Trinta e Cinco Outonos.
Primeiro de maio de 2026.
Foi nesse dia que percebi: a ausรชncia de sorrisos nas minhas fotografias de infรขncia nunca foi um mero traรงo de personalidade. Nรฃo havia graรงa alguma naqueles olhos tรฃo sรฉrios. Havia, ali, apenas dor.
Era o reflexo de uma infรขncia precocemente esmagada pelo desprezo de quem, por natureza, deveria me abrigar. Antes mesmo que eu pudesse entender o mundo, o peso jรก estava lรก. Antes de eu saber nomear a rejeiรงรฃo, ela jรก havia tatuado a minha alma โ talvez desde antes de eu respirar pela primeira vez.
Por quรช?
Trinta e cinco anos se passaram e o eco dessa pergunta continua sem resposta. Ainda procuro, em vรฃo, descobrir quรฃo errada uma crianรงa precisaria ser para merecer receber o que jamais soube dar: o frio do desprezo, a desatenรงรฃo, o mais puro desamor.
E a verdade รฉ que dรณi. Trinta e cinco anos depois, ainda lateja. Ficaram as cicatrizes invisรญveis e os transtornos com os quais agora preciso dividir a rotina. Sobrou, desde aquela menina atรฉ a mulher de hoje, a tarefa exaustiva de tentar remendar uma estrutura quebrada sem motivo aparente. Uma alma que, mesmo sem entender a prรณpria culpa, acorda pedindo perdรฃo ao mundo todos os dias.
Quanto ร queles que causaram isso? Eles seguem ilesos. Jamais terรฃo a dimensรฃo da tempestade que deixaram aqui dentro. Porque, ironicamente, esta alma ferida nรฃo aprendeu a ferir de volta. Mesmo depois de tanto apanhar e sangrar, eu continuo sem saber como dar o troco.
E, no fim das contas, perceber que a minha prรณpria essรชncia se recusa a ser cruel รฉ o que dรณi ainda mais.
โโ alma, nrkluv.


















