Estou de volta a minha casa.
A mesma.
Corredor da morte, o iluminado, caminho perdido.
Toda essa merda.
E está tudo muito confuso.
Olho para o ventilador e imagino que está girando como uma roleta, e onde parar define o que faço, o que quero ou quem serei hoje.
Venci a grande batalha.
mas os ferimentos me comem a alma.
Sem casa, sem saber onde vou dormir, o dinheiro acabando e eu gastando cada vez mais em arrependimentos cotidianos.
mas preciso continuar.
Descabelado, fugindo há anos, com o relógio da vida já preto e em decomposição.
Preciso seguir e sempre mudar de lugar, pois eles estão por todas as partes.
Malditos.
Me olhando.
Acenando.
Oferecendo bebidas e querendo me puxas de volta.
Desgraçados.
Mas eu grudo nas paredes,
me escondo atrás dos postes.
sigo pelas sombras
e nunca fico parado.
Aproveito as últimas horas do dia para tomar um bom banho, lavar o cabelo, limpar os dentes, pois não sei se essa noite vai ser boa.
Na rua, em torno da fogueira
de costas pra parede e tomando geral da policia
ou outra noite vagando pela sé e pela liberdade
entre hotéis cheirando a enchente com baratas estáticas por todos os cantos.
aguardando o final de semana
e dizendo que está tudo bem para os amigos.
mas não está,
e eu preciso fugir daqui.
fugir dessa vida dupla, tripla, memento, em que não sei quem sou ou onde estou, buscando todos os dias em locais diferentes e com muita, mas muita sede de tocar fogo em tudo e desaparecer.
memento...
paro e sinto um aperto no peito por não conseguir me lembrar direito das coisas.
termino o banho,
jogo a cueca velha no lixo, arranco a etiqueta da nova e coloco a mesma roupa.
deito para aproveitar os últimos minutos.
minha jaqueta está muito suada, muito surrada e já viu dias melhores.
Ligo para ela, telefone toca, toca, toca, caixa postal.
Também não me atenderia.
Sento para pensar no que fazer da vida, pois é, não pensei nisso.
A revolução tomou o poder mas agora não sabe o que fazer com ele, sem ele ou como administrar o país.
E o dinheiro acaba.
Não tenho fome, mas SEI que preciso comer.
Não me lembro o que comi ontem ou se comi ontem.
Não sei o que há.