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Tenho trazido algumas considerações e relações com livros que li pra cá. Então, aqui vai mais uma. Este é o segundo romance que leio da Lygia, li “As horas nuas” (1989) e os nove contos de “A noite escura e mais eu” (1995). Apesar desse nosso encontro não ter me atravessado de modo pessoal ao ponto de me afetar “como um desastre” (cito Franz Kafka ao dizer que um livro deveria ser "o machado para o mar congelado dentro de nós”), ainda assim, alguns livros me interessam ao nível da estrutura narrativa para deleite. Em Ciranda de Pedra (1954), Lygia usa a técnica cinematográfica em terceira pessoa do discurso com mergulhos no fluxo de consciência, principalmente quando Virginia, protagonista deste romance, tenta se equilibrar dentro da realidade e dos conflitos familiares que a cercam.
Virginia lida com sentimentos de não pertencimento, ambiguidades afetivas e uma constante sensação de deslocamento. Filha de uma relação considerada ilegítima e pecaminosa, ela ocupa desde a infância um lugar de fronteira: não pertence inteiramente à família extraconjugal da mãe, tampouco é acolhida pela família matrimonial. Virginia parece ser marcada pela tentativa de conquistar um espaço onde possa, enfim, ser reconhecida e amada.
A ciranda está associada ao movimento que manifesta o acolhimento e a união entre aqueles que compartilham a mesma roda, funcionando no romance como uma metáfora da exclusão. O círculo de estátuas de pedra no jardim representa um espaço ao qual Virgínia deseja pertencer, mas do qual permanece constantemente afastada. Ela contempla esse círculo sempre do lado de fora e observa a intimidade inacessível e um afeto que lhe é negado mesmo antes de estar no mundo. Ao longo da narrativa, contudo, o anseio de ser aceita no grupo, cede lugar ao movimento de compreender a própria identidade para além do reconhecimento familiar e da validação dos outros. É justamente nesse deslocamento, da busca por pertencimento externo para a construção de um pertencimento a si mesma que reside, para mim, um dos aspectos mais sensíveis do romance.
Particularmente, a reviravolta do final me entreteve mais. O desmascaramento das personagens, sobretudo das duas irmãs de Virginia, desfez a imagem de perfeição que sustentava aquela família na visão da Virginia criança, ao mesmo tempo que indicou que cada uma delas também carrega suas próprias fraturas e ambiguidades.
O tempo faz girar a roda e, com ela, expõe as fissuras.
Os dias correm e o passado se sobrepõe ao presente. A primeira vez que li Virginia foi em 2020 e, desde então, mergulhei na jornada de desvendá-la através dos seus escritos. Com o tempo, compreendi que é impossível capturar uma pessoa em sua totalidade, restam apenas juntar os fragmentos desordenados de alguém (lição que aprendi em “O quarto de Jacob”), mas há algo de profundamente íntimo naquilo que ela escolheu transformar em palavras.
Ler os seus diários me permitiu ver as muitas camadas que compunham sua existência, não apenas como uma escritora que considero monumental, mas uma mulher atravessada por contradições, limitações, crueza em suas falas, qualidades, entusiasmos, inseguranças e momentos de alegria. Há uma honestidade crua em suas páginas e uma sensibilidade poética na forma como descreve a cidade, o entorno e a vida cotidiana, mesmo em meio ao contexto da guerra. Seu olhar revela que a vida acontece justamente nesses intervalos, nos detalhes que escapam à pressa. Ela registra o cotidiano sem a pretensão de torná-lo extraordinário e, justamente por isso, o transforma em matéria de deleite para nós, leitoras.
Seus cadernos, suas palavras, não constroem um retrato definitivo, mas preservam o movimento de uma consciência em constante transformação e fiel a si mesma. Aqui, há intenção de preservar a sua memória e exercitar a sua capacidade de capturar os acontecimentos. Ao mesmo tempo, esses registros ultrapassam a esfera íntima. Enquanto conta sobre suas leituras, as fofocas (e muitas) de seus círculos sociais, a guerra ao fundo, as ruas de Londres e o cotidiano de seu tempo, Virginia também produz uma memória coletiva. Seus diários espelham não apenas a história de uma mulher, mas os vestígios de uma época. E talvez seja essa a força de sua escrita: ao registrar a própria vida com tanta consciência, ela acaba preservando também a vida que pulsava ao seu redor.
Esse é o privilégio da literatura, não nos entrega uma pessoa por inteiro, mas os fragmentos de sua voz passam a habitar também em nossa memória.

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Le Sommeil (The Sleepers) by Gustave Coubert (1866)
― Elena Ferrante, The Story of a New Name
[text ID: Is it possible that our parents never die, that every child inevitably conceals them in himself?]

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"Sentia pena daquele mundo de velhos perdidos, confusos entre imagens de si mesmos que remontavam a épocas passadas, ora em harmonia ora em desacordo com sombras de coisas e pessoas de outros tempos. Todavia, eu tinha dificuldade em me manter afastada. Sentia-me tentada a ligar uma voz a outra, uma coisa a outra, um fato a outro."
"Quando entramos na casa de uma pessoa morta recentemente, é difícil acreditar que esteja deserta. As casas não guardam fantasmas, mas retêm os efeitos das últimas ações em vida."
"Eu andava pelos cômodos rearrumando ao meu gosto tudo o que ela havia disposto ao gosto dela (...) bagunçava sua ordem dentro das minhas gavetas, devolvia ao caos o aposento onde eu trabalhava."