A recepção transcorria sem maiores intercorrências. Anestesiado pelo álcool, Andras já havia deixado de se importar com o que os convidados ou a irmã pensavam a seu respeito, focando-se em aproveitar o evento a seu modo. Estava cedo demais para simplesmente ir embora, e supunha que ainda tinha algumas obrigações para cumprir com a família postiça antes de se retirar. Não sabia que odiava tanto casamentos até que fosse obrigado a permanecer no de Tereza, e não havia comparecido a muitos, de qualquer forma. Sempre mantido nas sombras, o protegido de Hades não era uma pessoa tão pública quanto o restante dos Cronin. Não era como os príncipes que estampavam os jornais e os periódicos de seus países de origem. Aliás, para começar, não era um príncipe, e isso explicava muito de seu anonimato. Contudo, era impossível não reparar na presença perturbadora do bastardo de Gavin, sempre a pairar como um fantasma a cada evento oferecido pelo rei. Era conhecido, mas não ao ponto de ser reconhecido. Seus pais não veriam naquele homem taciturno e recoberto de cicatrizes o Dougal que perderam há anos. Ademais, para pessoas que já haviam internalizado que o filho estava morto, era difícil, de uma hora para outra, passar a considerar a possibilidade de um estranho em muito se assemelhar a ele.
Callum era obrigado a evitar os Windsor, como em qualquer evento em que a família real inglesa estivesse presente. Sabendo que George e Celeste estariam na área oposta do palácio ––– mais adeptos do sossego e da calmaria –––, ele se deslocou até o conglomerado de pessoas que se remexia à batida do DJ contratado pelas rainhas-mães. A música era menos ruim do que a tocada pela banda que ocupara o palco principal momentos antes, mas Andras não estava no clima para diversão, e nunca fora afeito da dança em si, com exceção da de salão, tão cara a membros da realeza. Sempre era uma boa oportunidade para analisar as garotas do instituto galês, entretanto, que se movimentavam quase que sem pudores diante da batida. Tão fácil fazer com que percam a compostura, pensou, negando com a cabeça –––– não que se importasse realmente. O misto de álcool e corpos suados implantava a ideia de liberdade ––– e libertinagem –––– nos herdeiros, fazendo com que se sentissem confortáveis para fazerem o que desejassem. Alguns gostavam de chamar a atenção, simplesmente, ignorando o fato de que algumas coisas poderiam ser mais vergonhosas do que propriamente ‘cools’.
Havia uma pessoa, contudo, que parecia imune ao termo inconsequência. Sempre tão centrada e controlada, Helena Meincke era o ideal de princesa. Andras suspeitava que havia um quadro dela nas oficinas de etiqueta, mas isso era apenas suposição. Não tardou a encontrá-la no exíguo espaço, embora tenha se mantido a distância dessa vez, analisando-a enquanto bebericava do copo de whisky que não abandonava suas mãos ––– era um grande feito, aliás, que ainda não estivesse bêbado.
Até mesmo o modo de dançar era contido, a princípio, vez que a dinamarquesa conhecia os limites dos bons modos, e jamais se exaltava. O Cronin se perguntava se ela não sofria de extremo tédio quando a loira iniciou movimentos não usuais, como se algo na atmosfera tivesse mudado. Um franzir de cenho foi tudo o que o bastardo esboçou à medida em que a Meincke remexia-se; era como se tivesse sido possuída por alguma entidade; como se estivesse fora do próprio corpo. Suas feições, as quais alternavam entre dureza e pacificidade na maior parte dos dias, também haviam se transmutado em algo mais animalesco, devasso, carnal ––– ele não sabia definir. A verdade era que a imagem chegava a ser perturbadora, ao mesmo tempo em que o instigava a fazer coisas que ainda não havia considerado fazer com a princesa. Diabos, chegara a pensar que ela era frígida! Como poderia vê-la naquelas condições e não pensar imediatamente em sexo? Era uma mudança um tanto radical, que o scion não tinha certeza ao que se devia.
Sua boca se escancarou ao ver que a protegida de Sif decidira dançar com todos os espécimes do gênero masculino na pista de dança, fazendo movimentos que causavam grandes estragos à sanidade de um homem. Callum quase podia ler a mente deles, mas não era preciso de muita habilidade para decifrar aqueles sorrisinhos sacanas que surgiam nos rostos masculinos. Ele próprio esboçara muitos semelhantes àqueles sempre que se via em situação parecida. Todavia, agora os enxergava com verdadeiro asco. O que ela estava fazendo, exatamente? Havia bebido todo o estoque de champanhe do casamento? Era tão suscetível ao álcool? Era simplesmente louca e ele não sabia? Parecia que estava diante de uma personalidade oposta a que vira em Avalon, tal como se a garota sofresse de algum transtorno bipolar. E assim como ele se perguntava sobre o que ocorria, tecendo comentários mentais, outras pessoas o faziam em alto e bom som, desmerecendo a princesa. Andras bem sabia que as coisas funcionavam exatamente assim: Meincke poderia ser irrepreensível na maior parte do tempo, mas apenas um deslize era suficiente para que falassem o que quisessem a seu respeito a partir dali. A loira havia acabado de arruinar a reputação ilibada que mantinha até aquele momento, e o bastardo não sabia por que estava tão incomodado com algo que sequer o afetava.
Apesar disso, nunca a vira tão confiante e... Magnética. O olhar do moreno não se desviava daquele canto escuro, ainda que tivesse cogitado deixar aquela parte da festa e respirar ar puro. Quando os movimentos de Helena se tornaram mais intensos, ao som de uma batida eletrônica qualquer, verdadeiro incômodo o invadiu –––– isso porque tinha certeza que jamais poderia tocá-la da forma que ela estava a se tocar. E da forma que outro homem ––– nobre, ao que tudo indicava ––– passou a tocá-la, ignorando o fato de que estavam em público. Andras chegou a dar um passo a frente no momento em que viu as mãos masculinas a acariciarem a cintura desnuda da dinamarquesa, mas, o que estava fazendo? O que diria a ela se simplesmente a tirasse do meio da pista de dança? Ele próprio não era um exemplo de decência, tanto que só o que Tereza parecia fazer era apontar sua devassidão nos últimos dias, contudo, era incapaz de assistir inerte à decadência de alguém que considerava excessivamente perfeita.
E quase não acreditou nos próprios olhos quando a saia floral alcançou o chão. Ele sequer havia antecipado o movimento, tão rápidos foram os dedos da princesa. Callum chegou a procurar com os olhos por membros da corte dinamarquesa –––– desesperado por alguém que pudesse intervir –––– mas nenhum dos convidados ao entorno demonstrava consternação com a cena, apenas divertimento. Àquela altura, a loira vestia tão somente a peça íntima e a blusa branca que acompanhava o conjunto, e não parecia preocupada em dar vexames; pelo contrário: estava ensandecida, tomada pela música, de um jeito não tão vulgar como o esperado, mas devastadoramente sexy.
Mas então, tinha passado dos limites.
Sem refletir sobre as consequências, o protegido de Hades se materializou ao lado da garota de cabelos dourados, por acreditar que caminhando não chegaria tão rápido quanto gostaria. Houve protestos dos homens ao entorno quando ele jogou com facilidade o corpo esguio sobre um de seus ombros, não fazendo questão de se mostrar gentil. Havia raiva em seu semblante, e a expressão assassina foi o que manteve aqueles que estavam insatisfeitos distantes. Estava bem claro que socaria qualquer um que se aproximasse enquanto caminhava a passos largos para fora da aglomeração de pessoas, os ouvidos vedados para qualquer reclamação que partisse da princesa dinamarquesa ––– ela havia perdido o direito de opinar no momento em que se livrara da saia. Não sabia o que havia acontecido ali, mas por certo havia salvado a vida de Helena. Ela o agradeceria depois, quando estivesse sã, e foi isso que legitimou Andras a levá-la para o interior do palácio, subindo rapidamente as escadas até o segundo piso. Estava tão desnorteado que não reparou que poderia ter usado os poderes até que estivesse à porta de seus aposentos, soltando a garota somente quando estavam do lado de dentro, batendo a porta com força. O bastardo respirava pesadamente quando disse: ❝ Onde, diabos, você estava com a cabeça? ❞