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Os poetas aguentam firme. É difícil livrar-se deles, embora Deus saiba que já se tentou. Passamos por eles na estrada de pé com as suas tigelas mendicantes, um hábito antigo. Nada dentro delas agora além de moscas secas e moedas falsas. Eles olham reto em frente. Estão mortos ou o quê? Têm, contudo, a expressão irritante dos que sabem mais do que nós. Mais do quê? O que é isso que alegam saber? Desembuchem, falamos entre os dentes. Digam de maneira direta! Se você tenta obter uma resposta simples, nesse momento eles se fingem de loucos, ou então bêbados, ou então pobres. Vestiram essas fantasias faz algum tempo, esses suéteres pretos, esses andrajos; agora não conseguem mais tirar. E estão tendo problemas com os dentes. Esse é um de seus fardos. Uma ida ao dentista não lhes faria mal. Estão tendo problemas com as asas também. Não temos visto muita coisa de sua parte no setor de voo esses dias. Não os vemos mais pairando nos ares, radiantes, acabaram-se as travessuras aéreas. Para o que diabos são pagos? (Suponha que sejam pagos.) Não conseguem sair do chão, eles e suas penas enlameadas. Se voam, é para baixo, para dentro da terra úmida e cinzenta. Vão embora, dizemos — e levem sua aborrecida tristeza. Não os queremos aqui. Esqueceram-se de como nos dizer que somos sublimes. Que o amor é a resposta: dessa nós sempre gostamos. Esqueceram-se de como bajular. Já não são sábios. Perderam seu esplendor. Mas os poetas aguentam firmes. São tenazes acima de tudo. Não sabem cantar, não sabem voar. Só dão pulos e grasnidos e se debatem contra o ar como se enjaulados e contam ocasionais piadas cansadas. Quando lhes fazem perguntas a respeito, dizem que falam o que devem. Cristo, como são pretensiosos. Há algo que sabem, porém. Há algo que sabem, sim. Algo que estão sussurrando, algo que não podemos ouvir muito bem. É sobre sexo? É sobre poeira? É sobre medo?
OS POETAS AGUENTAM FIRME Margaret Atwood (Trad. Adriana Lisboa)

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Ela. #havaianas #havaianasbrasil

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Que pode um corpo?
Foto: Zilda Onofri
enfim, o fim do mundo chegou.
como naquele dia que vi seu rosto, em gozo, num céu que não era meu.
tudo acabou tão de repente: o sonho que sonhei, foi outro, a vida que jurei um dia, ser minha.
o pacto de amor na beira do lago, hoje esquecido num canto mofado, sem respiro. nossa celebração adiada infinitamente. nunca era o momento propício: a vida difícil, o palco vazio, um inventário primeiro.
um futuro natimorto, que já não era mais possível. tão distante e irreal como esse quadro brincado por deus.
você sempre curtiu minha criança.
as cores que você deixou que eu mesma escolhesse para pintar, tantas vezes, a fachada da varanda da casa que reerguemos juntas, lembra? não, creio que você não lembre mais das tantas camadas de tinta, das memórias do que vivemos: branco, magenta, rosa chá, bege desbotado, preto luto. eu lembro de tudo.
e dói. nunca mais acordar com seu café. nunca mais nossas brumas, nossa fogueiras. nunca mais aquele seu cheiro que já nem existe, pois, se misturou ao cheiro ruim daquele perfume que senti, quando retornei à nossa casa, pela última vez.
nunca mais direi seu nome daquele jeito engraçado, sara.
hoje, diante de tudo, seu nome é triste.
não cura mais, como na minha canção.
ao contrário, seu nome me fere.
estou guardando você na lembrança, como quem escava essa parede grossa de camadas e camadas da tinta que eu mesma escolhi e pintei.
minhas plantas viscejando na varanda, vou lhe deixar de herança.
a marca de tudo que fiz crescer e viver, também deixarei.
sempre tive tão pouco.
meus potinhos de vidro, meus temperos.
pode ficar com o tudo e o nada de mim.
o fim do mundo chegou junto com o fim do que fomos, um dia.
nunca mais, agora.
nunca mais você dentro, aqui.
nunca mais querer esse sofrer.
você me fez feliz.
você me fez um mal.
e agora, dos escombros, dessas ruínas invisíveis, outro mundo vai se reconstruir.
como aquela casa que um dia, levantei.
nunca mais nos chamaremos de AMOR.
mas ainda assim, ainda que distante, te guardarei sempre às seis horas, numa ave maria, cheia de graça.
amém.
(Polayne)
art: denilson baniwa
A defesa da marginalidade supõe a existência de um centro totalitário. Mas se este centro e sua totalidade são ilusões, o elogio das margens é bastante ridículo. É muito louvável querer defender as reivindicações do corpo que sofre e do calor humano contra a fria universalidade das leis científicas. Mas se esta universalidade advém de diversos lugares nos quais sofrem corpos que são feitos de carne e calor, esta defesa não se torna grotesca? Proteger o homem da dominação das máquinas e dos tecnocratas é uma tarefa digna de elogios, mas se as máquinas estão cercadas por homens que as saúdam, tal proteção é absurda (Ellul, 1977). Demonstrar que a força do espírito transcende as leis da matéria mecânica é uma tarefa admirável, mas tal programa é uma imbecilidade caso a matéria não seja material, nem as máquinas mecânicas.
Bruno Latour

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Não acredito que cada um tenha o seu lugar. Acredito que cada um é um lugar para os outros.
We loved each other with a premature love, marked by a fierceness that so often destroys adult lives.
Vladimir Nabokov