Tinha um cara por aí
Não era desses que chegava chegando,
nem desses que faziam questão de ser visto.
Andava na dele,
fone no ouvido,
um monte de pensamento na mochila
e umas esperanças amassadas no bolso.
Gostava de olhar a cidade acesa de noite.
Achava engraçado como cada janela iluminada
escondia uma vida inteira lá dentro.
Era desses que conversava com planta,
guardava bilhete velho,
e enxergava significado
em coisa que ninguém reparava.
Aí um dia aconteceu.
Nem foi num filme.
Nem teve trilha sonora.
Foi só numa tarde qualquer.
Ela apareceu.
E o mundo continuou exatamente igual.
Os ônibus continuaram atrasando.
O café continuou esfriando.
As pessoas continuaram correndo.
Mas alguma coisa tinha mudado de lugar.
Ela tinha um sorriso desses
que faz a gente esquecer
o que tava pensando.
E ele,
que sempre teve resposta pra tudo,
ficou sem nenhuma.
Os dias foram passando.
Uma conversa aqui.
Uma risada ali.
Um silêncio confortável acolá.
E sem perceber
o moleque que sempre andou sozinho
já procurava um segundo copo na mesa.
Não porque precisava.
Mas porque começou a gostar da ideia
de dividir a vista.
E pela primeira vez em muito tempo
o futuro não parecia um lugar distante.
Parecia só a próxima esquina.










