira e hoje voam tortas, tentando achar um feixe de luz pra se salvarem.
Estar triste é atentar a si mesmo, é estar desapontado com alguém ou comigo mesma, é estar um pouco cansada de certas repetiçÔes, é descobrir-se frågil num dia qualquer, sem uma razão aparente. Mas e quando a poeira te sobe os pulmÔes e sufoca sua alma? Te escurece ao ponto de não ver mais nada, não entender mais a si mesmo, se culpar e cansar de se sentir culpada.
Sentimento tão escuro e denso que te cobre ao ponto de não desejar se ver, ter repulsa ao se olhar e mesmo se obrigando a "se sentir" bem nunca ser suficiente, não sentir desejo no outro refletido no mais puro nojo de si mesmo, no ódio da própria pele, na repulsa da própria casca, olhar pra si mesmo e querer arrancar o couro e ver sangrar até o vermelho cobrir o negro.
Odiar a pele e a alma por um passado rasgado.
A tristeza que te faz pensar todos os dias de manhĂŁ o porque continua tentando sair da cama quando a Ășnica coisa que quer Ă© se afundar mais ao ponto se fazer parte da mesma e nĂŁo precisar nunca mais olhar pra nada nem ninguĂ©m.
A tristeza que te domina ao ponto de se transformar em raiva, nem sempre dos outros, mas sempre de si, Ă© nĂŁo saber soltar e senti-la como chiclete que gruda na sola do sapato no meio da rua.
A poeira que me come diariamente de dentro pra fora, encobrindo tudo e cada vez mais diminuindo o campo de visĂŁo.
O assoprar contĂnuo, a dificuldade em afastĂĄ-la, a dĂșvida constante:
O que eu fiz pra deixar ela entrar? Como deixå-la ir? Se eu prender a respiração ela vai embora?
Ou mais fĂĄcil seria deixar que tome conta?
O ruim da poluição é que ela não atinge um só, o efeito sempre pega o outro, e como limpar o ar?
DifĂcil respirar quando nĂŁo se enxerga o norte.















