“Tive um amigo que chamava João… Ah, como falar do João? O João era incrível. Você ia gostar de ter conhecido o João. Ia mesmo. Não tem uma pessoa em sã consciência que não gostaria. Os loucos, os sóbrios, os poetas, as putas; João era um sucesso por onde passava. João encantava. Todo mundo queria ser amigo do João; e todo mundo era. Porque ele dava espaço. Dava liberdade. João nunca diminui ninguém. Muito pelo contrário. João passava confiança e todo mundo confiava no João. João tinha um opala azul. Azul da cor do céu. Toda vez que você entrava no opala do João tocava ‘wake me up when september ends’. Era até engraçado. João amava Green Day. Ele também amava deitar sob capo do seu opala azul em noites estreladas. As estrelas, porra, João amava as estrelas. Amava conversar sobre universo, galaxias, imensidões; alienígenas então, João pirava. Era seu favorito. Com João não faltava assunto. Não tinha assunto ruim. Ele fazia qualquer um ficar interessante. Você podia falar sobre colméia e abelhas ou sobre vida após a morte, João te faria refletir sobre os dois. Faria sim. Tenho certeza. Eu conhecia muito bem o João; o João gostava de teorias, conspirações, um eterno lunático. João era uma pessoa muito caridosa. João participava de projetos sociais, resgatava gatos, alimentava cachorros de rua, fazia trabalhos voluntários. João gostava de ajudar. João se importava com tudo. E chorava por tudo. João era especial. Especial porque tudo doía nele. João chorou pela fome na África, pelos terremotos da China. João chorou por Brumadinho, por Mariana; pelo incendio da boate kiss. João era humano. Mais humano que muita gente. João tinha empatia por tudo. E era isso que deixava ele feliz. João sentia muito. E era por sentir que João sorria. O sorriso do João era lindo. Contagiante. Os lábios rosados de João se envergando e dando espaço pros seus dentes branquinhos, lembro perfeitamente desse sorriso. O João tinha os melhores conselhos. Quantas saudades dos conselhos do João. João falava o que você precisava ouvir. Na lata. Sem delongas. Sem A nem B. João entendia todo mundo. João entendia tanto, que ninguém entendeu João. Ontem fez 1 ano que o João foi encontrado com um bilhete: “eu não consegui, desculpa…”. Até hoje todo mundo se pergunta porque o João nos deixou. Um menino tão feliz. Tão novo. Tão cedo. João não deixou respostas. Mas a vida de João respondia tudo. João nos deixou porque ele acreditava no amor. João morreu pela poluição dos rios, pelo desmatamento da Amazônia, pelo cárcere dos animais. Pela fome, pela pandemia, pela desigualdade. João morreu porque riram do seu opala. Porque opala não era mais o carro do ano. João morreu porque ‘wake me up when september ends’ não tocava mais nas rádios. João morreu porque ele amou o mundo, mas o mundo não retribuiu o seu amor. Agora João é uma estrela. João amava as estrelas…”