Tem coisa que a gente não diz. E não é por educação, nem por escolha. É porque falta ar. E a palavra pesa tanto antes de nascer que a boca desiste sem nem mesmo tentar.
Eu passei anos assim, respirando pela metade. Pensando demais, engolindo tudo, até o silêncio criar raiz dentro de mim. E raiz pesa. Ocupa o corpo, ocupa o riso, ocupa a alma.
Levou muito tempo até eu perceber: eu não estava me calando só pro outro, eu estava me calando pra mim.
Fazendo de conta que eu não sentia. Que não doía. Que não queria. Fingindo que guardar era uma forma de cuidar, de preservar, era uma forma de lidar, quando, na verdade, era só medo... do abandono, da quebra, medo de mim mesma inteira.
Então comecei a falar. Não foi bonito, não teve coragem cinematográfica. Falei com voz fraca, quase tímida, mas falei. E foi estranho: senti como se soltasse um peso enorme, não no mundo lá fora, mas dentro de mim, onde tudo pesava além do que aguentava.
Falar não muda o mundo, mas muda a pele. Muda a forma como a gente ocupa o corpo. Como a gente respira.
Descobri que eu não quero mais engolir o que quer que seja. Quero cuspir palavra, e talvez doa, talvez manche, mas aceito o risco. Quero a verdade toda, ainda que me sobre menos gente depois dela.
Porque aprendi: o que machuca não é a ferida aberta, é a inflamação escondida
O medo ainda tá aqui. Medo de falar e não ser compreendida, medo de falar antes de compreender o outro. Mas o medo maior é perder a mim mesma, deixar a coragem escorrer pelos dedos, esquecer minha sinceridade, essa que sempre foi tão minha, sempre fala mais alto.
Minha voz é o único espaço onde posso morar, inteira, sem pedir licença.
E é isso que eu escolho.














