Parado, lagartixa.
Mais um singelo marco trago em meu peito ainda aberto. Quando aconteceu? Como? Eu já estava pequeno demais as duas e meia da manhã, em pleno escuro eu já não via mais a mim, de tantas maneiras. O que eu era? Se agora olhava as coisas de baixo, se com a insolência de um pinscher me parecia tolo de mais tudo que se pretendia grande pelas grades e sustentações, se agora me parecia tão fácil lhes dar uma rasteira, visto que eu era uma lagartixa.
Lagartixa, que todos me viam imóvel e, no entanto, era eu quem mais sabia que o show não parava. Lá estava, parado, silencioso. Conscientemente sabia que eu respirava mais fraco que o mundo e ainda assim estava vivo, suficientemente vivo, e uma pedra é muito viva, e uma peça é muito viva. E eu era a peça do jogo que nunca escolhi entrar, por isso melhor um pouco de imobilidade. Eu, lagartixa, guardava minha trinca de ases dentro da minha pele acinzentada e do meu silêncio loquaz. Me criticariam por um bote? Perceberiam sequer?
Ninguém entendia meu truque, porque sempre tem olhos para se vê a covardia e não qualquer outra coisa, ou agora que troco de pele, (lagartixa troca de pele ou sou uma cobra?), digo que eles tem olhos para julgar a covardia sem ver-lhes a estratégia. De fato, eles tem razão numa coisa: dói, bastantemente dói. Mas lhe entregarei meu truque tão mal compreendido para você, agora, eu, que sou uma lagartixa, dou um pedaço de mim para escapar de você, que quer me destruir e isso dói, mas não cessarei de decepar a mim mesmo enquanto houver força para ir num novo local, num novo silêncio, num novo novo não sei o quê.
Eu sorri, por um segundo. Será que sangrei? Será que apartei-me de novo? As vezes é tão difícil, porque é simplesmente o momento. E o momento é como a flecha que finca o centro do alvo do mundo, e a ele nada escapa, nada foge. Se lhe dou uma parte de mim é para fugir de sua odiável grandeza, mas não para fugir o momento, que somos nós dois e além. Você acha covarde meu sacrifício, mas minha vida tem ainda momentos demais para abençoar meu sofrer e me dizer que ainda é pouco, que ainda estou suficientemente vivo e que o pequeno presente que eu lhe dei é apenas isso, o seu pequeno momento de grandeza.








