[...] existem alguns poucos livros que eu li e que me transformaram em outra pessoa, e acho que toda boa literatura de alguma maneira aborda o problema da, e age como um antídoto contra a solidão.
Quando você escreve ficção, você está contando uma mentira. É um jogo, mas você precisa fazer os detalhes se encaixarem. O leitor não quer lembrar que é uma mentira. Tem que ser convincente, ou o conto nunca decola na mente do leitor.
Não me interessa a ficção que está apenas preocupada em capturar a realidade de uma maneira engenhosa. O que me emputece em boa parte da ficção de hoje em dia é que ela é simplesmente chata, acima de tudo a ficção jovem que sai da Costa Leste, e cujo objetivo é ser interessante para os yuppies mais estereotipados, e que enfatiza a moda, as celebridades e o materialismo.
Escrever ficção apaga o tempo para mim. Eu sento e o relógio deixa de existir por umas horas. É provavelmente o mais perto da imortalidade que eu vou chegar. Fico com medo de soar pretensioso porque todo mundo que escreve ficção está dizendo, "Olha isso aqui que eu escrevi".
Ficção ou move montanhas ou é uma coisa chata; ou ela move montanhas ou não faz nada.
Não sei quanto a vocês, mas eu só fui começar a escrever ficção aos 21 anos, e no começo todo mundo tem que escrever uma certa quantidade de merda [...].
Os escritores que conheço… eles têm algo de uma autoconsciência, e de uma consciência crítica, deles mesmos e dos outros, que ajuda a literatura deles. Mas esse tipo de sensibilidade dificulta muito estar com os outros, e não ficar meio que pairando perto do teto, observando o que rola. Uma das coisas que vocês dois vão descobrir nos anos que vierem depois da universidade é que dar conta de ser um ser humano vivo de verdade, e ainda conseguir fazer um trabalho bom e não ser mais obsessivo do que o necessário, é bem complicadinho. Não é por acaso que você vê os escritores ou ficando obcecados com toda essa coisa do estrelato pop, ou entrarem nessa de drogas e álcool, ou terem uns casamentos horrorosos. Ou eles simplesmente saem de cena lá pelos trinta ou quarenta e tantos. É bem complicado.
Quase todos os escritores que conheço são autocentrados, não em termos de ficar fazendo pose na frente do espelho, e sim de uma tendência não apenas à introspecção, mas a uma autoconsciência terrível. Quando você escreve, você precisa ficar o tempo todo se preocupando com o seu efeito nos leitores.
Mas existem alguns poucos livros que eu li e que me transformaram em outra pessoa, e acho que toda boa literatura de alguma maneira aborda o problema da, e age como um antídoto contra a solidão. Nós somos todos muito, mas muito solitários. E existe um caminho, ao menos na prosa de ficção, que pode permitir que você tenha intimidade com o mundo e com uma mente e com personagens de quem você não pode ser íntimo no mundo real. Eu não sei o que você está pensando. No fundo não sei grandes coisas de você, como não sei grandes coisas dos meus pais, da minha amante ou da minha irmã, mas uma obra de ficção que seja verdadeira de fato permite que você tenha essa intimidade com… eu não quero dizer pessoas, mas ela permite que você tenha intimidade com um mundo que se parece com o nosso num número relevante de detalhes emocionais para que a forma diferente com que você sentiu as coisas possa ser transportada de novo para o mundo real. Acho que o que eu queria que as minhas coisas fizessem era deixar as pessoas menos sozinhas. Ou tocar de verdade as pessoas. Às vezes acho que o que estou fazendo, se tento ser particularmente ofensivo ou radical ou sei lá o quê, é só uma fome imensa de algum tipo de efeito.
[...] o que a ficção e a poesia estão fazendo é o que elas estão tentando fazer há 2 mil anos: afetar alguém, fazer alguém se sentir de determinada maneira, permitir que essa pessoa entre numa relação com ideias e personagens que não são permitidos dentro dos lindes do intercurso verbal comum como esse nosso aqui, sabe: você não me enxerga, eu não te enxergo. Mas a cada duas ou três gerações o mundo fica imensamente diferente, e o contexto em que você tem de aprender a ser um ser humano, ou a ter boas relações, ou a decidir se Deus existe ou não, ou decidir se o amor existe, e se ele é redentor, tudo fica imensamente diferente. E as estruturas com que você pode comunicar esses dilemas ou fazer personagens lidarem com eles parecem se tornar adequadas e depois inadequadas de novo e assim por diante. Nada do que mudou nos dias de hoje me parece ser de uma importância fundamental, mas mesmo assim muita coisa está diferente demais.
A tarefa da ficção antes era tornar o estranho familiar, levar você a algum lugar e deixar você sentir que aquilo era familiar. Parece que uma das coisas da vida de hoje é que tudo se apresenta como familiar, então uma das coisas que o artista tem de fazer agora é pegar boa parte dessa familiaridade e lembrar às pessoas que ela é estranha. Ou seja, pegar as imagens mais banais, as imagens menos artísticas da televisão e da política e da publicidade, e transfigurá-las — tudo bem, isso é meio que um gesto artístico pesado —, mas acho que tem certa validade. Acho que se você consegue tornar essa matéria estranha, e se você consegue fazer as pessoas olharem, digamos, um programa de televisão como "Jeopardy!" ou uma propaganda, e ver essas coisas não como mensagens de Deus, mas como objetos de arte, como produtos da imaginação e do esforço humanos, com objetivos humanos, acho que existe uma forma de você distanciar um leitor desses fenômenos de que eu acho que ele precisa ser distanciado.
Eu tinha um professor que gostava de dizer que a missão da boa ficção era confortar os perturbados e perturbar os confortáveis.
Nós todos sofremos sozinhos no mundo real; a verdadeira empatia é impossível. Mas se uma obra de ficção pode nos dar a capacidade da identificação, via imaginação, com a dor de uma personagem, podemos então conceber mais facilmente a ideia de que outros se identifiquem com a nossa. Isso dá forças, é redentor; ficamos menos solitários por dentro.
[...] se uma artista depende demais da simples ideia de ser estimada, a ponto de o seu fim verdadeiro não estar mais na obra, mas na boa opinião de uma certa plateia, ela vai desenvolver uma tremenda hostilidade em reação a essa plateia, simplesmente porque lhes concedeu todo o poder que era seu.
Em tempos sombrios, a definição de boa arte parece que seria a arte que localiza e tenta ressuscitar aqueles elementos do que é humano e mágico, e que ainda sobrevivem e brilham apesar das trevas. A ficção realmente boa poderia ter a visão de mundo mais escura que quisesse, mas ela ia encontrar uma maneira de ao mesmo tempo retratar esse mundo de trevas e iluminar as possibilidades de se manter vivo e humano dentro dele.
[...] como é que nós, como seres humanos, ainda somos capazes de alegria, de caridade, de conexões legítimas, de coisas que não têm preço? E será que a gente pode fazer essas coisas ficarem mais fortes? Se sim, como, e se não, por que não?
Os escritores de hoje podem basicamente fazer o que quiserem. Mas, por outro lado, como todo mundo pode basicamente fazer o que quiser, sem fronteiras que definam nem limites que precisem ser eliminados, você vê esse ímpeto contínuo de vanguarda, para a frente, sem que ninguém queira se dar ao trabalho de especular qual seria o destino, a meta do movimento para a frente. Os modernistas e os primeiros pós-modernistas — de Mallarmé a Coover, acho eu — quebraram quase todas as regras para nós, mas a gente tende a esquecer o que eles eram forçados a lembrar: a quebra das regras tem que ser em nome de alguma coisa. Quando quebrar regras, a mera forma do vanguardismo rebelde, torna-se um fim em si próprio, o que resta é a má poesia do grupo Language e Psicopata Americano te dando choques nos mamilos e Alice Cooper comendo merda no palco.
Dá pra você justificar o pior tipo de baboseira experimental dizendo "Esses idiotas podem odiar o que estou fazendo, mas daqui a algumas gerações as pessoas vão dar valor à minha revolta inovadora". Todos os artistas de boina com quem eu me formei na universidade e que acreditaram nessa frase agora são redatores publicitários em algum lugar.
Você tem alguns artistas de verdade que aparecem e dividem mesmo por zero e encaram uma porrada de baixaria e de ridicularização para defender umas ideias importantes de verdade. Só que, depois do triunfo deles, e depois que as ideias se tornam legítimas e aceitas, os manivelas e os cabotinos aparecem operando o maquinário, e lá vêm as pelotinhas cinzentas, e agora a coisa toda assumiu uma forma oca, só mais uma instituição da moda.
O que cria um puta de um problema para qualquer artista que considere que sua tarefa é permanentemente transgredir, porque aí a pessoa cai nessa fome insaciável pela aparência da novidade: "Qual coisa totalmente inédita eu ainda posso fazer?". Assim que o pronome de primeira pessoa se intromete nos seus planos você morreu em termos de arte. É por isso que escrever ficção é uma coisa solitária de uma maneira que em geral as pessoas não entendem. É de você mesmo que você precisa se afastar, na verdade, para trabalhar.
Não sei se consigo te dar uma justificação teórica com as pontinhas dos dedos unidas, mas suspeito muito que grande parte da tarefa da verdadeira arte da ficção seja irritar essa sensação de confinamento e de solidão e morte nas pessoas, seja levar as pessoas a encarar isso, já que qualquer redenção humana possível requer que primeiro a gente encare o que é terrível, o que queremos negar.
Isso faz com que a ficção séria seja um negócio sério e complicado para todo mundo que está envolvido no processo.
[...] é quase como se a gente precisasse dos ficcionistas para restaurar a inelutável estranheza das coisas, para desfamiliarizar, como eu acho que você diria.
Para a nossa geração, o mundo inteiro parece se apresentar como algo "familiar", mas como isso obviamente é uma ilusão em termos de qualquer coisa que seja importante de verdade sobre as pessoas, talvez a função de qualquer ficção "realista" seja o contrário do que era — não mais tornar familiar o desconhecido, mas tornar o familiar estranho novamente. Parece ser importante encontrar formas de nos fazer lembrar que quase toda "familiaridade" é mediada e enganosa.
Você precisa ter uma cabeça tão lúcida para ser poeta, uma capacidade de comprimir e destilar, de tornar concreto o que é abstrato. Eu no máximo consigo tornar concreto o que é concreto. Quando estou escrevendo alguma coisa e me perco nas minhas ideias e nos meus humores, eu viajo. Eu copio bastante poesia, se bem que muitas vezes faço isso de um jeito que não é óbvio. Esse é um dos motivos de ser um pesadelo tão grande para mim a coisa toda de lidar com os preparadores de originais; eles fazem umas mudanças e umas sugestões e eu lá manter manter manter manter manter porque muitas vezes eu estou tentando fazer com pontuação o que os poetas tentam fazer com as quebras de verso.
Tenho vergonha do fato de que a vergonha ainda é tão importante para mim, então o que é que eu faço? Eu realizo certos lances literários padrão. Empilho um monte de metáforas, tento de tudo para deixar a prosa bonita, sentando o braço em cada frase. Entupo a coisa de construções de becos-sem-saída padrão, à la Hamlet. Faço toda essa coisa da iniciação-à-vida-adulta. Basicamente tento colocar tanta cobertura no bolo, tanto significado literário, que o que está realmente acontecendo, que é o engodo, fica enterrado.
Eu sou um exibicionista que quer se esconder, mas não consegue; portanto, de alguma maneira eu dou certo.
Parece que você pode escrever um conto minimalista sem sangrar muito. E até pode. Mas não um conto bom.
Trechos de "Um antídoto contra a solidão", de David Foster Wallace. Editora Ayiné. Tradução de Sara Grünhagen e Caetano Galindo. 2021. Link para compra com 50% de desconto.